Possuídos (2006)

17/10/2007 | Categoria: Críticas

Amargurado conto de amor, solidão e loucura tem direção firme e fantástico trabalho de atores

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★★★☆

Um homem e uma mulher, sozinhos, dentro de um quarto de hotel. Munido exclusivamente desses três elementos, o veterano cineasta William Friedkin (“Operação França”, “O Exorcista”) fez um dos filmes mais esquizofrênicos e intrigantes dos últimos tempos. “Possuídos” (Bug, EUA, 2006) dividiu a crítica norte-americana – foi amado e odiado na mesma proporção, sempre com ardor – porque é bem difícil de ser classificado em um gênero específico. Tem sido descrito como filme de horror, mas oferece uma leitura bem mais complexa e proveitosa se encarado como um amargurado conto de amor, solidão e loucura. A história é uma metáfora sobre carência afetiva, tendo como protagonistas dois anônimos que redefinem aquilo que conhecemos como “losers”, ou fracassados. David Cronenberg se orgulharia de tê-la assinado.

A história focaliza uma mulher assustada e solitária que vive nos confins do deserto norte-americano. Agnes (Ashley Judd) trabalha como garçonete, mora num motel vagabundo de beira de estrada, e passa as noites afogada num mar de álcool e drogas. Ela vive um período de extrema ansiedade devido à iminente libertação do ex-marido violento (Harry Connick Jr), que andou preso por dois anos e ameaça retornar para casa, sem que ela possa fazer nada para impedir. As coisas mudam um pouco quando Agnes é apresentada a Peter (Michael Shannon), um rapaz tímido, introvertido e gentil. A presença dele parece oferecer alguma segurança contra os rompantes violentos e indesejados do ex-marido. Uma conexão afetiva começa a se estabelecer – e isto é algo muito perigoso quando as duas almas em questão são seres carentes e cheios de traumas do passado.

Agnes e Peter logo se reconhecem como duas pessoas maltratadas pela vida e, inicialmente sem intenções sexuais, iniciam uma relação de interdependência que logo se revelará destrutiva. “Possuídos” foi produzido com o minúsculo orçamento de US$ 4 milhões. Dá uma aula de economia em múltiplos níveis, inclusive no narrativo e, sem dúvida, também no orçamentário. O filme foi adaptado de uma peça de teatro alternativa escrita por Tracy Letts, que também assina o roteiro. A origem teatral fica evidente devido à grande quantidade de diálogos, mas – ainda bem – o roteirista usa as palavras com eficiência, criando conversas aparentemente banais, mas repletas de significados ocultos. Friedkin e Letts não cedem à tentação de criar conversas meramente expositivas.

Filmado quase completamente dentro de um único cenário, o longa-metragem aos poucos vai se revelando uma experiência claustrofóbica e perturbadora, especialmente a partir do segundo ato, quando a história toma um rumo completamente imprevisível. O fator responsável por isso é a combinação de uma direção firme e segura com as atuações espetaculares do par central. Friedkin, 70 anos durante as filmagens, mostra fôlego de garoto, filmando com tesão e vigor. Perceba como ele acentua o teor claustrofóbico do filme utilizando técnicas simples, como a iluminação em chave baixa – o quarto de motel onde o casal vive é iluminado apenas por uma janela que está sempre coberta por persianas – e a câmera em leve posição de contra-plongée (ou seja, filmando de baixo para cima e comprimindo os atores contra o teto). Juntas, as duas técnicas suprimem os espaços livres e sugerem uma atmosfera de asfixia emocional.

Além disso, o diretor também demonstra perfeito senso de controle da edição sonora, preenchendo o filme desde o princípio com pequenos ruídos (helicópteros, sirenes, zumbidos insistentes) que se intrometem nas conversas como intrusos e ajudam a manter a tensão sempre crescente. A seqüência em que Peter começa a escutar um grilo dentro do quarto, em particular, é genial. Funciona como um microcosmo do filme como um todo e fornece uma pista importante, para o espectador, tanto do tipo de paranóia que o sujeito cultiva quanto do comportamento inusitado de Agnes, cujo medo da solidão a torna compulsiva em ceder ao outro. Sem pressa, Friendkin administra com eficiência a tensão, e a faz explodir em um terceiro ato ainda mais surpreendente, que arremessa o filme em uma direção nova, original e excitante. Uma direção que, numa análise superficial, pode até sugerir um clima trash, algo que o filme não é, e nem quer ser.

De qualquer forma, “Possuídos” não seria um filme redondo se o elenco não estivesse tão bem. Ashley Judd, bela atriz que nunca havia conseguido mostrar talento nos thrillers meia-boca que estrelou, encarna um personagem difícil com a generosidade de uma mãe, e muito senso de humanidade, apesar da cocaína e do álcool. Michael Shannon (que a maioria das pessoas não conhece, mas apareceu em “As Torres Gêmeas”, de Oliver Stone) repete com naturalidade espantosa o papel intenso que encenara com sucesso nos palcos de Nova York. Humildes, melancólicos e depressivos, os dois formam um par de anjos caídos absolutamente perfeito. E os coadjuvantes Harry Connick Jr (como um quase-psicopata que lembra um pouco o serial killer de “Copycat”) e Lynn Collins funcionam como complemento adequado para a dupla principal brilhar.

Em tempo: o patético título nacional tenta forçar uma associação do longa-metragem com “O Exorcista” (1973), o mais conhecido trabalho de William Friedkin. No entanto, nada há de comum entre os dois. Aqui não existe o menor traço de sobrenatural, e nem mesmo insinuações de possessões demoníacas. O título original significa literalmente “inseto”, e faz todo o sentido do mundo. Assista e confira por si mesmo. O DVD da Califórnia Filmes não traz nenhum extra, e a distribuidora não informa o formato da imagem e nem dá informações sobre as trilhas de áudio.

– Possuídos (Bug, EUA, 2006)
Direção: William Friedkin
Elenco: Ashley Judd, Michael Shannon, Lynn Collins, Harry Connick Jr
Duração: 102 minutos

| Mais


Assine os feeds dos comentários deste texto


Um comentário
Comente! »