Poseidon

23/08/2006 | Categoria: Críticas

Remake do filme-catástrofe de 1972 é uma aventura ágil que peca pela falta de dinâmica entre os personagens

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★½☆☆

A falta de criatividade dos roteiristas e o medo cada vez maior de patrocinar filmes caros que fracassem nas bilheterias são os dois elementos responsáveis pelo enorme número de refilmagens lançadas pelos estúdios de Hollywood. Até mesmo produções medianas, mas já previamente testadas com sucesso diante do público, têm sido canibalizadas por essa prática. O caso de “Poseidon” (EUA, 2006) é exemplar, pois o filme assinado pelo alemão Wolfgang Petersen é a última peça de uma cadeia de obras que remete aos anos 1950. Trata-se de uma aventura de roteiro burocrático, filmada em ritmo ágil e com bons efeitos especiais, mas que carece de dinâmica entre os personagens e, principalmente, de uma história original.

Oficialmente, “Poseidon” é o remake daquela obra que lançou a moda dos disaster movies (ou seja, os filmes-catástrofe), em 1972. “O Destino do Poseidon”, por sua vez, teve origem em romance lançado três anos antes, uma história que ficcionalizava o desastre real do Titanic, já filmado na década de 1950 nos Estados Unidos. Pode-se dizer, portanto, que a produção de 2006 atualiza um longa-metragem já baseado em um livro buscava inspiração em filmes baseados em um caso real. E também pode-se aferir, deste raciocínio, que “Poseidon” deseja tirar uma casquinha do sucesso (já antigo) de “Titanic” (1998).

Para refazer a história do grupo de sobreviventes de um naufrágio que tinha que lutar para chegar à superfície de um transatlântico virado em alto mar por uma onda gigante, a Warner Bros escalou um cineasta experiente em filmagens aquáticas. Dois dos filmes mais bem-sucedidos de Wolfgang Petersen se passam no oceano: o ultra-claustrofóbico drama de guerra “O Barco” (1981) e a aventura dramática “Mar em Fúria” (2000). Petersen, que à época do convite saía do não muito bem sucedido “Tróia”, aceitou a tarefa. Entregou um filme trivial, cujo maior mérito está na recriação impecável – via direção de arte e efeitos especiais – do interior do navio virado de ponta-cabeça.

Deve-se levar em consideração, claro, que há problemas com o realismo da situação. O tsunami ocorrido na Ásia, em 2004, nos ensinou que uma onda não quebra nunca em alto mar, como ocorre no filme. No mundo real, ela chegaria sem aviso, arrastando grande quantidade de água em enorme velocidade, e viraria o navio atirando-o para cima e para os lados simultaneamente, com violência. Uma catástrofe assim, porém, simplesmente não seria cinematográfica. Pareceria visualmente pouco dramática. Assim, Petersen preferiu abdicar do realismo e, com a ajuda do conceito de “rogue wave” (ou “onda traiçoeira”, que em tese aparece sem aviso e destrói barcos de vez em quando), filmou o impacto em câmera lenta e com grande quantidade de detalhes.

Uma vantagem do filme é que Wolfgang Petersen tem consciência de que está realizando um filme-pipoca, com a única intenção de fazer a platéia vibrar por uma hora e meia. Ele não perde tempo desenvolvendo personagens: gasta apenas 10 minutos para mostrar rapidamente quem faz parte do grupo de sobreviventes que optará por se dirigir à superfície, contrariando as ordens do capitão. Há um ex-bombeiro e prefeito de Nova York (Kurt Russell), a filha dele (Emmy Rossum) e o namorado (Mike Vogel), um oficial da Marinha (Josh Lucas), um gay cinqüentão abandonado pelo companheiro (Richard Dreyfuss), uma latina que viaja como penetra (Mia Maestro) e uma mãe com o filho pequeno.

A partir do momento em que o grupo decide rumar para a superfície, o filme assume um formato de videogame, em que os personagens precisam cumprir determinados objetivos para passar à próxima fase (ou seja, o compartimento seguinte do navio), e assim por diante, até encontrarem uma saída. De estágio em estágio, um ou outro personagem vai ficando pelo caminho, e Petersen não foge de uma narrativa burocrática e previsível, eliminando sempre as pessoas mais desagradáveis no começo e reservando um momento tocante para o final, quando um dos integrantes mais simpáticos decide se sacrificar para permitir a sobrevivência dos outros.

A dinâmica entre os personagens simplesmente não existe. Aqui e acolá, alguns lampejos indicam que o filme poderia crescer como drama se esse fator fosse ampliado. O melhor exemplo está na curta cena em que a criança que integra o grupo começa a imitar o personagem de Josh Lucas, aquele que mais de aproxima do estereótipo de herói do grupo. Este tipo de interação entre pessoas submetidas a um acontecimento traumatizante é exatamente o que fazia “O Barco”, obra-prima de Petersen, um filme brilhante e um exemplo perfeito de claustrofobia cinematográfica.

É verdade que o diretor alemão repete, em “Poseidon”, alguns truques aprendidos no filme de 1981. Ele realiza uma direção de arte impecável, que reproduz a decoração de um transatlântico de luxo com perfeição, inclusive de cabeça para baixo. Além disso, abusa de enquadramentos fechados e tonalidades escuras, o que acentua o clima claustrofóbico e aproxima a sensação do espectador do drama experimentado pelos personagens.

Além disso, também o trabalho da equipe responsável pelo som é de tirar o chapéu – os ruídos ameaçadores que vêm do oceano e das entranhas do navio ferido lembram aos passageiros (e também ao público) que eles estão muito próximos da morte, o que eleva o grau de tensão ao máximo. Aliadas à curta duração, ao ritmo quase sempre frenético e às cenas subaquáticas filmadas de maneira bem realista, essas qualidades fazem de “Poseidon” um filme-pipoca satisfatório, desde que descontados a falta de originalidade e o excesso de estereótipos.

O DVD é um lançamernto da Alpha Filmes e não contém nenhum extra.

- Poseidon (EUA, 2006)
Direção: Wolfgang Petersen
Elenco: Josh Lucas, Kurt Russell, Richard Dreyfuss, Jacinda Barrett
Duração: 99 minutos

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