Podecrer!

08/04/2008 | Categoria: Críticas

Filme de adolescente com cara de Brasil é irregular, mas se beneficia da onda de nostalgia pela década de 1980

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★★☆☆

A geração que detém o poder econômico no Brasil, na primeira década do século XXI, é a mesma que viveu a fase dourada da juventude – a transição entre o colégio e a faculdade – nos anos 1980. Por isso, é perfeitamente natural o fenômeno cultural da nostalgia saudosista por aquela época, quando o Brasil ainda era governado pelos militares e o rock nacional começava a aparecer com destaque. Daí o sucesso dos almanaques ilustrados dedicados ao período, cheios de fotos coloridas de Ataris, pirulitos Dip’n Lik e Evandro Mesquita. “Podecrer!” (Brasil, 2007) transporta esta onda nostálgica para o cinema. Por sorte, o faz sem oportunismo, resgatando um estilo de filme juvenil e despretensioso que não costuma emplacar no Brasil.

A história se passa em 1981, no Rio de Janeiro, e focaliza um grupo de adolescentes cursando o último ano de uma escola secundária de classe média. Dois deles recebem mais atenção na narrativa: João (Dudu Azevedo), garotão surfista que toca guitarra e sonha em ter uma banda de sucesso, e Carol (Maria Flor), tímida filha de exilados políticos que acaba de voltar ao Brasil e quer virar cineasta. Eles engatam um namoro que pode virar coisa séria. Ao redor de ambos, gravitam figuras carimbadas que existem em toda escola secundária: a ex-gordinha que virou gostosa (Fernanda Paes Leme), a introvertida melancólica (Liliane Castro), o doidão ambicioso que quer se dar bem na vida (Marcelo Adnet), o bagunceiro (Sílvio Guidane), o fã de Bob Marley (Gregório Duvivier).

Uma das boas sacadas de cineasta estreante Arthur Fontes é o uso inteligente de metalinguagem – a personagem Carol anda para todo lado com uma câmera Super 8, fazendo um documentário sobre a turma, e “Podecrer!” freqüentemente exibe as cenas que a atriz está filmando, com aquela textura granulada típica do formato 8mm. Aliás, a reconstituição de época é muito bem feita, caprichando especialmente na fotografia em tons pastéis, com aquela luz típica de final de tarde que o equipamento disponível no início dos anos 1980 registrava em película. Detalhista e cuidadoso, mas sem cometer exageros cenográficos, o filme jamais vira um desfile de badulaques da época, apesar de ter um Genius aqui e pranchas de surf com rabo swallow (em forma de triângulo) acolá.

Com honestidade e despretensão, a narrativa acompanha o cotidiano do pessoal, abrindo espaço para os dramas, medos e desejos típicos dos adolescentes: saídas noturnas, escolha da profissão, virgindade, gravidez indesejada, aborto, experiências com drogas e bebidas. De modo geral, a atuação de todo o elenco é uniforme e eficiente, sem afetações ou excessos de gírias que poderiam deixar o filme datado. Às vezes, a ingenuidade juvenil da trama transpira também para a mise-en-scéne (organização dos elementos dentro do plano), com tomadas óbvias que pecam por didatismo em excesso ou composições equivocadas. Em pelo menos duas ocasiões, por exemplo, Fontes põe três personagens para bater papo em uma tomada única, sem cortes, e ao invés de usar a técnica de profundidade de foco (o que deixaria todo mundo nítido simultaneamente) prefere fazer o foco saltitar de um para o outro, criando composições incrivelmente confusas.

O roteiro, escrito por Marcelo Dantas com base no livro dele mesmo, também é irregular, mesclando cenas de atmosfera sensível e verdadeira (a visita à clínica de aborto) com outras claramente artificiais e ensaiadas (o professor que toma chá de cogumelo por engano, a noite na boate). A trilha sonora resume perfeitamente a irregularidade do filme como um todo: não é óbvia, resgatando canções obscuras de Tim Maia, Gil e Ben Jor (algo positivo), mas despreza por completo a cena rock dos anos 1980 (nada de Blitz ou Barão Vermelho) – e isto soa no mínimo estranho para um filme que pretende retratar a época. Apesar dos deslizes, os defeitos jamais são ocasionados por pretensão, o que é um dado positivo. “Podecrer!” se alia a “Houve uma Vez Dois Verões” (2002), de Jorge Furtado, na tentativa de criar um legítimo filme de adolescentes com cara de Brasil.

O DVD da Sony tem boa qualidade de imagem (widescreen anamórfica) e áudio (Dolby Digital 5.1). Como extra, um making of.

– Podecrer! (Brasil, 2007)
Direção: Arthur Fontes
Elenco: Dudu Azevedo, Maria Flor, Fernanda Paes Leme, Gregório Duvivier
Duração: 94 minutos

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