Popeye

15/12/2006 | Categoria: Críticas

Aventura semi-esquecida oferece a chance de ver grande produção infantil dirigida por Robert Altman

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★★☆☆

Um cineasta iconoclasta e autoral, especialista em montar complexas teias de relações humanas, no comando de uma produção infanto-juvenil? Vista em retrospectiva, a decisão da Paramount em pôr o cineasta Robert Altman no comando de “Popeye” (EUA, 1980) já prenunciava um fracasso antes mesmo que uma única polegada de celulóide fosse rodada. Deu no que deu: renda nas bilheterias abaixo dos US$ 50 milhões, quantia minúscula para um longa-metragem que trazia como protagonista um dos personagens mais populares dos desenhos animados da TV norte-americana.

Se conferido com atenção, o trabalho não é exatamente ruim. “Popeye” tem qualidades: a escalação do elenco é impecável, a caracterização dos personagens ficou perfeita, e os cenários põem o espectador diretamente no ambiente de um porto. A Paramount não economizou na pré-produção: mandou erguer uma cidade inteira, na ilha de Malta, durante sete meses de trabalho duro, e o resultado é tão bom que seria possível sentir o cheiro de peixe, se o filme tivesse odor. No entanto, os longos números musicais e as raras e anêmicas seqüências de ação deixam o filme com cara de aventura para adultos.

Não são poucos os críticos que põem “Popeye” como o pior trabalho de toda a carreira de Altman. Considerando a qualidade geral dos filmes que o cineasta dirigiu (“M.A.S.H.”, “Nashville”, “Short Cuts – Cenas da Vida” e “Jogos e Trapaças – Quando os Homens São Homens”), este fato não chega a ser desabonador; não é nem mesmo uma surpresa. De qualquer forma, o longa-metragem vale uma conferida atenta, nem que seja para avaliar a estréia do comediante Robin Williams no cinema. No papel-título, turbinado por um par de braços de espuma e murmurando frases incompreensíveis a todo momento, o ator impressiona pela semelhança espantosa com o marujo comedor de espinafre das tirinhas.

Boa parte da má vontade de público e crítica com “Popeye” vem do fato de que o roteirista Jules Feiffer privilegiou a fase inicial do personagem, roubando elementos nas tirinhas de jornais dos anos 1930 para criar a história. Naquela época, só para citar um exemplo de como Popeye era diferente, o marujo odiava comer espinafre – isto só acontece uma vez nos 114 minutos da aventura, e olhe que o personagem engole a pulso a latinha esverdeada, cujo conteúdo é empurrado goela abaixo pelo eterno inimigo Brutus (Paul L. Smith, numa ótima caracterização).

No todo, é uma história simples, que começa com a chegada de Popeye no porto de Sweethaven. O marujo viaja pelo mundo procurando o pai desaparecido. Na cidade dominada pelo violento Brutus (Altman usa rosnados de tigres para criar os ruídos ferozes que o personagem faz quando está comendo), ele conhece e se apaixona por Olívia Palito (Shelley Duvall, perfeita no papel), adota o pirralho Gugu (Wesley Ivan Hurt, neto do diretor) e implica com o comedor de hambúrgueres Dudu (Paul Dooley).

Um enredo simples e direto, esticado excessivamente pelos longos e desnecessários números musicais, com coreografias explicitamente inspiradas em números de circo – Altman contratou malabaristas e ginastas para interpretar os habitantes da cidadezinha. Além disso, há pouquíssimas seqüências de ação. Na única cena longa que merece ser chamada assim, o cenário é adornado por uma patética lula gigante de borracha que não faria feio num filme de Ed Wood, mas provoca constrangimentos em uma produção tão cara. “Popeye” vale pela curiosidade de ver Altman no timão de uma aventura infantil, mas não deixa saudades.

A produção nunca foi lançada no Brasil em DVD. Pode ser encontrada nos Estados Unidos, em um disco espartano, sem extras, contendo apenas o filme com qualidade OK de imagem (widescreen anamórfico) e som apenas razoável (Dolby Digital 2.0).

– Popeye (EUA, 1980)
Direção: Robert Altman
Elenco: Robin Williams, Shelley Duvall, Paul L. Smith, Paul Dooley
Duração: 114 minutos

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