Preso na Escuridão

01/10/2003 | Categoria: Críticas

Suspense espanhol de baixo orçamento dá show de criatividade e reflete sobre fronteiras da realidade e do sonho

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★★★½

Nascido no Chile e criado na Espanha, o cineasta Alejandro Amenábar convive com elogios exasperados desde que lançou o primeiro filme, “Morte ao Vivo”, em 1996. Suspense seguro e cheio de tensão, o longa-metragem chamou a atenção da mídia espanhola, que passou a tratá-lo por “Orsonzito”, numa referência ao gênio precoce de Orson Welles, que fez “Cidadão Kane” com a mesma idade que Amenábar tinha ao estrear na tela grande. Exagero à parte, o cineasta escapou do assédio construindo uma obra de fôlego, e trafegando por outros gêneros. Apesar da alta qualidade dos trabalhos que dirigiu, contudo, é possível afirmar que “Preso na Escuridão” (Abre los Ojos, Espanha, 1997) ocupa o posto de obra-prima do diretor e músico, apesar de ser o menos conhecido de todos os trabalhos dele.

“Preso na Escuridão” fez sucesso no circuito de festivais dedicados ao cinema fantástico europeu, tendo sido descoberto durante o Festival de Berlim de 1998 pela sócia de Tom Cruise, a produtora Paula Wagner, que recomendou o filme ao astro. Cruise assistiu à obra em seu cinema particular, gostou do que viu e entrou em contato com Amenábar. A parceria acabou rendendo dois bons frutos: uma refilmagem americana (“Vanilla Sky”, a cargo de Cameron Crowe, inferior ao original apesar de ainda interessante) e o excelente horror fantasmagórico “Os Outros” (2001), produzido pelo ator norte-americano e protagonizado pela então esposa dele, Nicole Kidman.

Aqui, Amenábar constrói um suspense instigante, com toques de ficção científica, para tecer uma dura crítica à preocupação excessiva com as aparências que rege o mundo contemporâneo. Utilizando referências sofisticadas (o musical “O Fantasma da Ópera” é a mais explícita delas), o diretor realiza uma espécie de releitura livre e pós-moderna do romance “O Retrato de Dorian Gray”, de Oscar Wilde, tematizando com muita propriedade e inteligência uma característica recorrente dos filmes contemporâneos: o questionamento constante da natureza do real, através do embaralhamento das fronteiras entre sonho e realidade. “Preso na Escuridão” funciona como uma parábola que bate forte na cultura yuppie, mas faz isso sem o menor traço de didatismo, ao construir uma narrativa empolgante sobre um jovem milionário que mergulha pouco a pouco na loucura, depois de ter o rosto desfigurado em um acidente de automóvel.

A ação, mais psicológica do que física, centra o foco no rico e arrogante César (Eduardo Noriega, perfeito no papel). Herdeiro de uma fortuna, ele não tem nenhuma atividade a não ser dar festas de arromba, aproveitando a boa aparência para se envolver com uma garota diferente a cada noite. Justamente quando se apaixona pela primeira vez, por uma aspirante a atriz (Penélope Cruz, ótima), César acaba pagando pelo narcisismo e sofre uma agressão promovida por uma ciumenta ex-amante (Najwa Nimri, que além de ótima também é linda). A garota se mata em um acidente que o deixa com o rosto monstruoso. A partir daí, o que se vê é uma trama envolvente, que desafia a lógica convencional e flerta com a metafísica ao discutir temas polêmicos, como o uso da tecnologia para superar a barreira da morte. Tudo isso enquanto César tenta desesperadamente recuperar a antiga beleza.

O filme é excepcional. A paixão enlouquecida de César por Sofia (Penélope Cruz) ganha toques de tragédia com as referências ao subtexto de “O Fantasma da Ópera”, mas traça um caminho completamente novo e original, graças a um roteiro engenhoso e a uma direção criativa e inteligente. Amenábar consegue imprimir a lógica dos sonhos à narrativa, através de cortes abruptos que quebram o fluxo espaço-temporal e da inclusão de diversos momentos de dèjá vu (cenas repetidas, com leves diferenças, em que o personagem principal visita os mesmos cenários e fala as mesmas coisas, percebendo o fato mas não encontrando explicação para ele).

A música, também composta pelo diretor, é ótima, e há momentos de suspense muito interessantes, como a assustadora cena no bar em que um estranho homem, que parece seguir César por todos os lugares, tenta convencê-lo de que toda a vida dele não passa de um sonho. Apesar da complexidade da história, o final amarra todas as pontas soltas, providenciando explicações lógicas e detalhadas para tudo o que foi visto antes. Alguns espectadores podem interpretar a excessiva verbalização dessas explicações como um dado negativo, o que não deixa de ser verdade, pois não abre espaço para que a platéia interprete uma parte dos acontecimentos, o que poderia valorizar ainda mais o filme. Ainda assim, “Preso na Escuridão” se constitui num dos melhores filmes espanhóis dos anos 1990.

Infelizmente, o longa-metragem nunca foi lançado em DVD no Brasil, embora faça parte da programação das TVs abertas e esteja disponível em VHS com o selo da Warner. No exterior, o disco está disponível em versão simples e sem extras, com enquadramento preservado (widescreen 1.85:1 anamórfico) e áudio em dois canais (Dolby Digital 2.0).

– Preso na Escuridão (Abre Los Ojos, Espanha, 1997)
Direção: Alejandro Amenábar
Elenco: Eduardo Noriega, Fele Martinez, Najwa Nimri, Penélope Cruz
Duração: 117 minutos

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