Plataforma do Medo

06/03/2006 | Categoria: Críticas

Novato Chritopher Smith imagina criatura assassina vivendo incógnita no metrô de Londres

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★½☆☆

Os melhores filmes de horror geralmente nascem na cabeça de diretores desconhecidos com pouco dinheiro em mãos. Foi com isso em mente que o diretor Christopher Smith alugou uma estação abandonada de metrô em Londres para filmar “Plataforma do Medo” (Creep, Inglaterra/Alemanha, 2004), um pequeno e curto exercício de suspense . Seu objetivo era simples: matar a platéia de medo. O resultado final, embora tenha algumas qualidades e funcione realmente bem para aficionados do gênero, é um tanto irregular.

A história bolada pelo diretor, que também é roteirista, explora a já batida idéia de que criaturas desconhecidas poderiam viver, nos subterrâneos das grandes cidades, sem que os habitantes tomassem conhecimento disso. Em “Mutação” (1997), por exemplo, o cineasta mexicano Guillermo Del Toro imaginou baratas gigantes se desenvolvendo nos esgotos de Nova York. Há inúmeros filmes semelhantes. Smith imaginou o cenário em Londres e filmou a história de uma bizarra criatura que ameaça a vida de uma garota.

A condução do clima soturno é bem feita, apesar de apelar para algumas técnicas batidas, como o uso (excessivo) de câmera subjetiva para sugerir a presença do ser assassino perto de vítimas em potencial. A melhor idéia, porém, é dar à mocinha um perfil incomum: Kate (Franka Potente, de “Corra Lola Corra”) gosta de beber, tem uma quedinha por cheirar um certo pó branco e, na noite em que a história se passa, mantém o firme propósito de encontrar o ator George Clooney em um hotel londrino e persuadi-lo a passar a noite com ela. Em outras palavras, trata-se de uma groupie chique. Não é uma nova Cinderela, como as heroínas normais de filmes de horror.

A caminho do encontro com o astro de Hollywood, porém, Kate adormece em uma estação de metrô. Quando acorda, todos os trens já passaram, e o lugar foi trancado com ela, aparentemente sozinha, dentro. Não demora muito para que Kate descubra que ela não está exatamente sozinha. A primeira metade do filme, enquanto Christopher Smith se recusa a revelar a natureza da criatura que ameaça Kate, funciona bem. Aliás, a cena da primeira aparição do assassino contém o susto mais bem bolado do filme. Segure-se na cadeira para não gritar.

Por outro lado, Smith não soube conter a tentação de desenvolver demais a criatura, quase como um personagem central, de forma que o espectador comece, em certo momento, a desenvolver sentimentos ambivalentes sobre ela. Como se não bastasse, o roteiro erra ao mergulhar na inverossimilhança – tudo bem, podemos aceitar a existência de formas de vida desconhecidas vivendo nos esgotos, mas supor que essa criatura seja capaz de matar dezenas de pessoas sem ser descoberta é um pouco demais.

Ainda por cima, o assassino mantém uma espécie de câmera de tortura repleta de aparelhos que ele jamais teria condições de transportar e manter em segredo em uma estação de metrô. Dessa forma, “Plataforma do Medo” erra ao construir investir em um cenário realista para, depois, destruí-lo com situações que jamais poderiam acontecer da maneira descrita, em um mundo real. Para os verdadeiros fãs de horror B, contudo, o filme tem uma cota bastante alta de cenas violentas e sustos, o que garante o interesse.

Uma curiosidade interessante é a semelhança de “Plataforma do Medo” com o também britânico “Abismo do Medo”, de Neil Marshall, feito no ano seguinte. Os dois são filmes de horror claustrofóbicos e escuros, feitos com baixo orçamento, possuem duração curta e elenco desconhecido, além de se levarem muito a sério. A diferença é que Marshall fez um filme mais inteligente, com diálogos mais bem trabalhados, e melhor filmado, com uso de iluminação especialmente arrojada, além de investir em um final aterrorizante que mantém a platéia elétrica.

A Imagem Filmes lançou o filme de Christopher Smith em DVD no Brasil. A cópia em disco tem uma boa e outra má surpresa. A boa é o áudio, excelente na versão inglesa (Dolby Digital 5.1) e boa na dublada (DD 2.0). A ruim está no formato da imagem, cortada nas laterais (4:3). Há ainda uma galeria curta de entrevistas em vídeo com membros do elenco, legendadas em português.

– Plataforma do Medo (Creep, Inglaterra/Alemanha, 2004)
Direção: Christopher Smith
Elenco: Franka Potente, Vas Blackwood, Ken Campbell, Jeremy Sheffield
Duração: 85 minutos

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