Portais do Céu

01/01/2006 | Categoria: Críticas

Documentário sobre cemitérios de animais traz histórias humanas emocionantes

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★★★☆

Aqui está o exemplo perfeito de como um crítico de cinema pode, sozinho, criar uma aura mítica em torno de um filme, a ponto de transformar algo que as pessoas julgavam ser uma piada de mau gosto em obra-prima do cinema. “Portais do Céu” (Gates of Heaven, EUA, 1978) é o primeiro filme do documentarista norte-americano Errol Morris. O cineasta viria a ser considerado um dos maiores (certamente um dos mais conhecidos) diretor de documentários. Na época do lançamento da obra, era apenas um estudante de cinema que, munido de uma única câmera e com um punhado de colegas, ousou fazer um filme sobre cemitérios de animais de estimação.

O documentário, como todos sabem, é uma espécie de primo pobre do filme de ficção. Os irmãos Lumière inventaram o cinematógrafo para “capturar a realidade”, mas por razões que somente psicanalistas podem explicar, a indústria cinematográfica abortou essa idéia logo nos primeiros anos da invenção. Espectadores gostam de fantasias. Filmes precisam ter começo, meio e fim firmemente delineados. A vida não tem nada disso. A vida real tem pausas, hesitações, ambigüidades morais e longos períodos de tédio. O cinema não mostra nada disso. Talvez por isso, o documentário tenha sobrevivido nos subterrâneos do sistema, sem espaço para projeção nas salas mais nobres.

O crítico Roger Ebert já era uma celebridade quando viu o longa-metragem de estréia de Errol Morris pela primeira vez. Antes de ver a obra, não sabia nada sobre ela, mas terminou a projeção adorando-a de tal maneira que o elegeu um dos 10 melhores filmes de todos os tempos. Mantém a posição até hoje, inclusive depois de tornar-se o único crítico a ganhar um prêmio Pulitzer, o mais prestigiado premio jornalístico do mundo. Por causa de Ebert, as pessoas passaram a prestar mais atenção em “Portais do Céu”. Quem o achava entediante, ou simplesmente não o compreendia, teve vontade de ver o filme novamente. “Portais do Céu” acabou ganhando status de cult; mesmo quem não gosta dele não fala mal. Ainda assim, a película está longe da unanimidade. É o tipo de filme intrigante, que exige sensibilidade para ser devidamente apreciado.

O projeto de Morris começou quando ele leu uma notícia de pé de página num jornal. A nota falava sobre a falência do cemitério de animais de estimação Foothill, em Los Altos, na Califórnia. Ao todo, 450 caixões de cachorros, gatos e outros bichos teriam que ser removidos até o Bubbling Well, um lugar parecido, só que em Napa Valley. O que fez Errol Morris? Pegou uma câmera e foi aos dois lugares. Entrevistou os proprietários dos cemitérios, pessoas que trabalham lá, vizinhos dos lugares, e donos de animais enterrados. De repente, um documentário sobre uma aparente excentricidade norte-americana virou um pequeno tratado de filosofia que discute pedaços das vidas das pessoas e reflexões sobre o significado da morte, e da perda de entes queridos.

O longa-metragem é de uma simplicidade comovente. Ele está dividido em duas partes. Errol Morris fez o filme usando um estilo absolutamente ascético: ligou a câmera na frente de cada entrevistado e gravou tudo o que eles disseram. Há apenas duas curtas tomadas com movimento de câmera; no resto do filme, câmera parada. Todo mundo teve liberdade de falar sobre o que bem entendesse, não apenas sobre os bichos; a maioria começa abordando o tema do documentário, mas logo desvia do assunto e passa a falar da própria vida. Morris encontrou personagens extraordinários, desses que escritores como Gabriel Garcia Marques dariam um dedo, ou uma mão, para encontrar. O filme tem histórias humanas emocionantes.

