Preço de um Homem, O

06/11/2007 | Categoria: Críticas

Faroeste inesquecível de Anthony Mann traz personagens lidando com conflitos éticos e morais imprevisíveis

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★★★½

Entre 1950 e 1955, Anthony Mann realizou, com o astro James Stewart, uma série de oito filmes de grande repercussão. Cinco faroestes, entre esses títulos, passaram à história como um marco renovador do gênero, elevando o nome do cineasta à santíssima trindade do western, ao lado de John Ford e Howard Hawks. Curiosamente, Mann buscou inspiração justamente em Ford para cunhar uma assinatura autoral, refinando uma das características mais importantes do diretor de “No Tempo das Diligências” – usar a paisagem natural para exprimir o estado de espírito dos personagens. Fez isso tão bem que passou à história como um dos cineastas que melhor utilizou este recurso essencialmente cinematográfico, e tão em desuso no século XXI.

Uma das grandes metáforas visuais cunhadas por Anthony Mann está em “O Preço de um Homem” (The Naked Spur, EUA, 1953), o mais famoso dos cinco faroestes feitos em dupla com Stewart. Trata-se do rio turbulento que corta a paisagem rochosa das montanhas do Colorado (EUA), onde o filme foi rodado, em locações naturais. Nervoso e indomável, o rio simboliza a condição humana – uma roda-viva de sentimentos que podem ser represados por algum tempo, mas não para sempre. Não é por acaso que o eletrizante duelo final, filmado de maneira espetacular pelo grande fotógrafo William Mellor (dois Oscar no currículo), acontece à beira do rio. Nos filmes de Mann, a paisagem sempre representa mais do que simplesmente uma paisagem.

Outro grande diferencial dos filmes do cineasta é a construção de personagens, que evita maniqueísmos. Os heróis de Anthony Mann não são sempre altruístas e incorruptíveis, e seus bandidos também têm sentimentos. Aliás, os cinco protagonistas entregues a James Stewart entre 1950 e 1995 são, a rigor, o mesmo personagem – homens taciturnos e solitários, atormentados por traumas do passado. Howard Kemp, o herói de “O Preço de um Homem”, exerce uma profissão moralmente condenável: caçador de recompensar. Originalmente, porém, ele era um simples rancheiro. Teve que migrar para a ingrata e violenta profissão alternativa depois de tomar um belo par de chifres, durante a Guerra da Secessão, que rachou os EUA em dois.

No auge da guerra, Kemp alistou-se para lutar e deixou o rancho com a amada. Quando voltou, descobriu que a mulher havia vendido a propriedade e fugido com outro homem. Sem grana, Kemp construiu um plano: capturar o fora-da-lei mais valioso da região (Robert Ryan) e, com o dinheiro da recompensa, readquirir o velho rancho. Quando o filme começa, Kemp está prestes a prender o vilão. Só não contava com a aparição de três outros personagens: um velho garimpeiro (Millard Mitchell), um militar desertor (Ralph Meeker) e uma bela garota (Janet Leigh, de “Psicose”). Com os dois primeiros, Kemp precisa se associar para poder efetuar a prisão, já que está em desvantagem no terreno rochoso. Já a loira de cabelos curtos é filha de um velho chapa do bandido e o está ajudando a fugir – portanto, precisa ser presa também.

A jornada dos cinco rumo à recompensa vai ser recheada de contratempos e imprevistos, mas surpreenderá o espectador sobretudo por mostrar os personaqgens lidando com conflitos éticos e morais imprevisíveis. As situações surgem e se desfazem em alianças, rompimentos e discussões que põem sucessivamente uns contra os outros. Assaltados pela cobiça e pela desconfiança, os três captores passam a brigar entre si, sempre açodados pelo sorridente bandido, que usa ainda a beleza da companheira para atiçar a libido dos colegas de viagem, jogando-os uns contra os outros. Além de construir uma aventura empolgante, Anthony Mann cunha os personagens de forma inteligente, dotando cada um de pontos fortes e fracos, de maneira que os laços de empatia criados entre cada um e o público vão apertando e afrouxando a cada nova cena. O controle do cineasta sobre esses laços é absoluto, magistral mesmo.

Além disso, a capacidade de Mann para usar o ambiente exterior de maneira a exprimir sentimentos é assombrosa. Tome como exemplo a cena que se passa dentro de uma caverna. É um momento crucial da trama porque marca o instante mais importante para Kemp e Lina (Leigh), então já apaixonados um pelo outro. Nesta seqüência impressionante, o rancheiro revela à moça toda a dor da traição no passado, enquanto as gotas de chuva que caem das goteiras criam uma espécie de sinfonia de lágrimas dentro da caverna, como se o céu chorasse junto com o herói. E o que dizer da atitude da garota em puxar conversa, uma atitude que ele interpreta como traição, mas que nós sabemos ser uma prova clara de amor – e uma prova que ela não pode revelar? Grandes filmes prescindem de palavras, e é por isso que “O Preço de um Homem” é um grande filme.

O filme não existe em DVD brasileiro. O disco importado dos Estados Unidos tem boa qualidade de imagem (tela cheia, 1.37:1) e áudio (Dolby Digital 1.0). Entre os extras, um curta da mesma época do lançamento original, um desenho animado parodiando a trama e o trailer.

– O Preço de um Homem (The Naked Spur, EUA, 1953)
Direção: Anthony Mann
Elenco: James Stewart, Robert Ryan, Janet Leigh, Ralph Meeker
Duração: 91 minutos

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