Primer

12/04/2005 | Categoria: Críticas

Ficção científica genial e intrincada de apenas US$ 7 mil deslancha carreira de diretor estreante

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★★★½

O ousado “Primer”, um dos filmes norte-americanos mais badalados em 2004, é uma prova definitiva de que o cinema pode ser barato e criativo. Por apenas US$ 7 mil e a ajuda de alguns amigos, o cineasta novato Shane Carruth inventou esse quebra-cabeças de ficção científica e surpreendeu o mundo. Sim, um filme feito por um matemático metido a roteirista, usando atores amadores e editado com o programa caseiro Adobe Première, podia ser bom o bastante para conquistar o Festival de Sundance, ganhar um contrato de distribuição internacional e conquistar um espaço nos corações e mentes de milhares de cinéfilos.

A trajetória de “Primer” é sedutora. O filme tomou três anos do tempo de Shane Carruth, um matemático desencantado com a profissão. Ele escreveu o roteiro, dirigiu, atuou, produziu, editou (em casa, num computador comum), sonorizou e compôs a trilha sonora. Usou a própria garagem como estúdio de filmagens. Carruth só pagou pelo aluguel da câmera e por alguns rolos de filme em 16mm. Para divulgar a obra, editou um trailer e montou um site. Depois, quando o filme foi aprovado na seleção para Sundance, pegou emprestada uma grana com um amigo e fez uma cópia em 35mm, formato-padrão de exibição nos cinemas. Foi o suficiente para provocar uma onda de elogios em torno do longa-metragem que o catapultou para uma carreira alternativa bem-sucedida. “Primer” já virou um filme cult.

O melhor é que todo o falatório se justifica. Sem usar os cacoetes e clichês tradicionais de Hollywood, Shane Carruth foi capaz de montar um thriller original, de enredo complicadíssimo, apesar de girar em torno de apenas duas pessoas. É uma trama de ficção científica, embora não possua um único plano que contenha efeitos especiais. “Primer” tem sido comparado com freqüência a dois filmes, “Amnésia” (a platéia tem grande dificuldade para entender o enredo) e “Pi”. Na verdade, “Primer” não tem a mínima relação com o primeiro, mas possui a mesma atmosfera conspiratória do thriller de Darren Aronofski, compartilhando com ele, ainda, uma incursão pelo reino da matemática. Fãs de “Donnie Darko” (o clima esquizofrênico, as múltiplas interpretações do final) também devem amar este filme.

O cenário principal de “Primer” é uma garagem. No cômodo, quatro amigos engenheiros montaram uma empresa caseira. Todos têm empregos em grandes corporações, mas trabalham lá nos horários de folga e finais de semana. Os quatro amigos estão desenvolvendo uma máquina com peças e equipamentos caseiros: o gás fréon de uma geladeira, pedaços de um escapamento de automóvel. Chegam mesmo a derreter um conversor para utilizar o metal. Eles discutem longamente, mas não conseguem saber exatamente o que estão construindo.

Dois dos engenheiros percebem que a máquina é algo importante. Aaron (Shane Carruth) e Abe (David Sullivan) decidem continuar no projeto sozinhos, já que a idéia e a concepção da máquina é dos dois. Eles põem a máquina dentro de uma grande caixa de metal, como um pequeno container, a fazem algumas experiências com ela. Descobrem que a máquina pode gerar proteína a partir de um fungo. Mandam analisar o material em laboratório, e ficam sabendo que a quantidade de proteína gerada pelo equipamento, em cinco horas, levaria cinco anos para ser acumulada no meio ambiente. O que diabos isso significa?

É difícil explicar sem estragar as surpresas que o roteiro reserva ao espectador. Na verdade, um dos maiores méritos de “Primer” é que o filme não se baseia numa narrativa tradicional. Não há diálogos explicatórios, a não ser por uma intrigante narração em off (é Aaron, conforme reconhecemos a voz), que é aparentemente um recado deixado por telefone em alguma secretária eletrônica. Os diálogos são muitos, e extremamente velozes. Os personagens falam atropelando uns aos outros, interrompem frases, e utilizam um vocabulário típico de matemáticos e engenheiros, o que torna impossível compreender tudo o que eles estão discutindo. Com atenção, a platéia captura o quadro geral, mas não os detalhes específicos, o que deixa qualquer espectador curioso. É essa curiosidade que nos move até o fim do filme: o que fará aquela invenção?

O momento mais marcante de “Primer” acontece quando Abe e Aaron descobrem, com o uso de um par de binóculos, para que serve de fato a invenção. É um choque genuíno que eles compartilham com a platéia. A reação de Aaron é parecida com a do espectador: o que diabos aconteceu? Como aquilo é possível? A partir daí, o clima de paranóia fica ainda maior. Há um período de excitação e euforia, seguida de dúvidas e medo, e depois desconfiança. O filme envereda por um reino pouco comum em obras de ficção científica. Questões morais são debatidas com exemplos concretos, enquanto o filme fica ainda mais complicado. O final dá um nó de vez na cabeça de qualquer um, mesmo dos mais atentos.

Shane Carruth diz que a inspiração para o filme veio de um livro que ele leu sobre descobertas importantes para a história da humanidade. Ele diz que imaginou como seria participar de uma dessas descobertas. Armou o cenário perfeito, seguindo a máxima dos tempos da Internet: a próxima grande invenção vai nascer na garagem de algum moleque genial. Acertou na mosca, criando um filme que é a cara do início do século XXI: acelerado, tagarela, intrincado e inteligente. “Primer” é o tipo de filme perfeito para se comprar em DVD, pois é preciso assisti-lo duas ou três vezes para apreender todos os detalhes, as idéias e sutilezas que ele contém.

Até mesmo na paupérrima parte técnica existem grandes acertos. “Primer” tem um visual “tecnológico”, com muito uso de luzes artificiais e uma queda para tonalidades verdes e amarelas. A edição de imagens é simples, mas rápida e consistente. Há uma trilha sonora interessante, composta à base de piano, que se utiliza de um expediente criativo para virar antológica: Shane Carruth aproveita a microfonia gerada pela invenção dos rapazes para introduzir um elemento eletrônico na sonoridade orgânica. A microfonia “sai” da ação concreta, em algumas cenas, para se juntar à trilha sonora. Tudo isso funciona à perfeição.

Por fim, é curioso observar a perfeita simetria entre Shane Carruth e o personagem que ele interpreta. Aaron também produziu, na garagem da própria casa, um produto do qual se orgulha um bocado. “Primer” é o invento de Shane Carruth. É bem provável que, como Aaron, o diretor tenha ficado confuso a respeito daquilo que estava criando. Ele deve ter feito a si as mesmas perguntas que Aaron fazia a si: o que eu estou criando? Qual será o resultado final disso? Felizmente, seja por instinto ou por disciplina, “Primer” cumpre tudo o que promete.

O processo de encontrar uma distribuidora para o filme nos cinemas também atrasou o lançamento de “Primer” em DVD, mas o disco está nas lojas da Região 1 (EUA) pelas mãos da MGM. É um lançamento simples, que mantém o formato widescreen e o som Dolby Digital 5.1. Como extras, apenas um trailer e dois comentários em áudio (um com Shane Carruth, sozinho, e outro reunindo o elenco: Carruth, David Sullivan, Anand Upadhyaya, Reggie Evans, Daniel Bueche e Chip Carruth).

– Primer (EUA, 2004)
Direção: Shane Carruth
Elenco: Shane Carruth, David Sullivan, Casey Gooden, Carrie Crawford
Duração: 78 minutos

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