Procurando Nemo

01/01/2004 | Categoria: Críticas

Animação reconta enredo de outros filmes da Pixar, mas com técnica maravilhosa e personagens encantadores

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★★★★

Este filme poderia ter um subtítulo muito significativo, algo como “E a Pixar conseguiu novamente!”. A empresa do gênio da informática Steve Jobs (fundador e presidente da Apple) vem conseguindo dar seqüência numa série de proezas, desde 1995, quando o primeiro “Toy Story” revolucionou o mercado da animação infanto-juvenil. Basicamente, a produtora conseguiu isso graças a uma conjunção de fatores raros: um timaço de programadores capaz de manter a firma sempre um passo na frente dos concorrentes, em termos de desenvolvimento de programas para animação digital, e outro time de criadores especializados em criar fábulas de apelo irresistível e universal.

“Procurando Nemo” (Finding Nemo, EUA, 2003) confirma, mais uma vez, que a Pixar domina perfeitamente a arte de encantar crianças e adultos em torno de histórias simples, mas feitas com bom gosto e sofisticação. A aventura do peixe-palhaço funciona em múltiplos níveis de significado e está anos-luz à frente dos concorrentes. Aliás, pode fazer uma experiência: tente entrar numa sala de cinema que esteja exibindo um filme da Pixar, ou mesmo locar um DVD produzido pela empresa, e verificar quem tira mais prazer da exibição dos desenhos animados, se adultos ou crianças. Não precisa se preocupar em ver qual é o filme exibido; o resultado vai ser sempre um empate saboroso para os dois grupos.

De certa forma, a grande triunfo de “Procurando Nemo” é até meio esquisito. O grande charme do filme, especialmente para os adultos, passa bem longe da narrativa, que é absolutamente convencional. Um resumo rápido: criatura fofinha e aparentemente indefesa é separada de amigo inseparável por um humano insensível; enquanto a primeira arruma novos amigos e luta para reencontrar o colega, a segunda empreende uma jornada aparentemente impossível para resgatar o amigo. Sabe de que filme estou falando? Bem, de quase todos os filmes da Pixar. Os dois “Toy Story” cabem perfeitamente na descrição acima. “Procurando Nemo” também, bastando para isso trocar a palavra “amigo” por “parente”.

A rigor, a Pixar produz quase sempre o mesmo filme, com pequenas variações de roteiro (ambientação, composição de personagens) e um upgrade completo de tecnologia. “Procurando Nemo” poderia ser descrito como “Toy Story 2.1”. Poderia, mas não vai. Eu estaria sendo cruel e injusto se fizesse isso. Claro que as semelhanças no enredo são muito mais do que mera coincidência, mas a culpa disso não é da Pixar – afinal, as velhas fábulas de Hans Christian Andersen, ou mais recentemente de Walt Disney, sempre utilizaram o mesmo expediente. E nem é preciso ficar restrito a histórias infantis para reconhecer esse fenômeno; o que dizer das centenas de aventuras, filmes policiais e comédias românticas que lotam os Multiplex? Não parecem também o mesmo filme?

Parecem porque, na verdade, contam a mesma história básica. Se o espectador mais atento analisar bem poderá encontrar, por trás das aparências, um esqueleto de narrativa, um fio de trama (como o resuminho de “Nemo” que entreguei acima) que se perpetua. Os próprios cineastas brincam, de quando em quando, com esses clichês nos roteiros dos filmes. A personagem Lisbela, do filme de Guel Arraes, tinha uma frase clássica: “o que importa no cinema não é o que vai acontecer, mas como”. Lisbela desvendava direitinho tudo o que iria ocorrer na telona, nos dramalhões que via diariamente. Ela não adivinhava; apenas sabia, inconscientemente, que grande parte dos filmes narra sempre a mesma história. Isso é normal desde que o cinema se estabeleceu como indústria, na década de 1920.

