Preço de Uma Verdade, O

08/03/2005 | Categoria: Críticas

Filme relaxado e despretensioso realiza denúncia de peso sobre o Jornalismo que é praticado hoje

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★★☆☆

Grandes clássicos da história do cinema têm o Jornalismo como tema. O mais importante e lembrado deles talvez seja “A Montanha dos Sete Abutres” (1951), de Billy Wilder. O longa-metragem gira em torno de um repórter que consegue retardar o socorro a um trabalhador preso dentro de uma mina apenas para que o caso renda algumas manchetes a mais. Um conflito ético semelhante é o tema principal de “O Preço de Uma Verdade” (Shattered Glass, EUA, 2003), o ótimo filme de estréia do roteirista Billy Ray.

A inspiração de Ray, contudo, vem de um caso real. O jovem jornalista Stephen Glass (Hayden Christensen) era, em 1998, um dos mais promissores talentos a surgir na profissão, nos EUA. Editor da pequena mas conceituada revista The New Republic e colaborador de grandes magazines, como a Rolling Stone, ele vinha em carreira ascendente quando se descobriu que Glass, na verdade, não passava de um ficcionista. Em outras palavras, grande parte das reportagens que escrevia só existia na cabeça dele. Glass inventava personagens, distorcia e romantizava situações, aumentava os fatos, tudo em nome de uma boa história para publicar.

Em certa medida, é possível traçar um paralelo muito curioso entre os filmes dos dois Billy, Wilder e Ray, sem querer cometer a audácia de comparar um estreante com um gênio. Os dois protagonistas são ególatras, embora esse traço das respectivas personalidades se manifeste de maneiras distintas. O Chuck Tatum (Kirk Douglas) do filme de Wilder sabe exatamente o que está fazendo – só não sente o peso da culpa, coisa que o cineasta transfere para o espectador com a perícia de quem domina cada milímetro do ofício de fazer filmes. É por isso que “A Montanha dos Sete Abutres” passa um clima constante de gravidade.

Já Stephen Glass tem uma personalidade e um charme juvenis. Carismático, humilde, simpático e sobretudo engraçado, ele conquista os colegas de redação com as pautas sempre espirituosas, curiosas, excêntricas e instigantes. É por isso que o editor da revista, Michael Kelly (Hank Azaria), o adora, da mesma maneira que quase toda a redação. E é por isso, também, que o substituto de Kelly, Chuck Lane (Peter Skarsgaard), será a ruína de Glass. Lane tem um estilo mais sóbrio, mais sério, mais responsável.

Mesmo assim, inicialmente, nada muda para Stephen Glass, que continua emplacando suas pautas com regularidade. A situação só vai mudar com o empurrão inicial de uma revista online, que toma um furo histórico de Stephen Glass (sobre uma convenção de hackers) e decide investigar a história mais a fundo. Só aí surgem as primeiras contradições, que vão se avolumar rumo a um inevitável desmascaramento total.

O filme possui um ritmo muito natural e relaxado, algo que o diretor consegue privilegiando as cenas na redação, certamente o lugar que Stephen Glass considerava sua casa. Dessa forma, o filme ganha em humor e aparente despretensão. Ao mesmo tempo, os personagens são trabalhados com cuidado, para que jamais se transformem em maniqueístas. Nisso, Ray ganha a ajuda dos seus atores, que contribuem para a construção de personagens complexos. Hayden Christensen (o Anakin Skywalker de “Ataque dos Clones”) compõe um Stephen Glass de energia inesgotável, um misto de carisma com fragilidade adolescente que encanta e desarma.

Já Peter Skaasgard representa o contraponto perfeito: um sujeito compenetrado e sério. Ele é a verdadeira chave do filme, a responsabilidade em oposição à travessura. O cineasta Billy Ray chega inclusive à minúcia de incluir três seqüências de Chuck Lane em casa, com a mulher e o filho. Lá, ele se mostra um marido apaixonado e um pai carinhoso. Essa estratégia é claramente adotada para humanizar o personagem e afastá-lo do estereótipo típico do vilão.Com isso, estamos diante de uma película em que conceitos como heróis e vilões, como na vida real, não se aplicam. Isso é ótimo.

Em resumo, “O Preço de Uma Verdade” (cujo título original, “Shattered Glass”, é um trocadilho intraduzível com o sobrenome do jornalista, que significa “vidro”; a palavra “shattered” corresponderia a algo como “rachado”) é um bom filme sobre o Jornalismo, um filme que tem o objetivo de fazer uma denúncia tão prosaica como assustadora: a facilidade com que jornalistas podem mentir e enganar, transformando histórias ficcionais em narrativas verdadeiras com a mais implacável naturalidade.

Ao lado de “O Informante”, o longa-metragem é um dos mais interessantes estudos de caso contemporâneos sobre o poder da mídia sobre o público. Se tem interesse especial para repórteres e estudantes de Comunicação, “O Preço de Uma Verdade” deveria ser visto pelo público como um todo, por expor uma verdade básica: nem mesmo o mais sólido e sério veículo de comunicação é dono da verdade absoluta.

O DVD brasileiro não contém extras, mas compensa isso com som Dolby Digital 5.1 e imagem com corte original, em formato widescreen.

– O Preço de Uma Verdade (Shattered Glass, EUA, 2003)
Direção: Billy Ray
Elenco: Hayden Christensen, Peter Sarsgaard, Chloë Sevigny, Steve Zahn
Duração: 95 minutos

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