Polícia, Adjetivo

19/10/2010 | Categoria: Críticas

Filme romeno se afasta da causalidade e valoriza os tempos mortos, impregnando os filmes com uma aura de realidade irresistível à comunidade cinéfila

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★★★☆

Certa vez, perguntado numa entrevista sobre o andamento lento de seus filmes, o norte-americano Jim Jarmusch citou o diretor japonês Yasujiro Ozu como principal influência. Ele argumentou que seu maior interesse no cinema não estava na sucessão lógica de fatos narrativos encadeados em uma trama, mas sim naquele conteúdo imaterial e imponderável que estaria contido nas falhas, nas rachaduras do tecido narrativo: os tempos mortos, aqueles momentos em que nada parece acontecer. Ocorre que Jamursch, como todo cineasta norte-americano, foi criado dentro de uma tradição em que o diretor é, acima de tudo, um contador de histórias. Ou seja, ele até tenta se desviar da causalidade implacável inscrita na narrativa dos filmes norte-americanos, mas não conseguir ir muito longe. Existe toda uma tradição por trás dele que corta um pouco suas asas.

Esta predominância de tempos mortos está, com certeza, na raiz do culto ao cinema romeno que nasceu neste princípio do século XXI. Como havia ocorrido na década anterior (1990), com os filmes iranianos e em menor escala com a cinematografia dinamarquesa da geração de Lars Von Trier, os filmes romenos se destacam da paisagem cinematográfica cada vez mais globalizada como maçãs no meio de bananas. O cinema romeno se afasta da causalidade e valoriza os tempos mortos, impregnando os filmes com uma aura de realidade e com um tempero anti-hollywoodiano que parece irresistível à comunidade cinéfila, tão saturada pelas dezenas de produtos audiovisuais de ritmos, personagens e tramas idênticas que a fábrica de sonhos de Hollywood desova todos os anos.

É nesse contexto que deve ser compreendido um filme como “Polícia, Adjetivo” (Politist, Adjevtif, Romênia, 2009). A sinopse do segundo trabalho de Corneliu Porumboiu sugere um thriller policial: um detetive (Dragos Bucur) recebe a incumbência de investigar um estudante flagrado fumando haxixe, e denunciado por um ex-amigo como se fosse traficante. O filme começa no momento em que Cristi compartilha com seus superiores o resultado da primeira semana de campana. Ele não encontrou evidências de tráfico, e tem dúvidas morais sobre prender o estudante, condenando-o a sete anos de prisão – como manda a lei romena – apenas por fumar um inofensivo baseado diário. Ocorre que seus superiores não concordam com ele.

Sob certo sentido, podemos colocar “Polícia, Adjetivo” lado a lado com o clássico “Operação França” (1971), de William Friedkin. São dois trabalhos em que os protagonistas, policiais, passam quase a maior parte do tempo seguindo suspeitos de crimes e vasculhando suas vidas. Podemos ver brevemente um relance da existência pessoal bagunçada dos heróis, bem como suas relações conflituosas com aqueles que estão acima na hierarquia policial. Mas os dois filmes não poderiam ser mais diferentes – e a questão dos tempos mortos está na base dessa diferença. “Operação França”, como o cinema norte-americano em geral, está impregnado de uma causalidade feroz e de uma energia inesgotável. “Polícia, Adjetivo”, ao contrário, observa tudo de longe. Valoriza a monotonia, a rotina, o conflito moral.

É o cinema do tempo versus o cinema do movimento. Nesse sentido, o estilo adotado por Porumboiu (como também por todos os demais cineastas romenos da mesma geração) está próximo dos diretores modernistas europeus dos anos 1970, sobretudo Theo Angelopoulos e Michelangelo Antonioni: longos planos-seqüências silenciosos, muitas vezes com a câmera fixa, sem música e sem diálogos. Não há close-ups; a câmera evita o sistema plano/contraplano e quase sempre acompanha os diálogos em planos médios, sem cortes, enquadrando todos os atores de uma só vez. Os personagens são filmados muitas vezes de perfil, ou com o rosto escondido (devido ao frio, o detetive passa a maior parte do tempo com o casaco encobrindo a boca e o nariz). Trata-se de um cinema desdramatizado até o osso, inteiramente despido de artifícios. O que sobra é apenas o essencial: pulsões humanas e conflitos interiores.

Obviamente, esse tipo de cinema não é hegemônico e afasta a maioria dos espectadores, que o consideram chato, pedante e sem graça. Provoca, também, reação inversamente proporcional naquela pequena parcela de consumidores do audiovisual – a comunidade cinéfila – para quem o cinema deve estar o mais próximo possível do estatuto de arte. Essa turma está sempre à procura de algo que tome o rumo oposto às modas comerciais, o que ocorre com o cinema romeno. A chancela do Festival de Cannes reforça essa ligação umbilical. É por isso que as salas de projeção alternativas esgotam ingressos para produções como “Polícia, Adjetivo”, enquanto os cinemas comerciais fogem delas como o diabo da cruz.

Isso posto, é importante ressaltar que Corneliu Porumboiu, como a maioria dos outros cineasta romenos, tem realmente algo de relevante a dizer. E não o faz de modo panfletário, construindo uma lição de moral e empurrando-a goela abaixo de sua platéia. Sua abordagem é mais sutil, bem planejada e interessante. “Polícia, Adjetivo” documenta e reflete sobre o difícil período de transição da Romênia (do comunismo fechado ao capitalismo de mercado em pouco mais de duas décadas) através de um microcosmo perfeita e solidamente construído em torno de um personagem sobre o qual praticamente nada é dito. Ademais, a longa seqüência final arremata a ação dramática (ou anti-dramática) com lucidez e inteligência, ressaltando e até explicando indiretamente o ar melancólico fortemente demarcado pela paleta de cores frias, pelos cenários decadentes e pelo subtexto político. Um belo filme, mas não para todo mundo.

O DVD da Imovision mantém o aspecto correto da imagem (wide anamórfico) e o áudio em dois canais (Dolby Digital 2.0).

– Polícia, Adjetivo (Politist, Adjevtif, Romênia, 2009)
Direção: Corneliu Porumboiu
Elenco: Dragos Bucur, Vlad Ivanov, Irina Saulescu, Ion Stoica
Duração: 115 minutos

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