Presságio

22/07/2009 | Categoria: Críticas

Híbrido de filme-desastre e ficção científica confirma imaginação fértil do cineasta Alex Proyas, mas derrapa feio com final esotérico-melodramático

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★★☆☆

Uma cápsula do tempo contendo desenhos dos alunos sobre o futuro, lacrada desde 1959 no jardim de uma escola primária em Massachussets (EUA), é desenterrada 50 anos depois. Cada envelope contendo os desenhos dos antigos alunos é entregue a uma nova criança. O material que cabe ao pequeno Caleb (Chandler Canterbury), contudo, é uma bizarra folha de papel repleta de números. Ao examinar o achado exótico, o pai dele, John, (Nicolas Cage), que é professor de Astrofísica, acaba descobrindo um estranho padrão: os números parecem indicar data, local e número exato de mortes de grandes desastres ou acidentes naturais da história da humanidade. A amarelada folhinha também prevê três grandes incidentes para o futuro próximo. O que John deve fazer com essa informação?

O ponto de partida de “Presságio” (Knowing, Austrália, 2009) é até atraente, mas analisada de forma superficial parece indicar apenas mais um blockbuster de verão, um portfólio audiovisual de luxo para que grandes empresas de efeitos especiais (CGI) mostrem que são capazes de dar vida a virtualmente qualquer cenário imaginado por um cineasta, por mais apocalíptico que seja. Esta expectativa é de fato consumada na produção, mas em termos de ressonância emocional o filme vai um pouco além dos épicos de destruição em massa levados a cabo por diretores-artesãos do naipe de Roland Emmerich (“Independence Day”) ou Michael Bay (“Transformers”). Alex Proyas, que já havia demonstrado criatividade visual e habilidade autoral em longas como “Cidade das Sombras” (1998), reafirma esse talento e nos dá um híbrido de sci-fi e disaster movie que, apesar de derrapar feio no final esotérico-melodramático, parece mais interessante que a média das grandes produções contemporâneas.

Para começo de conversa, é importante assinalar a semelhança temática deste filme com o subestimado “Sinais” (2002), de M. Night Shyamalan. Ambos têm como protagonistas homens viúvos, que criam filhos pequenos, e cujas esposas tiveram mortes violentas. Nos dois casos, são famílias isoladas da sociedade por causa desse trauma, e cujos eventos catastróficos forçam seus adultos a reexaminar questões de fé que pareciam superadas, ou adormecidas. Em essência, “Presságio” é um filme sobre a fé. Este conceito aparece no subtexto do filme, entrelaçado com o tema principal, que é expresso pelo professor de Astrofísica na aula que o vemos dar logo no começo da trama: a dicotomia entre caos e ordem, entre determinismo e livre arbítrio. Portanto, um dos temas fundamentais do conhecimento humano (interdisciplinar, já que abordado tanto pelas ciências exatas como pelas humanas) está no alicerce dramático deste filme.

Essa estratégia narrativa – embutir temas sérios dentro da carcaça de um melodrama convencional – é uma das marcas autorais mais importantes do trabalho de Alex Proyas, como demonstrado no citado “Cidade das Sombras” e também no irregular “Eu, Robô” (2004). Outro aspecto que marca a obra do diretor é o talento para a construção visual sofisticada, aqui expresso no conceito estético da fotografia, na excelência dos efeitos digitais e também em um plano-seqüência espetacular que dura três minutos e mostra um desastre de avião e suas conseqüências trágicas de maneira incrivelmente realista, sem cortes. Nesta cena em particular, bem como no filme como um todo, também é preciso assinalar o excelente trabalho do design de som, que constrói o espaço cênico tridimensional de forma enfática, usando todos os recursos do sistema multicanais de forma firme, mas discreta, sem exagerar no volume e na intensidade das explosões.

A seqüência do acidente é uma das chaves para decodificar o carregado simbolismo bíblico do filme (observe que pai e filho, por exemplo, carregam nomes cristãos). Essa simbologia inclui citações visuais a anjos, profetas e – claro – aos sinais gráficos do Apocalipse descritos nas Escrituras. Convém lembrar que a Bíblia cita expressamente o fim do mundo por meio do fogo, e diz que ele será anunciado por quatro cavaleiros. É interessante notar, também, que a fotografia de Simon Duggan utiliza esse simbolismo bíblico na evolução da paleta de cores, que enfatiza os tons amarelados do fogo (mais e mais intensos à medida que a ação dramática progride) para as ações terrenas, e as tonalidades azuladas do céu quando as cenas envolvem os misteriosos seres de sobretudos negros que surgem como aparições para a família (referência a “Asas do Desejo”, talvez, ou à refilmagem “Cidade dos Anjos”, protagonizada pelo próprio Cage).

Demonstrando mais uma vez respeito aos clássicos e conhecimento cinematográfico, Proyas também providencia citações visuais inteligentes e nada óbvias, como o plano do balão amarelo voando durante o prólogo (referência a “M – O Vampiro de Dusseldorf”, obra-prima do expressionismo alemão cujo “Metrópolis” já havia inspirado “Cidade das Sombras”) e a longa tomada com uso de grua, após o acidente no metrô (muito bem filmado, apesar de inferior à cena do avião), que termina com a bandeira americana esvoaçando em primeiro plano, enquanto a câmera mostra uma multidão de gente ensangüentada e empoeirada caminhando entre destroços . Sim, é uma imagem que traz ecos do 11 de setembro de 2001, mas recria detalhadamente um dos planos mais famosos do cinema, retirado de “E o Vento Levou”(1939).

Infelizmente, “Presságio” está longe de ser um grande filme. Um dos problemas está nas interpretações pouco convincentes das crianças, além dos eventuais excessos que comprometem, aqui e ali, o trabalho de Nicolas Cage de modo geral, desde o começo da carreira (as noites de bebedeira lembram “Despedida em Las Vegas”, mas se aqueles gestos dramaticamente excessivos faziam sentido naquele personagem, neste aqui não encaixam de forma alguma). O coquetel de teorias conspiratórias, que incluem até mesmo alienígenas e uma versão ultra-moderna da Arca de Noé, soa tremendamente exagerado e manipulativo. E o terceiro ato ameaça carregar o filme para o pantanal lamacento dos dramalhões, o que acaba se confirmando com um epílogo longo e cansativo.

O DVD é da Universal. Enquadramento original (widescreen anamórfico) e áudio (Dolby Digital 5.1) são tradicionais. Os extras incluem dois featurettes – um sobre as gravações, outro trazendo estudiosos comentando o apocalipse – somam 27 minutos. Um comentário em áudio do diretor (sem legendas) completa o pacote.

– Presságio (Knowing, Austrália, 2009)
Direção: Alex Proyas
Elenco: Nicolas Cage, Rose Byrne, Chandler Canterbury, Lara Robinson
Duração: 121 minutos

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