Por Água Abaixo

03/04/2007 | Categoria: Críticas

Aventura infantil divertida e ágil recria bonecos de massinha através de animação computadorizada

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★★☆☆

De tempos em tempos, os grandes estúdios de Hollywood se lançam em disputas acirradas entre filmes de temática semelhante, em um curioso processo de auto-canibalização. O ano de 2006 viu uma dessas pelejas, com o lançamento de duas produções situadas na Europa da virada do século XIX para o XX, tendo mágicos como protagonistas (“O Grande Truque” e “O Ilusionista” estrearam no Brasil com menos de um mês de intervalo). A mesma temporada marcou também a aparição da primeira de uma série de animações infantis tendo ratos como protagonistas: o ágil e divertido “Por Água Abaixo” (Flushed Away, EUA/Inglaterra, 2006).

A co-produção inglesa/americana carrega a assinatura da Aardman Studios, firma oriunda da Inglaterra que está entre as mais prestigiadas do ramo na atualidade. Trata-se da única grande empresa cinematográfica a criar filmes inteiros a partir da velha e eficiente técnica do stop motion – ou seja, as animações feitas com bonecos de massa. A Aardman é uma casa jovem e cheia de criatividade, como comprovam seus mais conhecidos trabalhos, “A Fuga das Galinhas” (2000) e “Wallace e Gromit – A Batalha dos Vegetais” (2005). Curiosamente, este “Por Água Abaixo” é a primeira incursão do estúdio no terreno da animação computadorizada, o popular CGI. O resultado, se não atinge o nível de obra-prima, é um filme inteligente e engraçado, que se afasta da tendência de realismo dominante no setor e abraça o tosco e lúdico visual característico das criaturas geradas pelo stop motion.

A rigor, os produtores de “Por Água Abaixo” queriam utilizar a mesmíssima – e tremendamente trabalhosa – técnica em que a Aardman é insuperável. A animação em stop motion consiste, grosso modo, em produzir a ilusão de movimento através de fotografias estáticas que captam movimentos mínimos nos personagens e cenários. Uma seqüência de ação pode significar até 30 bonecos sendo manipulados simultaneamente, interagindo entre si. Com esta técnica, uma equipe de 300 pessoas trabalhando simultaneamente consegue produzir no máximo um segundo de filme a cada hora de trabalho. Isso, claro, quando a ação se passa em terra firme. Infelizmente, para a Aardman, não era o caso de “Por Água Abaixo”. Neste filme, o roteiro previa que cerca de 50% das cenas envolvesse a interação dos personagens com água.

O elemento aquático inviabilizou o uso do stop motion. Foi por isso que a Aardman resolveu filmar tudo em ambiente digital, só que com um objetivo diferente do normal. Ao invés de copiar a realidade, os técnicos usavam os computadores de última geração para simular, da melhor maneira possível, os bonecos e sets criados com massa de modelar. Talvez este seja o primeiro caso na história do cinema em que uma técnica de efeito especial foi utilizada para simular outro efeito especial. O resultado final é muito interessante, pois mantém uma relação visual muito evidente com os trabalhos prévios do estúdio; para um espectador atento, a associação entre “Por Água Abaixo” e os outros dois longas da firma inglesa fica claríssima, quando se observa as expressões faciais dos personagens.

A história é o ponto fraco do longa-metragem, pois parte de um cenário evidentemente inspirado na série “Toy Story”, da Pixar, só que trocando os brinquedos por um rato domesticado. Roddy (voz do multifacetado Hugh Jackman na versão original) é o bicho de estimação de uma menina rica da região sofisticada de Kingston, em Londres. Quando a família saí de férias, o animal fica sozinho em casa, mas não por muito tempo. Logo a mansão é invadida por Sid, um rato gordo e folgado que acaba mandando Roddy descarga abaixo.

O rato grã-fino vai parar então na cidade subterrânea de Ratópolis, uma espécie de versão em miniatura de Londres, com ônibus vermelhos de dois andares, Big Ben, ponte suspensa e tudo – a enorme quantidade de detalhes que reconstroem a capital inglesa do ponto de vista de um rato é uma delícia extra para os adultos. O resto do filme consiste na jornada de Roddy para retornar à mansão onde mora, ajudado por uma ratazana sensual (voz de Kate Winslet) e perseguido por um sapo malvado (Ian McKellen) que tem um plano maligno.

Falar da qualidade da animação, neste tipo de produção, chega a ser lugar comum – quando foi a última vez em que você viu uma animação com falhas neste aspecto? No entanto, “Por Água Abaixo” possui uma qualidade que torna obrigatória a menção ao trabalho dos técnicos de efeitos visuais: um espírito lúdico genuíno, uma qualidade ingênua que transpira dos personagens e lhes dá um caráter cômico e infantil involuntário. Culpa do stop motion, brilhantemente emulado pela equipe conduzida pelos diretores David Bowers e Sam Fell.

É importante observar, também, que os cineastas foram uma imposição dos financiadores norte-americanos da DreamWorks, que desejavam dar ao trabalho um ritmo mais ágil, mais do feitio das crianças acostumadas com a dieta básica de Hollywood. O objetivo era casar o nível assombroso de detalhes dos técnicos da Aardman com ação em velocidade supersônica. Desta forma, o filme capricha na minúcia com que cria ambientes e cenários perfeitos, como um barco caindo aos pedaços – o jantar com a tigela de sopa escorregando pela mesa é genial – e um autêntico pub onde ratos bêbados assistem a partidas de futebol em televisores de cristal líquido. Uma maravilha.

É importante observar que a Aardman sacrificou a construção mais densa de personagens em prol desta agilidade no ritmo, pois isso significou eliminar diálogos mais longos e investir em grande número de seqüências de ação que lembram um jogo de videogame acelerado. Desta forma, o esqueleto narrativo ficou semelhante a tantos outros filmes infantis, como o já citado “Toy Story” – vale uma menção especial para “Robôs”, do estúdio nova-iorquino Blue Sky, filme em que a grande metrópole também tem vida própria, quase como um personagem. Por outro lado, as citações a outros longas quase sempre rendem piadas bem colocadas (a brincadeira com “Procurando Nemo” é hilariante) e os números musicais, quase sempre envolvendo um grupo de lesmas de matar de rir, são curtos e eficientes. Aquele clichê de que se trata se um trabalho para crianças de todas as idades cai muito bem aqui.

O DVD da Paramount traz o filme com boa qualidade de imagem (wide anamórfica) e áudio (Dolby Digital 5.1). Há comentário em áudio dos diretores e dois featurettes sobre a produção, além de jogo interativo.

– Por Água Abaixo (Flushed Away, EUA/Inglaterra, 2006)
Direção: David Bowers e Sam Fell
Animação
Duração: 84 minutos

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