Nos filmes infantis, essa semelhança é ainda mais acentuada, pois a semelhança narrativa ajuda a criança a se sentir confortável com as situações dramáticas. É esse caso aqui. “Procurando Nemo” reconta a história de “Toy Story 2” utilizando uma nova ambientação: o riquíssimo mundo submarino da grande barreira de coral australiana. É lá que o peixe-palhaço Merlin, traumatizado com a perda da esposa e de centenas de filhotes para uma barracuda assassina, cuida do filho único, Nemo, com excessivo rigor. O fato de Nemo possuir uma nadadeira mais curta do que a outra só agrava o problema. Tanta paparicação faz o pequeno filhote se aventurar pelo oceano aberto, logo no primeiro dia de aula na escola. Nemo quer provar que pode nadar sozinho. Nas águas profundas, ele acaba capturado por um dentista que mergulha nas horas de folga. Aí, a premissa do filme fica estabelecida: Merlin vai enfrentar uma porção de aventuras para conseguir resgatar o filho, que foi parar no aquário de um consultório em Sidney. Lá, cercado de novos amigos, Nemo também vai dar tratos à bola para conseguir fugir.

Se o enredo não traz grandes novidades, o roteiro confirma a competência do pessoal da Pixar em manipular as convenções do gênero com absoluta segurança. Na viagem, Merlin faz uma amiga com problemas de memória (Dory) e enfrenta muitas aventuras, como encontros inusitados com tubarões e águas-vivas. Algumas vezes essas aventuras são emocionantes, e em outras são engraçadíssimas. A mistura de humor e ação funciona na medida certa, dando ao filme um ritmo constante e perfeitamente adequado. Para completar, o visual é deslumbrante. A imensidão colorida dos corais, o rosa translúcido das águas-vivas e a pele enrugada das tartarugas marinhas são apenas algumas das inacreditáveis proezas técnicas da Pixar, que conseguiu recriar o ambiente marinho, em computador, com riqueza de detalhes incomparável.

Como se não bastante, o filme traz ainda muitas referências cinematográficas a obras-primas do cinema, algo que sempre faz a delícia dos amantes de bons filmes. A câmera subjetiva do “Tubarão” (1975), de Steven Spielberg (que, por sua vez, pegou emprestada a técnica do antigo “O Monstro da Lagoa Negra”, de 1954), é homenageada logo no início do filme. Mais para o final, uma bela seqüência com gaivotas reverencia a obra-prima “Os Pássaros” (1961), de Alfred Hitchcock, inclusive com uma tomada milimetricamente idêntica a um plano clássico, do filme de Hitchcock, que mostrava o famoso ataque à vila de Bodega Bay, do ponto de vista dos pássaros. Isso sem falar da melodia característica de “Psicose” (1960), utilizada com precisão cirúrgica, num momento que faz até crianças de cinco anos pularem nas cadeiras.

Junte todos esses elementos e terá uma boa pista do sucesso dos filmes produzidos pela Pixar. Além de toda a diversão, as películas da empresa ainda trazem mensagens educativas inteligentes, para as crianças, nas entrelinhas. Em “Procurando Nemo”, por exemplo, essas mensagens atacam (1) os preconceitos contra deficientes físicos (preste atenção na gradual mudança de comportamento do pai em relação ao problema da “nadadeira da sorte” do pequeno peixe-palhaço), e (2) os parentes superprotetores. São raríssimos os filmes contemporâneos que conseguem passar mensagens educativas sem soar panfletários. Ao conseguir unir essa característica a um cinema de boa qualidade, a Pixar põe seu nome na linha de frente das empresas criadoras de bom cinema para crianças.

O DVD do filme é duplo e segue a mesma qualidade do filme, com material capaz de agradar a todas as faixas etárias. Há um comentário em áudio dos diretores, Andrew Stanton e Lee Unkrich, que pode também ser visto em sistema multiângulo. Três documentários cobrem o processo de construção do filme. Há o obrigatório making of, uma tour guiada pela Pixar e mais um featurette engraçado, dirigido por Jean-Michel Cousteau (filho do famoso explorador), que apresenta a vida nos corais. Um excelente curta-metragem (“Knick Knack”), uma enciclopédia virtual, um jogo interativo e galerias de imagens completam o pacote, digno de se ter em casa.

– Procurando Nemo (Finding Nemo, EUA, 2003)
Direção: Andrew Stanton e Lee Unkrich
Animação
Duração: 101 minutos

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