Possuídos

27/06/2004 | Categoria: Críticas

Suspense sobrenatural possui momentos criativos e um dos finais mais ousados e originais dos últimos tempos

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★★★☆

Unir dois gêneros distintos em um único filme é uma atitude arriscada. Não são poucos os cineastas que erram na mistura e acabam desagradando aos fãs de um (ou, pior, dos dois) gênero(s). Esse não é o caso de “Possuídos” (Fallen, EUA, 1998), um ótimo filme policial que faz uma incursão interessante pela área do sobrenatural, transitando com eficiência pelos dois caminhos. Por algum motivo inexplicável, contudo, o bom trabalho de Gregory Hoblit (“A Dupla Face de um Crime”) teve um desempenho discreto nas bilheterias e sequer foi lançado na tela grande, no Brasil, indo parar direto no mercado de DVDs. Esse é um filme que merece ser descoberto, ou redescoberto.

Na verdade, para a satisfação dos fãs de suspenses sobrenaturais, o filme funciona bem na telinha, porque a grande atração do filme é mesmo o roteiro surpreendente de Nicholas Kazan. “Possuídos” abre com uma imagem intrigante: o policial John Hobbes (Denzel Washington) se arrasta sobre a neve, no meio de um bosque, enquanto anuncia, narrando em off, que vai contar “sobre a vez em que quase morreu”. Esse prólogo, que muitos espectadores desatentos simplesmente esquecem à medida que o filme vai aprofundando o mistério, acaba se mostrando fundamental para a eficiência do filme.

Hobbes é o típico personagem de Denzel Washington: um sujeito correto, íntegro, que cuida de um irmão meio retardado e tem uma atitude de pai para com o sobrinho pequeno. Ele é o centro emocional que mantém a família unida, e tem uma carreira sólida como inspetor. De fato, a narrativa em flashback de “Possuídos” começa exatamente no ponto alto do atuação de Hobbes como policial. Ele acaba de prender um conhecido assassino em série que atuava na cidade, Edgar Reese (Elias Koteas, numa curta e inesquecível atuação).

Reese morre na cadeira elétrica, mas antes deixa Hobbes intrigado ao pedir para falar com ele minutos antes de morrer. Ele pronuncia palavras em uma língua desconhecida, é morto gritando palavrões e canta uma velha canção dos Rolling Stones, “Time is on My Side”. A partir daí, diversas mortes inexplicáveis, que seguem o mesmo padrão de crimes cometidos pelo assassino, passam a acontecer na cidade. Esses acontecimentos levam Hobbes a desconfiar que alguma entidade sobrenatural possa estar por trás dos crimes.

O cineasta Gregory Hoblit faz uma opção arriscada ao narrar o filme: para a platéia, ele soluciona o mistério logo após a morte de Reese. Hoblit cria uma câmera subjetiva que assume a perspectiva do demônio responsável pelos crimes. As imagens distorcidas e amareladas passam, a partir desse instante, a ajudar o espectador a saber quem é a pessoa que encarna a entidade sobrenatural.

O demônio se chama Azazael. A entidade é capaz de ocupar diversos hospedeiros humanos, mudando de corpo através do toque. A marca registrada do demônio (e outro interessante recurso cinematográfico para ajudar a platéia a saber em que personagem está hospedado o espírito maligno) é a música dos Rolling Stones. Seu hospedeiro sempre cantarola a canção.

A decisão de desvendar o mistério logo nos primeiros minutos poderia esfriar a trama e reduzir o suspense do filme, mas isso não acontece graças ao pulso firme do diretor, que utiliza “Time is on My Side” e a câmera subjetiva para situar a platéia como espectadora privilegiada do verdadeiro jogo de gato e rato entre assassino e policial. Assim, há duas ou três boas cenas de perseguição de Azazael a personagens do filme. São cenas tensas e originais, pois a vítima da perseguição nunca sabe bem em que corpo está o demônio que o persegue. As seqüências são capazes de grudar na cadeira e fazer o espectador suar frio.

Merece destaque, na criação da atmosfera desoladora que envolve o longa-metragem, o excelente trabalho do diretor de fotografia, Newton Thomas Sigel, responsável pela idéia da câmera subjetiva. Mas é a inesquecível canção dos Stones, contudo, que conduz a melhor seqüência do filme. A cena acontece quando Azazael invade a delegacia e mostra-se claramente a Hobbes pela primeira vez. O demônio brinca com o policial, saltando entre diversos hospedeiros humanos que cantam a música seguindo a seqüência perfeita da letra, mesmo sem ter consciência disso. É um grande momento de narrativa cinematográfica, pois dispensa efeitos especiais, e funciona de for a extremamente eficaz, já que narra toda a cena sem diálogos.

“Possuídos” não é perfeito porque tem uma trama cujo desenvolvimento é previsível, mas nem isso escapou da visão do diretor. Hoblit soube brincar com os clichês e expectativas da platéia. Em certo momento, por exemplo, espera-se o surgimento de um clima romântico entre Hobbes e a filha de um antigo policial que pode ter sido assombrado pela mesma entidade demoníaca, Gretta Milano (Embeth Davidtz). Em um filme mais comum, isso aconteceria. Nesse aqui, porém, o romance é convenientemente mantido em estado de suspensão, de ambiguidade.

O grande charme da película está nos últimos cinco minutos. A reviravolta é surpreendente, explica a aparentemente dispensável narração em off de Denzel Washington e oferece um dos finais de filmes mais originais desde “Seven”, uma inspiração bastante evidente de Gregory Hoblit (junto com o policial “O Advogado do Diabo”). Se você gosta de descobrir pérolas desconhecidas, “Possuídos” é para você. O DVD nacional tem apenas o filme (som Dolby Digital 5.2 e imagens originais em formato widescreen), sem nenhum extra.

– Possuídos (Fallen, EUA, 1998)
Direção: Gregory Hoblit
Elenco: Denzel Washington, John Goodman, Donald Sutherland, James Gandolfini
Duração: 123 minutos

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