Por Um Triz

14/08/2004 | Categoria: Críticas

Início lento e trama eletrizante marcam thriller do cineasta afroamericano Carl Franklin

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★★☆☆

O cineasta afroamericano Carl Franklin é normalmente visto pelo espectador comum como uma das centenas de diretores de aluguel que trabalham em Hollywood. Ou seja, faz filmes corretos, projetos de estúdio, mas sem uma marca pessoal que o identifique como autor. Na verdade, porém, essa marca existe, ainda que seja bastante tímida. Franklin desenvolve seus projetos com uma certa autonomia e os filmes que dirige têm uma coerência, digamos, racial – daí o “afroamericano” com que o apresentei, poucas linhas atrás. “Por Um Triz” (Out of Time, EUA, 2003) é a prova definitiva dessa afirmação.

O filme, que tem o astro Denzel Washington como protagonista, é mais um longa-metragem que utiliza a trama policial clássica como veículo para bons atores negros abrirem espaço em Hollywood. Franklin, em alguma medida, pode até ser considerado um dos responsáveis pelo status atual do ator, que desfruta a bem-sucedida pecha de maior astro negro do momento e o único a vencer o Oscar da categoria principal de atuação masculina em toda a história de Hollywood.

Carl Franklin dirigiu Washington em “O Diabo Veste Azul”, um thriller elegante e bem construído, que aproveitava a história policial para tecer comentários sobre a situação social dos negros nos EUA. Foi com esse trabalho que Denzel se projetou para a fama. Talvez seja esse o melhor filme da carreira do diretor, ele mesmo um engajado lutador contra o preconceito racial. “Por Um Triz”, dessa forma, é bem coerente com o universo cinematográfico de Franklin. Só que isso não significa que estamos falando de um grande filme. Para ser justo, também não é um filme ruim, mas uma obra feita sob medida para o espectador que encara o cinema como mera dievrsão sem compromisso.

O delegado Matt Whitlock (Washington) vive um conturbado fim de casamento com uma investigadora latina (Eva Mendes), em Miami, enquanto se envolve, sem querer, numa trama complexa que tem o objetivo de roubar uma bolada apreendida com traficantes de drogas que encontra-se guardada na delegacia local. A confusão envolve a amante de Whitlock, Ann (Sanaa Lathan), uma mulher que apanha do marido Chris (Dean Cain) e acaba de ser diagnosticada com câncer terminal.

Dar mais detalhes sobre a trama pode estragar uma parte da experiência de assistir a “Por Um Triz”, algo que o diretor certamente preza muito, pois estica por quase uma hora a apresentação de todos esse elementos. É o maior defeito do filme, pois estica excessivamente o primeiro ato, antes que a ação comece de verdade e o longa finalmente engrene. Quando isso acontece, “Por Um Triz” vive um grande momento, no bojo de uma tensa e frenética corrida contra o tempo por parte de Whitlock, acusado de assassinato e corrupção policial.

Já o epílogo pode ser adivinhado muito antes de acontecer e culmina com o uso simultâneo e irrestrito de todos os clichês desse tipo de filme. A média dos espectadores, que vai ao cinema em busca de diversão e não se importa exatamente com o quesito originalidade, não vai dar grande importância a isso. Para a platéia, o que importa realmente é que o filme gruda na cadeira durante boa parte da trama – e isso é uma virtude, querendo ou não.

De qualquer forma, o abuso de clichês narrativos é uma constante nos filmes de Carl Franklin, tanto quanto o uso de grandes protagonistas negros e as trilhas sonoras repletas de jazz de primeira qualidade. Na parte técnica, a música talvez seja o maior acerto de “Por Um Triz”, repetindo o clima cool jazz de “O Diabo Veste Azul” com muita propriedade. De resto, o filme apresenta Denzel Washington em mais uma performance convincente e tem um contraponto cômico realmente engraçado, o médico legista Chae (John Billington). Sozinho, ele já valeria o preço do ingresso.

– Por Um Triz (Out of Time, EUA, 2003)
Direção: Carl Franklin
Elenco: Denzel Washington, Eva Mendes, Sanaa Lathan, Dean Cain
Duração: 114 minutos

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