Profecia, A (1976)

20/03/2007 | Categoria: Críticas

Clássico do terror B é uma história criativa e impressionante de terror católico com toques de suspense

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★★★½

“A Profecia” (The Omen, EUA, 1976) é um filme B maravilhoso, um dos exemplos mais inteligentes de como a Bíblia pode inspirar filmes de terror com base na mitologia cristã. Feito com parcos US$ 2,2 milhões, um orçamento ridículo até mesmo para a época em que foi feito, o filme narra a história do nascimento do Anticristo com uma direção firme e um arsenal de truques baratos, bolados com criatividade pelo então iniciante diretor Richard Donner. A história, repleta de tensão e suspense, valoriza os sustos e os raros momentos de violência gráfica, tornando a experiência de assisti-la ainda mais perturbadora e aterrorizante.

Um dos mais importantes trunfos de “A Profecia” é a abordagem dada à obra por Richard Donner. Cineasta eclético e com nenhuma bagagem de horror B nas costas, ele dirigiu o projeto com um saudável desprezo pelos clichês tradicionais do gênero, preferindo investir na construção de uma cuidadosa atmosfera de tensão, ao invés de abusar de sustos gratuitos. Donner utiliza com freqüência, por exemplo, closes fechados nos olhos dos personagens, além de explorar uma textura de imagens mais escura, com muitas sombras e cantos escuros, e isso tudo gera no espectador a impressão de que muita gente sabe mais do que nós vemos, e que existe mesmo uma presença maligna à espreita.

A presença do astro Gregory Peck reforça a credibilidade ao filme. O ator interpreta um poderoso embaixador norte-americano (e potencial candidato futuro à Casa Branca), obrigado pelas circunstâncias a adotar uma criança como filho e esconder o fato de todos. O que Robert Thorn não sabe é que o garoto faz parte de uma conspiração, montada nos subterrâneos de Roma, para fazer o Anticristo virar o homem mais poderoso do planeta, cumprindo assim uma profecia contida no Apocalipse. Nesse aspecto, a equiparação de “A Profecia” ao clássico “O Exorcista” é inevitável, já que ambos narram o desespero de um pai diante de uma situação inexplicável que envolve o filho criança. Perfeito.

O restante do elenco também brilha. Lee Remick, que faz Katherine Thorn, compreende bem a dor do personagem, uma mãe que não consegue criar empatia com o próprio filho, e ilustra isso na tela com muito sentimento. David Warner faz o torturado fotógrafo Keith Jennings com uma mistura de tenacidade e resignação que chegam a ser comoventes. Mesmo com tantas feras, é a presença inesquecível de Billie Whitelaw que se tem brilho mais fulgurante no elenco. Ela é a satânica Sra. Baylock, e utiliza a presença altiva e o olhar desafiador e penetrante para ilustrar o nível de compromisso com que abraça a causa do Anticristo. Isso tudo sem falar do olhar sinistro do pequeno Harvey Stephens, que faz Damien. Fantástico.

Além disso, o roteiro é redondo e sem falhas, movendo-se de cena para cena num crescendo de suspense que desemboca num dos clímax mais originais e inteligentes do gênero. Alguns dos momentos estão entre os mais perturbadores dos filmes de horror B. Assista à assustadora visitaa do pequeno Damien ao zooólogico, por exemplo, e tente não ficar impressionado com a reação das girafas e macacos ao garoto. Outra cena espetacular é a sombria passagem de Thorn e Jennings pelo lúgubre cemitério etrusco, onde fazem uma descoberta potencialmente explosiva.

No percurso, o diretor ainda encontra tempo para dar pequenas nuances de humanidade aos personagens, o que torna a história mais verdadeira e, portanto, mais assustadores, já que o espectador sente que ela poderia estar acontecendo de verdade. Um bom exemplo está na maneira como Donner mostra a dor da mãe de pequeno Damien, quando ela começa a se afastar do filho, após perceber os tiques malignos do pequeno.

A cereja no topo do bolo está na impressionante trilha sonora (premiada com o Oscar) de Jerry Goldsmith. Sozinha, a música do filme é capaz de arrepiar os pêlos do braço de qualquer católico, ao fazer uso inteligente de corais masculinos que narram trechos satânicos em latim, às vezes lidos ao contrário. Inspirada na sombria ópera “Carmina Burana”, a música de Goldsmith sublinha brilhantemente o clima de medo que percorre toda a trama. O conjunto é uma obra de força dramática da obra realmente atípica, cuja abordagem leva muita gente a sentir medo genuíno desde a estréia nos cinemas norte-americanos, em 6 de julho de 1976. Excelente programa.

“A Profecia” pode não ser encarado como um clássico, mas permanece como um dos mais amados exemplares das obras de terror psicológico dos anos 70. Além disso, costuma ser visto como parte integrante de uma trilogia instigante sobre a vida terrena do suposto Anticristo. Exatamente por esse motivo, a Fox preferiu inovar ao colocar o filme em catálogo no Brasil.

A edição de 25° aniversário de “A Profecia”, lançada em 2001, pode ser adquirida de quatro formas: como um DVD solitário, como parte integrante de uma caixa que inclui também os outros dois filmes da trilogia original (também nas lojas em 2001), como uma segunda caixa que agrega um quarto telefilme à obra (2006). Nos três lançamentos, todos da Fox, o DVD de “A Profecia” é o mesmo. Há ainda a caixa “A Profecia Ultimate”, e aí o disco é duplo.

O disco simples possui um conjunto de três documentários sobre a produção da película original. O principal deles, “666: A Profecia Revelada”, tem 46 minutos e cobre, com depoimentos esclarecedores, todas as etapas da produção, desde as primeiras discussões sobre o roteiro até o comportamento do filme nas bilheterias. É um excelente documentário, cheio de detalhes e curiosidades, desnudando com minúcias o desenvolvimento do projeto – você vai aprender, por exemplo, que a última cena (a do funeral) foi acrescentada à trama posteriormente, por sugestão do chefe da Fox, Alan Ladd Jr.

Além disso, há um featurette de seis minutos com as coincidências e acidentes estranhos que insistiram em aparecer durante as filmagens, e mais um terceiro documentário (17 minutos) dedicado ao saudoso compositor Jerry Goldsmith, que relembra em entrevista de onde tirou inspiração para compor as sinistras melodias que lhe deram o Oscar de trilha sonora.

O filme em si tem boa qualidade de imagem (widescreen 1.85:1 anamórfica) e som mediano (Dolby Digital 2.0). Um comentário em áudio unindo Richard Donner e o montador Stuart Bettie completa o pacote, junto com um trailer.

O DVD duplo mantém os mesmos extras e traz mais alguns: novo comentário em áudio (com Donner e o diretor Brian Helgeland), dois featurettes extras, trilha de áudio realçada para cinco canais (DD 5.1) e um superdocumentário de 100 minutos.

– A Profecia (The Omen, EUA/Inglaterra, 1976)
Direção: Richard Donner
Elenco: Gregory Peck, Lee Remick, David Warner
Duração: 110 minutos

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