Procurando Encrenca

11/07/2006 | Categoria: Críticas

David O. Russell entrega road movie alucinado que é, também, uma comédia leve e imprevisível

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★★½☆

O diretor David O. Russell passou a ser chamado de “novo Woody Allen” após provocar muito barulho na indústria cinematográfica com a comédia “Procurando Encrenca” (Flirting with Disaster, EUA, 1996). Orçado em ridículos US$ 7 milhões, o filme foi indicado a quatro categorias do mais importante prêmio independente dos Estados Unidos, o Spirit Awards, e levantou muitas sobrancelhas. É justo, pois se trata d, ao mesmo tempo, um road movie alucinado e uma comédia leve e imprevisível, contando com um elenco inspirado que se diverte à beça com as situações inusitadas e as maluquices propostas pelo roteiro, também escrito pelo diretor.

“Procurando Encrenca” se transformou em passaporte de Russell para o mundo de Hollywood. Mesmo assim, o cineasta optou por desenvolver uma carreira alternativa, bissexta, filmando em longos intervalos de tempo e sem fazer qualquer tipo de concessão ao cinema comercial. O ponto alto de sua obra posterior é “Três Reis”, filme de guerra cômico que satirizou a primeira Guerra do Iraque, em 1999, com muito humor negro. Ele é o tipo de cineasta com quem atores adoram trabalhar, pois seus filmes abrem bastante espaço para improvisos e são calcados, basicamente, em longos diálogos pontuados por falas rápidas.

Essa característica, aliada à curta duração do enredo, dá a “Procurando Encrenca” um ritmo veloz e incessante. O filme documenta uma longa viagem do casal Mel (Ben Stiller) e Nancy (Patricia Arquette), através de várias cidades dos EUA, em busca dos pais verdadeiros dele. Os dois são acompanhados pela assistente social Tina (Téa Leoni), que tem a missão de documentar o encontro para a agência de adoção à qual Mel foi entregue, ainda bebê.

O detalhe que mais chama a atenção no longa-metragem é o roteiro, inteligente e imprevisível. O texto combina duas qualidades raras: olho clínico para a paisagem social norte-americana e também diálogos tão espontâneos quanto engraçados – daí a comparação com Woody Allen. Quando Mel, Nancy e Tina saem de Nova York para San Diego, na primeira etapa da viagem, não dá para ter uma idéia de onde o filme vai parar, e David O. Russell conduz a ação com um molho surreal que é muito bem vindo.

De fato, é refrescante poder assistir a comédias como “Procurando Encrenca”, já que na maioria das grandes produções do gênero a gente pode adivinhar o final depois de 10 ou 15 minutos de projeção. Esta sensação de dèja-vu não acontece aqui. O filme segue em alta velocidade, levando o trio de um lado a outros dos Estados Unidos e proporcionando encontros com personagens hilariantes, como a dupla de policiais federais e a família de atletas (que inclui uma dupla feminina de vôlei de praia formada por duas loiras gêmeas estonteantes).

Além disso, recusa firmemente o melodrama, mantendo as surpresas até o brilhante, engraçado e inesperado final. Como se não fosse suficiente, também não tem intenção de passar qualquer tipo de mensagem edificante para a platéia, resumindo-se a contar uma história envolvendo personagens interessantes, o que é sempre bacana. Vale observar, ainda, que o filme gerou um monte de boas idéias reaproveitadas por filmes posteriores, como a série “Entrando Numa Fria” (preste atenção no casal riponga que domina a segunda metade do filme de Russell) e o ótimo “Flores Partidas”, de Jim Jarmusch, construído sobre a mesma sinopse.

O filme foi lançado em DVD no Brasil pela PlayArte, em disco simples e sem extras. É bem difícil encontrá-lo para venda avulsa, mas pode ser encontrado nas melhores locadoras.

– Procurando Encrenca (Flirting with Disaster, EUA, 1996)
Direção: David O. Russell
Elenco: Ben Stiller, Patricia Arquette, Téa Leoni, Josh Brolin
Duração: 93 minutos

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