Prelúdio para Matar

20/05/2006 | Categoria: Críticas

Quarto giallo de Dario Argento é o primeiro grande filme do futuro mestre do horror italiano

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★★★☆

Opinião unânime de especialistas: “Prelúdio para Matar” (Profondo Rosso, Itália, 1975) é o primeiro grande filme do cineasta italiano Dario Argento. Mais do que isso, é uma obra que concentra, em 126 minutos, todas as marcas registradas da carreira do diretor. Cenas de morte repletas de violência gráfica, trabalho de câmera detalhista e criativo, trilha sonora que mistura jazz, rock progressivo e soturnas melodias infantis, traumas de infância, um assassino de luvas pretas e o uso abundante da cor vermelha: tudo isso marca presença em “Prelúdio para Matar” de maneira poderosa e estilizada. Trata-se de um dos filmes mais personalistas e interessantes do diretor.

A bem da verdade, Argento sempre realizou, no cinema de horror, aquilo que os Ramones fizeram no rock’n’roll: aprimorar a mesma obra indefinidamente. “Prelúdio para Matar” foi o quarto filme de Dario Argento, e também o primeiro a exacerbar algumas das características citadas no parágrafo anterior, já rascunhadas nos primeiros trabalhos. E foi exatamente esse elemento exagerado, meio campy, que acabou por dar um contorno definitivo ao trabalho do diretor. A partir de “Prelúdio para Matar”, Argento descobriu que não queria fazer filmes realistas. Queria desbundar, caminhar rumo ao excêntrico. Fez isso. E se deu bem.

Em termos narrativos, “Prelúdio para Matar” é um giallo autêntico. O nome (que significa “amarelo”, em italiano) surgiu em meados dos anos 1960 com o objetivo de rotular um filão de filmes de suspense que se tornava muito popular na Itália. Via de regra, são thrillers protagonizados por assassinos, de identidade desconhecida, que travam verdadeiro jogos de gato e rato com possíveis vítimas, alçadas à categoria de detetives amadores para proteger a própria vida. O filme de Argento narra a investigação empreendida pelo pianista inglês Marcus Daly (David Hemmings) para encontrar o misterioso assassino de uma médium (Macha Méril), crime que ele presenciou e não conseguiu evitar.

Neste filme, Argento presta uma homenagem praticamente explícita a outro mestre do cinema italiano, Michelangelo Antonioni. Isso fica evidente pela escalação de David Hemmings, que fez alguns anos antes a obra-prima “Blow Up”, de Antonioni, para o papel principal. Mas há mais – o papel de Hemmings é praticamente uma reprise do que ele fizera no filme de Antonioni. Nos dois casos, ele é impelido pelas circunstâncias a investigar um crime tendo como principal pista a própria memória, uma cena estática que ele precisa desconstruir para compreender por inteiro.

Vejamos: em “Blow Up”, o ator interpretava um fotógrafo que clicava, sem querer, a suposta cena de um crime. Tinha então que ampliar e manipular as imagens de várias maneiras, para poder compreender o que havia fotografado. Já em “Prelúdio para Matar”, Hemmings acredita que, ao entrar no apartamento da vítima para tentar salvá-la, viu algo importante. Ele sabe que viu algo, mas não sabe o que viu. Nos dois filmes, investiga obsessivamente os casos, amparados apenas na crença de que sua memória guarda algo importante para a solução do mistério. Esse truque aparece em muitos filmes de Argento (“Suspiria”, “Sleepless”, “O Pássaro das Plumas de Cristal”), mas aqui, reforçado pela presença do ator-fetiche de Antonioni, homenageia diretamente o mestre italiano.

Como em quase todos os filmes de Argento, o forte estilo autoral se sobrepõe à narrativa. Argento utiliza o recurso da câmera subjetiva com abundância, sempre a usando para ilustrar o olhar do assassino. Dessa forma, o diretor revela a presença do matador em determinados locais, agregando tensão à narrativa. As composições são não apenas rigorosas, mas extremamente criativas (observe a curta seqüência delirante, aparentemente – acredite, é só aparência – desconectada da narrativa, que mostra um assassinato, durante os créditos iniciais).

Outra impressão digital de Argento, que aqui bate ponto de forma especialmente grave, é a presença de seqüências de morte encharcadas de violência gráfica, em cenas filmadas com a pompa operística de uma orquestra. São poucos assassinatos, mas todos marcantes. A cor vermelho, que o próprio Argento já revelou ser de importância fundamental (ele afirma que sonha em vermelho), aparece em praticamente todas as tomadas. Argento ainda tem a chance de aproveitar cenários sensacionais nas locações em Roma, como a fonte gigantesca que fica em frente ao apartamento de Marcus Daly.

Para completar, alguns temas rascunhados em “Prelúdio para Matar” vão ser retomados e ampliados mais na frente, em outras obras de Argento. É o caso do interesse do cineasta pela forma de comunicação dos insetos (abordado rapidamente na cena de abertura com a médium, o tema vira porção fundamental de “Phenomena”, de 1985). Traumas de infância e a existência de uma mansão gótica abandonada também ocupam uma porção importante da narrativa – e serão retrabalhados com mais ênfase em “Sleepless” (2001).

Por fim, “Prelúdio para Matar” também tem o maior defeito do cineasta italiano: a péssima direção de atores, que parecem sempre teatrais e histéricos em demasia. Se bem que, em filmes de atmosfera delirante como os de Argento, até isso se justifica. “Prelúdio para Matar” é grande programa para os viciados em cinema de horror personalista e inteligente.

O DVD brasileiro, lançado pela Works Editora, possui um grave defeito, nascido de uma boa intenção. É que os responsáveis pelo lançamento utilizaram a versão original, sem os cortes exigidos pela censura dos Estados Unidos. Esta versão, porém, não teve os trechos de diálogos dublados em inglês, possuindo áudio apenas em italiano. Assim, há momentos no filme em que os personagens trocam de idioma, alternando-se entre as duas línguas, às vezes no meio de uma mesma conversa. E o pior é que os trechos em italiano não foram legendados em português, tornando-se incompreensíveis. Por outro lado, a trilha de áudio é Dolby Digital 5.1, e não 2.0, como mencionado na capa. A imagem está no formato original (wide 2.35:1 anamórfico), e não há extras.

– Prelúdio para Matar (Profondo Rosso, Itália, 1975)
Direção: Dario Argento
Elenco: David Hemmings, Daria Nicolodi, Gabriele Lavia, Macha Méril
Duração: 126 minutos

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