Por Uns Dólares a Mais

26/06/2005 | Categoria: Críticas

Sergio Leone rascunha as duas obras-primas do western spaghetti que faria a seguir

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★★★★

Sergio Leone sempre foi um estilista. O diretor italiano sempre esteve mais interessado na forma do que no conteúdo de seus filmes. “Por Uns Dólares a Mais” (For a Few Dollars More, Itália/Espanha/Alemanha/Mônaco, 1965), o segundo filme da famosa trilogia do homem sem nome (que transformou Clint Eastwood em celebridade internacional), é uma espécie de treino de luxo para as futuras obras-primas “Era Uma Vez no Oeste” e “Três Homens em Conflito”, mas o diretor ainda não havia se transformado em mestre. Era um aprendiz talentoso, mas ainda não havia refinado seu talento ao máximo.

Isso faz toda a diferença. Quando analisado cena a cena, “Por Uns Dólares a Mais” pode dar a impressão de ser uma obra-prima. Há muitos momentos antológicos no filme. Pegue como exemplo a seqüência em que o caçador de recompensas Coronel Douglas Mortimer (Lee Van Cleef) acende um fósforo na nuca de um dos pistoleiros mais temidos do bando de Índio (Gian Maria Volonté). O bandido treme os lábios de raiva, quer revidar, mas a situação não permite; ele não pode correr o risco de matar o sujeito e ir para a cadeia, pois está a poucas horas de um golpe milionário. Leone exerce aqui a sua especialidade: estica a tensão até o limite, criando uma cena silenciosa, angustiante e ao mesmo tempo bem-humorada.

Momentos como esse são inúmeros, mas o coletivo desses momentos passa uma sensação incômoda de incompletude. É como se a soma de todas essas grandes cenas desse um coletivo inferior à qualidade individual de cada uma. Em uma paralelo perigoso, seria como dizer que 2 + 2 é igual a 3. Em cinema, essas coisas acontecem. A boa notícia é que, ainda assim, “Por Uns Dólares a Mais” é um bom filme, bem superior à maioria dos western spaghetti que Leone popularizou.

Como quase todos os filmes de Leone, “Por Uns Dólares a Mais” tem apenas um fiapo de trama. O filme mostra o duelo de dois astutos caçadores de recompensa, o já citado Mortimer e o silencioso Monco (Eastwood), para capturar o bandido mais temido – e mais valioso – da região, Índio (Volonté). Os dois atores norte-americanos estão espetaculares nos papéis. Eles aparecem em seqüências individuais no começo do filme; as duas cenas deixam claro como ambos são craques no gatilho. Mas o filme só engrena mesmo quando Mortimer e Manco se encontram. A seqüência, que envolve um duelo curioso de tiros em chapéus, é a melhor coisa do filme.

“Por Uns Dólares a Mais” foi filmado nos desertos de Almeria, na Espanha, e o orçamento relativamente generoso deu a Leone a chance de caprichar em algumas tomadas panorâmicas, como a excelente tomada de abertura. De qualquer forma, ainda falta ao diretor a segurança que o permite esticar o tempo (os momentos de tensão entre personagens) na hora certa, bem como um roteiro que lhe permita conectar as histórias dos três protagonistas de maneira mais fluida e ágil.

Como já havia ocorrido no primeiro exemplar da trilogia, a produção demora um pouco a engrenar. Mas não há dúvida de que, no geral, Leone melhora um pouco o já eficiente resultado conseguido em “Por Um Punhado de Dólares”, e prepara o terreno para sua obra-prima suprema, o impressionante “Três Homens em Conflito”, que seria filmado no ano seguinte.

Se tiver chance de assistir à trilogia completa, preste muita atenção na semelhança estética e visual de tosos os trabalhos. Essa semelhança é a chave para compreender a importância da trilogia na obra de Leone. O diretor via os filmes do homem sem nome não como aventuras seqüenciais de um mesmo personagem, mas como uma pista de testes para refazer e melhorar o mesmo filme, refinando seu estilo, até alcançar a perfeição. E conseguiu. Seus admiradores agradecem.

No DVD nacional da Fox/MGM, sem extras, o som é Dolby Digital 1.0 em inglês e a imagem está no formato original (widescreen). O filme está disponível nos EUA e na Europa em edição dupla, com um segundo disco exclusivamente dedicado a documentários que examinam a obra em profundidade.

– Por Uns Dólares a Mais (For a Few Dollars More, 1967, Itália)
Direção: Sergio Leone
Elenco: Clint Eastwood, Lee Van Cleef, Gian Maria Volonté
Duração: 131 minutos

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