Ponto de Vista

19/08/2008 | Categoria: Críticas

Montagem rápida e de grande clareza mascara problemas de lógica no roteiro deste thriller político

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★★☆☆

O título nacional de “Ponto de Vista” (Vantage Point, EUA, 2008) é um raro caso de tradução não-literal que funciona com mais eficiência do que o original. O filme de estréia do cineasta Pete Travis retoma a estratégia narrativa em formato de quebra-cabeça fílmico, popularizada por Quentin Tarantino em “Jackie Brown” (1997). A fórmula consiste em contar uma mesma história de vários ângulos diferentes. É justamente a operação de alterar o ponto de vista adotado que, a cada revisão dos acontecimentos, acrescenta uma nova informação ao caso. O ritmo vertiginoso impresso por Travis ajuda a mascarar os problemas de lógica deste thriller político, cujos personagens simplistas e superficiais impedem a produção de ultrapassar a barreira do entretenimento descompromissado, enquanto a premissa arrojada não resiste a uma análise atenta.

O roteiro escrito pelo veterano Barry Levy narra um atentado ao presidente dos Estados Unidos (William Hurt) durante uma solenidade de combate ao terrorismo internacional, que acontece numa praça da cidade de Salamanca (Espanha). Na ocasião, o chefe de Estado dos EUA leva dois tiros certeiros, enquanto duas explosões consecutivas nas redondezas do evento criam um pandemônio na cidade. O evento dura cerca de 20 minutos, e é encenado seis vezes. Em cada uma delas, muda o ângulo narrativo. Vemos o atentado do ponto de vista de uma jornalista (Sigourney Weaver), de um segurança (Dennis Quaid), de um agente da polícia espanhola (Eduardo Noriega), de um turista norte-americano presente ao local (Forest Whitaker) e do próprio presidente. Há ainda uma subtrama boba, envolvendo uma mãe espanhola e sua filha pequena, que não acrescenta nada à história principal.

O truque mais utilizado por Barry Levy é a sacada do já citado filme de Tarantino. Cada novo segmento adiciona uma nova peça ao quebra-cabeça, de forma que somente ao final da projeção o espectador consegue ter a visão do quadro completo. É importante perceber que a ordem dos segmentos tem importância fundamental para a narrativa. Não foi à toa que o cineasta Pete Travis escolheu, como segmento inicial, o ponto de vista de uma jornalista, que assiste ao acontecimento de longe, cercada de monitores de TV que mostram imagens do atentado de inúmeros ângulos, e podem ser manipuladas livremente. A escolha do personagem é inteligente, pois permite que o espectador tenha uma visão clara e objetiva, embora incompleta, do ato terrorista. O ângulo é de um observador privilegiado, sem envolvimento emocional direto com o que vê.

As quatro encenações seguintes mostram pontos de vista de participantes ativos do acontecimento. O estilo de edição é bem dinâmico: fragmentado, caótico, com uso abundante de câmera na mão – os cortes secos e rápidos e o relógio no canto da tela, demarcando o começo de cada segmento, lembram a lógica de um episódio da série “24 Horas”. Desta forma, o envolvimento emocional da platéia é muito maior. Se observadas atentamente, porém, as encenações só se sustentam individualmente, e não constituem um conjunto sólido. Se fosse possível ver os seis segmentos simultaneamente, a trapaça ficaria evidente. Eles não começam exatamente no mesmo instante, não têm a mesma duração e não terminam ao mesmo tempo. Certos acontecimentos são mais demorados em alguns segmentos, e passam rápido em outros.

Além disso, o roteiro não consegue manter a premissa inicial de adotar um só ponto de vista para cada unidade dramática. Assim, a sexta encenação quebra a regra estabelecida anteriormente e resulta sem criatividade, ao acompanhar a movimentação de vários vilões e esclarecer, pontualmente, todas as dúvidas que remanesciam das encenações anteriores. É importante assinalar, também, que Pete Travis utiliza este segmento final (que é mais longo do que os demais) como um tradicional terceiro ato de aventura, incluindo uma longa perseguição de automóveis cuja geografia também apresenta problemas de credibilidade – como acreditar que os automóveis, depois de correr vários minutos em alta velocidade, poderiam ser alcançados por personagens que se moviam correndo, a pé, pelas mesmas ruas?

Aliada à ação incessante, a curta duração acaba por prejudicar o desenvolvimento dos personagens, que acabam resultando superficiais e sem qualquer complexidade dramática. Trata-se de um caso (infelizmente não muito raro) de desperdício de talentos, já que a qualidade dos atores envolvidos é bastante alta. Forest Whitaker e William Hurt, ambos ganhadores do Oscar, interpretam com ar de enfado. O galã espanhol Eduardo Noriega (“Preso na Escuridão”) não tem tempo para mostrar a que veio, e a participação de Sigourney Weaver parece mais uma ponta de luxo. De todos os envolvidos no atentado, apenas o agente secreto vivido por Dennis Quaid ganha uma composição mais cuidadosa – e mesmo aí existe um problema, já que o personagem é claramente decalcado do protagonista vivido por Clint Eastwood em “Na Linha de Fogo”, de Wolfgang Petersen.

Mesmo com tantos senões, o filme de Pete Travis consegue entreter com alguma eficiência, graças a algumas qualidades. A principal delas é a boa montagem (assinada por três nomes), que consegue aliar clareza narrativa e ritmo veloz a uma história repleta de pequenos detalhes, povoada por uma dúzia de personagens e cuja cronologia não é linear. Um bom exemplo está no segmento que mostra o ponto de vista do turista (Whitaker). A edição da seqüência do ataque ao presidente permite ao espectador não apenas compreender claramente os pequenos detalhes daquilo que está se desenrolando na praça espanhola, mas também localizar (e, dessa forma, sincronizar mentalmente) todos os personagens importantes apresentados nos segmentos anteriores da mesma cena. Um pouco mais de cuidado no desenvolvimento da história e teríamos aqui um thriller mais interessante.

O DVD simples, da Warner, não tem extras. Mantém o enquadramento correto do filme (widescreen anamórfico) e tem boa trilha de áudio (Dolby Digital 5.1).

– Ponto de Vista (Vantage Point, EUA, 2008)
Direção: Pete Travis
Elenco: Dennis Quaid, William Hurt, Forest Whitaker, Eduardo Noriega
Duração: 90 minutos

| Mais


Deixar comentário