Procura-se Amy

02/03/2005 | Categoria: Críticas

Terceiro trabalho de Kevin Smith aborda conflitos da geração dos anos 1990 com diálogos antológicos e muita cultura pop

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★★★½

Uma das melhores produções independentes de Hollywood na década de 1990, “Procura-se Amy” (Chasing Amy, EUA, 1997) chegou a ser exibido em alguns cinemas brasileiros. Você não sabia? Pois é. O filme passou despercebido pela maioria do público e, embora elogiadíssimo pela crítica, sumiu rapidinho das telonas. Por isso, foi preciso esperar pelo lançamento em VHS (em fevereiro de 1998) e, depois, de um DVD lotado de extras, para poder curtir decentemente a obra-prima do cineasta Kevin Smith.

“Procura-se Amy” é simplesmente um dos filmes que melhor captura o espírito da juventude dos anos 1990. Hilariante, de diálogos rápidos e inteligentes, o filme brilha ao narrar uma tragédia pessoal de forma bem humorada, pop e, porque não, profunda. A trama mergulha na paixão arrebatadora do desenhista de quadrinhos Holden McNeil (Ben Affleck, ainda um desconhecido na época) por uma colega desenhista, Alyssa Jones (Joey Lauren Adams).

O filme parece, em verdade, uma espécie de revisão pós-moderna de “Romeu e Julieta”, em que as famílias são substituídas, muito convenientemente, pelos amigos dos dois lados. Afinal, as famílias de hoje em dia representam um papel muito menos importante na vida dos jovens do que no século XXI, não? Mães e pais não são mais capazes de influenciar na vida dos adolescentes contemporâneos, na maioria dos casos. Os amigos, sim.

Holden, um cara jovem, irreverente e que se considera avançado, flerta com Alyssa e fica crente que ela corresponde, mas leva um susto ao descobrir que a garota é lésbica. Ele acaba desenvolvendo uma amizade, mas se descobre a cada dia mais apaixonado. Faz, por isso, uma viagem dantesca ao inferno. E o pior é que Holden arrasta, junto com ele, tanto Alyssa quanto Banky Edwards (Jason Lee), o melhor amigo e parceiro, enciumado com a nova dedicação do colega a uma garota que ele não compreende.

A tragédia vem daí. Holden acaba se descobrindo um cara, na verdade, imaturo. Essa imaturidade de adultos que se comportam como crianças tem sido tema para grandes filmes sobre jovens (“Alta Fidelidade”). Apesar das gargalhadas em profusão, “Procura-se Amy” chama a atenção mesmo pela forma original como aborda um assunto muito atual: os conflitos gerados em uma juventude espremida entre o espírito de liberdade sexual absoluta da época em que vivemos, de um lado, e o conservadorismo moral e religioso, do outro. Para os jovens, um prato cheio. É praticamente impossível não se identificar com algum dos personagens.

Claro que são eles, os personagens, o maior atrativo do longa-metragem. Depois de fazer o filme, Smith explicou que baseou toda a trama numa história verdadeira (o namoro dele com a atriz protagonista, Joey Lauren Adams). Disse, também, que criou cada um dos quatro personagens principais – há também Hooper X (Dwight Ewell), um desenhista negro e gay – em uma faceta diferente de sua própria personalidade.

Com “Procura-se Amy”, que custou a bagatela de U$ 250 mil e rendeu mais de U$ 12 milhões, o diretor Kevin Smith se firmou como um dos diretores mais promissores da nova geração. Também colocou o próprio nome no alto de uma constelação pop, pelas referências profusas ao mundos dos quadrinhos e aos blockbuster dos anos 1970 (preste atenção às referências a “Guerra nas Estrelas” e “Tubarão”, numa das cenas mais engraçadas do filme).

Ao lado de Quentin Tarantino, ele é um dos mais talentosos escritores de diálogos que apareceram no cinema norte-americano em muito tempo. Em “Amy”, há diversos momentos brilhantes. Dois deles, contudo, merecem um destaque especial: o monólogo em que Holden se declara a Alyssa e, depois, a pequena história narrada por Silent Bob (Smith, na única vez em que fala de verdade, em todos os filmes que fez) e que explica o título da obra. São palavras que qualquer pessoa que se identifique com os personagens gostaria de dizer alguma vez na vida.

O DVD nacional de “Procura-se Amy”, lançado pela Europa Filmes, se baseia na ótima edição norte-americana da Criterion Collection, e tem apenas um defeito: o formato da tela em fullscreen, com cortes laterais na imagem. Apesar disso, esse problema não interfere muito no filme, já que Smith não é um estilista de imagens e faz filmes cujo ponto nevrálgico está nos diálogos, e não na fotografia. Por isso o disco é um prato cheio, já que exibe 30 minutos de cenas cortadas com introduções explicativas feitas pelo diretor e pelos atores. Muitas dessas cenas tão engraçadas quanto o filme. Há ainda cenas de bastidores – e tudo com legendas em português.

– Procura-se Amy (Chasing Amy, EUA, 1997)
Direção: Kevin Smith
Elenco: Ben Affleck, Jason Lee, Joey Lauren Adams, Dwight Ewell
Duração: 113 minutos

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