Ele se divide em duas partes. A primeira traz entrevistas com pessoas ligadas ao cemitério falido; a segunda enfoca a família Harberts, proprietária do Bubbling Well, e os usuários do lugar. Os dois trechos são ligados por um longo depoimento de uma senhora que mora em frente ao primeiro cemitério, chamada Florence Rasmussen. A velhinha faz a mais longa de todas as digressões, desviando completamente do assunto para abrir o coração e falar, magoada, sobre o filho vagabundo que só aparece em casa com intenções financeiras.

Os Harberts são ainda mais interessantes. Cal, o filho mais novo, é um garotão queimado de sol, formado em Administração, que abandonou um emprego de vendedor de seguros na cidade grande por achar a competição estressante demais. Ele gosta de exibir os troféus que ganhou por boas vendas aos empregados; parece um pouco arrependido pelo fracasso na sua empreitada urbana. O mais velho, Danny, também formado em Administração, seguiu caminho semelhante, mas saiu da metrópole por motivo diferente – uma desilusão amorosa. Ele planta maconha na janela do quarto. Nos finais de tarde, arrasta uma guitarra e um amplificador para a colina mais alta do cemitério, a fim de tocar e ouvir o som estridente “encher o vale inteiro”, enquanto se imagina diante de uma multidão. O primeiro é altivo e sociável; o segundo, tímido e solitário.

Você pode perguntar qual a relação de tudo isso com o tema central do documentário. Claro que a relação não é evidente. Críticos e espectadores freqüentemente se confundem quando tentam analisar “Portais do Céu”, por uma razão muito simples: não existe uma tese subjacente ao filme. Errol Morris não tem uma hipótese de trabalho, e o filme não tenta confirmar ou negar qualquer afirmação, como 100% dos documentários (jornalísticos ou não) tentam fazer. O diretor simplesmente expõe o universo das pessoas que freqüentam os cemitérios. Ele diz: estas são as pessoas que freqüentam esses lugares. Elas são assim. Suas histórias de vida estão aí. “Portais do Céu” é um filme maravilhoso para quem gosta de histórias de gente. Seus personagens são ricos, contraditórios, complexos e emocionais. São seres humanos de carne e osso, com todos os erros e acertos inerentes à natureza da espécie.

De certa forma, lembra bastante do excepcional documentário de Eduardo Coutinho, “Edifício Master”. Como o cineasta norte-americano, Coutinho também não usa narração, nem gosta de movimentar a câmera. Os dois utilizam o mesmo estilo simples de ligar a câmera e registrar depoimentos, sem cortar ou guiar as palavras dos entrevistados com perguntas. Ambos incentivam o monólogo. Como Morris, o brasileiro também fez um filme sobre pessoas. Também narrou histórias humanas sensacionais, histórias de amor e dor, comédias e tragédias. A diferença entre os filmes é que o fio condutor de “Edifício Master” é um prédio em Copacabana, enquanto em “Portais do Céu” é a dupla de cemitérios.

A má notícia é que “Portais do Céu” não está disponível em DVD no Brasil. Nos EUA, a MGM lançou o filme em 2005, aproveitando a notoridade do diretor após ganhar o Oscar de melhor documentário em 2004 com “Sob a Névoa da Guerra”, entrevista gigante com Robert McNamara. O filme mantém o enquadramento original (1.33:1), tem áudio Dolby Digital 2.0 e legendas em inglês, sem extras.

Como curiosidade, vale lembrar que o lançamento de “Portais do Céu” rendeu um dos curtas-metragens mais esquisitos já produzidos. Na época em que o filme estava sendo planejado, o diretor alemão Werner Herzog ouviu falar do projeto e apostou que comeria o próprio sapato se algum dia Errol Morris conseguisse lançar o filme. Aposta perdida, Herzog não se fez de rogado: arrumou uma câmera e fez um filme de 20 minutos, em que cozinha e come um tênis de borracha. O nome do filmete não poderia ser mais claro: “Werner Herzog Come o Próprio Sapato”. O episódio faz parte da mitologia que cerca o projeto de Errol Morris.

– Portais do Céu (Gates of Heaven, EUA, 1978)
Direção: Errol Morris
Documentário
Duração: 84 minutos

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