Procura-se um Amor que Goste de Cachorros

24/01/2006 | Categoria: Críticas

Comédia romântica com John Cusack e Diane Lane é previsível, mas tem bons coadjuvantes e algumas cenas legais

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★★☆☆

Existem dois gêneros campeões de bilheteria que emplacam diversos lançamentos, tanto nos cinemas quanto no mercado de home video, todos os meses: os filmes de horror e as comédias românticas. As produções dos dois gêneros se dedicam, em essência, a filmar sempre as mesmas tramas, com pequenas variações. Portanto, quando a gente vai assistir a uma obra como “Procura-se um Amor que Goste de Cachorros” (Must Love Dogs, EUA, 2005), já sabe o que vai ver.

Não adianta fingir. Em comédias românticas, quase sempre a gente já sabe como o filme vai começar e como vai terminar (ocasionalmente aparecem películas originais como “Os Amantes do Círculo Polar”, mas são exceções que confirmam a regra). Resta saber então se a trama é conduzida com criatividade, e se evita os clichês com alguma inteligência. São, portanto, as pequenas variações que diferenciam uma produção da outra; é nelas que reside a diferença entre um filme bom e um filme ruim. No caso específico da estréia do diretor Gary David Goldberg, temos um meio termo: uma produção agradável e simpática, que evita alguns clichês e colide em outros.

Os personagens principais são dois. O homem é o construtor de barcos Jake Anderson (John Cusack). A mulher é a professora do jardim de infância Sarah Nolan (Diane Lane). Ambos são divorciados, estão na casa dos 40 anos e em depressão. Ambos também possuem amigos e parentes que estão loucos para ajudar os colegas a conseguir novos parceiros. O filme começa narrando a saga dos dois em narrativas paralelas, mas o cartaz, o trailer e os demais elementos do marketing deixam claro: eles vão se encontrar e viver uma história de amor.

Existem boas idéias no roteiro, também assinado pelo diretor. A principal delas é ter situado o casal numa faixa etária que raramente rende protagonistas em filmes de Hollywood. Sarah e Jake enfrentam problemas diferentes das dezenas de filmes sobre garotos pós-adolescentes que se apaixonam. São problemas familiares a qualquer pessoa que esteja perto dos 40. Ela foi trocada por uma mulher mais jovem pelo marido bombeiro. Ele não tem interesse em garotas vazias que só pensam em sexo. Os dois desejam uma relação mais madura, sincera, sem cobranças. Só que um não sabe o que o outro quer. Ou não tem certeza. O filme explora bem os dilemas da turma dos 40.

Outro acerto é o elenco de personagens coadjuvantes, que vão um pouco além dos eternos papéis de contraponto cômicos. Dessa vez, o drama dos personagens principais encontra eco em pelo menos uma subtrama, vivida pelo pai de Sarah, o viúvo Bill (Christopher Plummer). Ele e outros bons atores, como Stockard Channing (que faz a tresloucada Dolly) e Elizabeth Perkins (interessante como a irmã mais próxima de Sarah, chamada Carol), ganham personagens com densidade maior do que o normal. Eles não estão no filme apenas para colorir o drama dos dois protagonistas, mas possuem também algum estofo, alguma tridimensionalidade. Pena que os amigos e a família de Sarah sejam muito mais interessantes, o que dá a ela bem mais tempo em cena do que Jake.

Há ainda um terceiro ponto positivo, que é posicionar o longa-metragem diante de um dilema típico do século XXI: o uso da Internet como uma espécie de cupido virtual. Numa das cenas mais engraçadas do filme, Sarah comparece a um encontro marcado online para encontrar um desconhecido. É interessante perceber que o roteiro é mostra uma visão bem negativa sobre a Web, pois dá a entender que a rede só atrai pessoas frívolas, e tanto Sarah quanto Jake estariam acima dessa frivolidade. Se os dois se encontram pela primeira vez graças a anúncios virtuais, é graças aos esforços de um amigo de Jake e da irmã de Sarah, que publicam perfis online dos dois sem que eles saibam disso.

Os dois atores principais estão confortáveis em papéis familiares. Diane Lane parece ter encontrado um terreno fértil para atuar, após o sucesso de “Sob o Sol da Toscana”. John Cusack conhece comédias românticas há muito tempo e vive uma espécie de versão madura e “coroa” de Rob Gordon, o personagem que interpretou em “Alta Fidelidade”. Juntos eles rendem uma parceria cômica eficiente, o que fica comprovado em seqüências como a do jantar que marca o segundo encontro de ambos – e o que ocorre após o jantar é outra das grandes cenas do filme.

“Procura-se um Amor que Goste de Cachorros” só não é melhor porque segue a cartilha do politicamente correto com fidelidade canina (sem trocadilhos com o título, por favor); pense, por exemplo, no casal gay que é amigo de Sarah, o tipo de personagem desnecessário que tem marcado presença de forma irritante nas comédias românticas de Hollywood (“O Casamento do Meu Melhor Amigo”). Só faltou mesmo a presença do ator Ruppert Everett, especialista nesse tipo de papel.

Além disso, no terceiro ato, que marca o clímax e o final da produção, o filme cai de cabeça nos clichês mais detestáveis de Hollywood. É o tipo de final bobo, artificial, que pode até agradar aos casais apaixonados de plantão (público-alvo desse tipo de filme), mas não possui o menor traço de criatividade, e até se afasta da sobriedade que dá o tom de toda a narrativa elaborada pelo diretor Gary David Goldberg. Tudo bem: filme simpático com final previsível não faz, no conjunto, um programa ruim.

O DVD é da Warner. O filme está com enquadramento original (wide anamórfico), tem opções de áudio em inglês e português (Dolby Digital 5.1) e alguns extras, incluindo erros de gravação, um pequeno segmento de bastidores e cenas cortadas com comentário em áudio do diretor. Tudo legendado.

– Procura-se um Amor que Goste de Cachorros (Must Love Dogs, EUA, 2005)
Direção: Gary David Goldberg
Elenco: Diane Lane, John Cusack, Dermot Mulroney, Elizabeth Perkins
Duração: 98 minutos

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