Primeira Noite de Tranqüilidade, A

10/10/2007 | Categoria: Críticas

Obra-prima de Valerio Zurlini, filme trabalha a melancolia de forma pungente e poética

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★★★★

O vento sopra forte, encapelando as ondas do mar bravio. Nuvens escuras no céu anunciam a chuva iminente. No cais, vazio, um homem caminha solitário. Ele afugenta o frio se escondendo dentro de um sobretudo pesado e envelhecido. Daniele Dominici (Alain Delon) é a personificação da melancolia. Barba por fazer, cabelo ensebado, parece não dormir nem tomar banho há dias. Tem um cigarro na boca e mãos encerradas dentro dos bolsos. A postura encurvada denuncia a indolência de quem caminha sem vontade, apenas para afastar o frio. A seqüência de abertura, emoldurada pelos gemidos doídos de um saxofone, compõe a primeira e mais importante paisagem do extraordinário drama existencialista “A Primeira Noite de Tranqüilidade” (La Prima Notte di Quiete, Itália, 1971).

Cineasta de estilo clássico, formado a partir de fortes influências da literatura, da poesia e da pintura, Valerio Zurlini dedicava grande atenção às paisagens. E a razão para este procedimento não era de ordem puramente estética. Zurlini usava, com imensa habilidade, um artifício narrativo típico dos grandes mestres do cinema. Ele construía a paisagem externa para revelar, através dela, a paisagem interna do protagonista. Ou seja, usava o ambiente para exprimir o estado de espírito do personagem, evocando através de imagens as sensações de sua alma. Neste caso, Zurlini acerta de forma magistral: será que existe uma paisagem mais melancólica e solitária do que uma praia em dia de chuva? Esta imagem recorrente voltará diversas vezes ao longo da projeção.

Inicialmente, Dominici parece uma esfinge. Rosto amarrotado, parece estar sempre de ressaca. Quase não fala, e nem apaga o cigarro. Zurlini se recusa a dar informações sobre ele; obriga o espectador a decodificá-lo aos poucos, através da observação atenta – os gestos, a atitude, o silêncio, estes são os signos que vão denunciá-lo. Na segunda cena, por exemplo, aprendemos que Dominici é um homem culto, um professor de Redação com excelente currículo. Na entrevista de emprego conduzida pelo diretor da escola da cidade de Rimini, descobrimos também que ele é um homem sem lar. Vive em trânsito, permanentemente em viagem. “Nada em seu currículo indica ambição profissional”, observa o diretor. “Provavelmente está certo”, responde Dominici, sereno. Dar aulas não lhe dá prazer. Nada lhe dá prazer.

Obviamente, Dominici é um herói existencialista, alguém muito em moda no cinema italiano dos anos 1960-70. Antonioni (“A Noite”) e Bertolucci (“O Último Tango em Paris”) filmavam o cotidiano desiludido de gente sombria e taciturna como ele. O professor é um niilista genuíno. Ou melhor, é um homem em permanente conflito pessoal (religioso, inclusive, como indicam algumas conversas no segundo ato). Ele tem casa e esposa (Lea Massari), mas passa pouco tempo por lá. Os dois não se suportam. O rosto de Dominici só se ilumina quando ele conhece Vanina (Sonia Petrova, dona de uma beleza estonteante), uma bela aluna de 19 anos. A paixão é instantânea e arrasadora, e o professor não faz a menor menção de escondê-la, mesmo sabendo que ela namora o playboy mais rico da cidade (Adalberto Marli).

Numa tarde chuvosa, professor e aluna iniciam um perigoso jogo de sedução, abrilhantado pelos diálogos elegantes e cheios de metáfora de Zurlini. Numa das seqüências mais elucidativas, ele a leva para assistir a um show aquático com uma foca, na praia deserta. Vanina comenta o incômodo que sente ao ver o animal preso em cativeiro, e a vontade que lhe dá de libertá-lo. Dominici devolve: “Ela não saberia o que fazer em alto mar. Pode não saber, mas está feliz aqui nesta prisão”. É evidente que ele não está falando da foca. Ela sabe disso. Reconhece nele uma alma gêmea, alguém também atormentado, com o espírito tempestuoso como o mar bravio. Está armado um cenário que poderia descambar facilmente para uma tragédia melodramática.

Só que melodrama não é com Zurlini. O grande diretor italiano é um mestre do rigor formal, das longas e graciosas tomadas de composição quase matemática. Seus enquadramentos são complexos e precisos, mas operados com tamanha graça que parecem espontâneos. Ele é um cineasta minimalista, de emoções contidas. “A Primeira Noite de Tranqüilidade” é um filme belo e sereno, que resgata as principais características da obra anterior do diretor (o amor impossível, a melancolia, a crítica sutil ao vazio da burguesia italiana), mas aplica a elas uma abordagem menos direta, mais poética e evocativa, mais oblíqua e controlada.

Há uma porção de citações literárias (Stendhal e Goethe, este último fornecendo o lindo título do filme) inseridas na trama. Pinturas nas paredes adornam muitos dos ambientes mostrados na tela. Não há qualquer ranço de artificialismo nisso. As imagens das pinturas, os trechos de poemas, os autores e as obras citadas comentam ou sublinham os dramas dos personagens, fornecendo mais informações ao espectador. Não há um mílimetro sequer de didatismo ou pedantismo intelectual na atitude. Além disso, Zurlini dá um jeito de refazer uma cena que está presente em quase todos os seus filmes (a dança, com o casal separado pelas circunstâncias), e seu enorme talento faz tudo se encaixar de forma orgânica na narrativa, como se a história não pudesse transcorrer de qualquer outra forma – e ela não pára de surpreender. Só grandes cineastas são capazes de tal feito.

Vale lembrar que o roteiro do filme nasceu de um projeto que Zurlini acalentou durante anos a fio. A idéia original era acompanhar a trajetória de uma rica família italiana que, depois de anos morando em uma colônia africana, retorna ao país de origem, apenas para descobrir que perdeu os laços de afetividade com aquela terra, agora estrangeira. O diretor não escondia que o professor Dominici era uma representação bastante fiel dele mesmo, também um homem introspectivo e de poucas palavras, traumatizado pela origem burguesa que desprezava. O projeto completo seria uma trilogia, mas Zurlini não conseguiu financiamento e acabou optando por filmar apenas a terceira parte da história. Uma pena – o cinema e nós, espectadores, só teríamos a ganhar se ele tivesse filmado dois outros longas-metragens do mesmo nível de “A Primeira Noite de Tranqüilidade”.

O DVD da Versátil é ótimo. Simples, tem o filme com excelente qualidade de imagem (widescreen 1.66:1 anamórfico) e áudio (Dolby Digital 2.0), e dois extras valiosos produzidos especialmente para a edição nacional: entrevistas com os professores Célia Regina Cavalheiro (14 minutos) e Antônio Gonçalves Filho (14 minutos).

– A Primeira Noite de Tranqüilidade (La Prima Notte di Quiete, Itália, 1971)
Direção: Valerio Zurlini
Elenco: Alain Delon, Sonia Petrova, Giancarlo Giannini, Renato Salvatori
Duração: 127 minutos

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