Por Um Fio

09/01/2004 | Categoria: Críticas

Apenas a construção moralista do protagonista atrapalha o excelente thriller urbano de Joel Schumacher

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★★½☆

Joel Schumacher parece sofrer da síndrome de dupla personalidade. O Dr. Jerkyll é um cineasta capaz de capturar com criatividade as neuroses do homem urbano, e entrega pequenas obras-primas como “Um Dia de Fúria”. Ele se transforma em Mr. Hyde quando lidera grandes produções, cometendo filmes histéricos, carnavalescos e pouco inspirados como “Batman & Robin”. O recente “Por Um Fio” (Phone Booth, EUA, 2003) pende mais para o lado bom do diretor, embora pegue emprestado um ou outro elemento do lado ruim.

O projeto de “Por Um Fio”, para começar, já começou bem, com uma premissa simples e sedutora: um homem comum atende uma ligação anônima numa cabine telefônica e descobre que está sendo observado por um franco-atirador. O maníaco garante que vai matá-lo se ele desligar o telefone. Trata-se de uma variação da idéia por trás do megaclássico “Janela Indiscreta”, do mestre Alfred Hitchcock. Ou seja, um filme que se passa inteiramente num único cenário.

Para completar, Schumacher filmou em apenas 12 dias, utilizou um magro orçamento de US$ 10 milhões e fez do filme basicamente um diálogo gigante em que brilha, mais uma vez, a estrela do irlandês Colin Farrel. Em cena durante os 81 minutos, contracenando com um vilão invisível, Farrel esbanja energia e comprova o talento para compor tipos desbocados, de raciocínio rápido e muito carisma.

Entre os acertos está o excelente ritmo que Schumacher soube imprimir à película, construindo uma tensão crescente e compondo um suspense sufocante, claustrofóbico como poucos. A curta duração inclusive funciona a favor do filme, pois seria difícil agüentar as tradicionais duas horas de agonia. A agilidade também permite que a ação nunca canse nem soe repetitiva, e muito menos inverossímil.

A abertura equivocada, porém, quase enterra “Por Um Fio”. Joel Schumacher gasta dois minutos (e talvez um terço do orçamento) numa espécie de videoclipe da MTV, que começa no espaço sideral e termina nas ruas de Nova York, em edição picotada. Tudo bem, serve para estabelecer a geografia e o clima de neurose urbana do filme, mas destoa inteiramente do tipo de tensão mais sutil que domina quase todo o longa-metragem.

Além disso, há a construção moralista do personagem de Farrel. Stu Shepard é um agente de celebridades egocêntrico e sacana, que usa a cabine telefônica do título original para telefonar à garota que quer levar para cama – ou seja, mente para ela, para a esposa e para mais meia dúzia de clientes. Antes do final do filme, ele vai ser obrigado a repensar esse estilo de vida, algo que soa hipócrita, para dizer o mínimo.

Mas, deixando isso de lado, o espectador ganha um suspense de ótima qualidade, que ainda não está à altura do excepcional e subestimado “Um Dia de Fúria”. Este se alinha a “Táxi Driver” como um dos retratos mais inteligentes da vida nas grandes cidades, algo que “Por Um Fio” almeja, mas não alcança totalmente. Vale a pena, mas somente como diversão cinematográfica de bom nível.

– Por Um Fio (Phone Booth, EUA, 2003)
Direção: Joel Schumacher
Elenco: Colin Farrel, Forrest Whitaker, Katie Holmes, Kiefer Sutherland
Duração: 81 minutos

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