Ponte, A

28/03/2008 | Categoria: Críticas

Irregular e de ética no mínimo duvidosa, documentário sobre suicídios tem alguns momentos impressionantes

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★★☆☆

O ano de 2003 ainda não terminara quando o cineasta Eric Steel pediu permissão oficial para passar os doze meses seguintes filmando a ponte Golden Gate, em San Francisco (EUA). Ele disse às autoridades que faria um documentário sobre aquela que é uma das maiores obras de engenharia do século XX, e um dos pontos turísticos mais visitados do país. Recebeu a autorização. Somente dois anos depois se descobriu que Steel havia mentido. “A Ponte” (The Bridge, EUA/Reino Unido, 2006) versava sobre um aspecto da estrutura de aço que as autoridades preferem não lembrar: a Golden Gate como o local mais procurado do planeta por suicidas.

A idéia do filme surgiu quando o diretor leu um artigo sobre o tema na revista New Yorker. A metodologia insólita do filme lhe veio à mente com clareza: deveria colocar equipes filmando a ponte, sem cessar, durante todos os dias do ano de 2004. Como as estatísticas mostram que há ali um suicídio a cada 15 dias, Steel imaginava que poderia flagrar muita gente dando cabo à própria vida. A ponte virava um pretexto para capturar o verdadeiro foco do filme: dar rosto, cor e formas a esse estranho misterioso, que traz dentro de si um híbrido paradoxal de covardia e coragem: o suicida. Quem ele é? Que dramas vivia antes de tomar uma decisão tão radical?

Ao estrear, em 2006, “A Ponte” trouxe atrás de si um rastro de polêmica. Boa parte da crítica internacional questionou seriamente os dilemas morais que envolviam a metodologia escolhida por Steel. Estes dilemas trazem uma cascata de perguntas com potencial para condenar a obra de antemão, antes mesmo que se veja um único fotograma dela: será que é ético filmar alguém que está prestes a se matar, sem interferir no ato suicida? Steel sabia, e o espectador sabe, que se o cineasta avisasse aos policiais que patrulham a Golden Gate sobre as intenções suspeitas de todo mundo que passava longos minutos à beira da ponte, tomando coragem para dar o vôo de 67 metros de altura sobre o mar gelado, não haveria suicídios filmados. Não haveria imagens chocantes. Não haveria filme. Entre o filme e a vida, Eric Steel escolheu o filme. Uma escolha, no mínimo, polêmica.

O resultado final é, sem dúvida, perturbador. Tome-se o exemplo do personagem que Steel escolheu como “protagonista”, o roqueiro Gene. Vestido de preto, longos cabelos esvoaçantes, o rapaz é visto durante toda a duração do longa caminhando, atormentado, para um lado e para o outro da ponte. Seus movimentos são intercalados com depoimentos de parentes e amigos, que contam em detalhes a sua agonia. Outros cinco casos – todos filmados por Steel – recebem abordagens semelhantes, melodramáticas. Algumas entrevistas são comoventes. Outras nem tanto. Há depoimentos que nada acrescentam. Outros são impressionantes.

Um rapaz de 24 anos, raro suicida que sobreviveu à queda, conta o seu drama. Tem transtorno bipolar e se trata com medicamentos. No instante em que largou o corrimão da ponte e mergulhou para a morte, revela exatamente o que estava pensando: “percebi que tudo na minha vida que eu via como irremediável era totalmente remediável, a não ser o salto que tinha acabado de dar”. Ele quebrou algumas vértebras, e sobreviveu graças a uma foca, que involuntariamente o ajudou a boiar, enquanto a patrulha marítima chegava. Na maior parte do tempo, porém, os depoimentos não vão muito além do banal. Como documentarista, Eric Steel está longe de um Werner Herzog.

O próprio cineasta se defendeu das críticas, informando que a equipe de filmagem avisava à polícia, pelo rádio, sempre que algum potencial suicida aparecia à beira da ponte. Várias vidas, segundo ele, foram salvas graças à estratégia. Além disso, o filme também disparou involuntariamente uma campanha para a construção de parapeitos mais altos na Golden Gate – algo que a polícia de San Francisco nunca fez, porque conspurcaria a beleza estética do ponto turístico. Infelizmente, nenhuma dessas questões fundamentais é debatida no filme, um documentário tão contraditório e insuficiente quanto são perturbadoras as imagens que carrega.

O DVD da Imagem Filmes não contém extras. A qualidade da imagem é OK (widescreen anamórfico) e o áudio é razoável (Dolby Digital 2.0).

– A Ponte (The Bridge, EUA/Reino Unido, 2006)
Direção: Eric Steel
Documentário
Duração: 95 minutos

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