Profecia, A (2006)

11/12/2006 | Categoria: Críticas

Remake de clássico do horror católico decalca o original cena por cena, mas não tem a força e a criatividade dele

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★☆☆☆

A refilmagem de “A Profecia” (The Omen, EUA, 2006) remete a uma comparação inusitada. A melhor maneira de analisar o filme dirigido por John Moore não é comparando-o com o clássico de horror católico que Richard Donner fez 30 anos antes, mas sim o colocando ao lado do “Psicose” de 1998. A exemplo do filme de Hitchcock refeito por Gus Van Sant, o novo “A Profecia” praticamente decalca o original, cena por cena, com diferenças mínimas. No processo, consegue provar mais uma vez que a diferença entre um filme bom e outro ruim é sutil, e reside nos pequenos detalhes.

Pode-se encontrar um ótimo exemplo desta afirmação em uma cena da primeira parte de longa-metragem. Trata-se da morte da primeira babá de Damien (Seamus Davey-Fitzpatrick), durante a festa de aniversário do pequeno. Nos dois filmes, a seqüência é filmada de modo idêntico: o garotinho brinca com a babá, quando a mãe chega e o leva nos braços. A babá então olha para um gramado ao longe, e vê um cão negro. Troca com o animal um olhar, filmado em plano/contraplano, com um suave efeito de zoom que aproxima a câmera dos dois e enfatiza uma comunicação invisível entre ambos. Há um corte, e a babá ressurge no alto da mansão da família Thorn, chamando por Damien antes de saltar no vazio com uma corda amarrada ao pescoço.

John Moore realiza os mesmos movimentos de câmera que Richard Donner havia feito 30 anos antes. Escolhe enquadramentos similares, repete o efeito de zoom (um pouco mais lento) e chega ao requinte de filmar Damien assistindo a tudo cena dentro de um carrossel, igualzinho ao primeiro filme. Um espectador atento vai, contudo, perceber detalhes minúsculos que, na versão original, enriquecem a cena. São detalhes sutis: dois curtos planos de um segundo, uma troca de olhares a mais entre os atores, e só. Detalhes que aguçam a compreensão da platéia, injetam tensão extra na trama e tornam mais complexo, e portanto mais humano, o comportamento dos personagens.

No filme de 1976, a mãe de Damien observa silenciosamente a brincadeira do filho com a criada antes de tomá-lo nos braços, em atitude que expressa claramente ciúme – elemento inexistente em 2006. A moça humilde, que parece um pouco embaraçada, lança à patroa um olhar magoado quando esta lhe dá as costas, levando a criança – e isso também não existe na nova versão. Além disso, Richard Donner também incluiu duas tomadas rápidas, closes de um segundo cada, fechadíssimos, nos olhos negros do cachorro e no olhar vítreo da babá (Moore prefere mostrar o animal babando, a meia distância). Os dois segundos extras permitem ao espectador uma nova nuance de compreensão do ato: não existe uma comunicação espontânea entre mulher e bicho. O animal está hipnotizando a babá, induzindo-a a cometer suicídio. Eles não estão “conversando”; ele está lhe dando uma ordem.

Uma comparação cena a cena entre os dois filmes revelaria inúmeros detalhe desse tipo. A diferença pode parecer pequena, mas não é; os resultados finais não poderiam ser mais distintos. Enquanto o longa-metragem de Richard Donner ganha o posto de um dos exemplares mais aterrorizantes de horror católico, permanecendo na memória do espectador por muito tempo, a refilmagem é esquecida tão logo a projeção acaba. Que fique claro: “A Profecia”, versão 2006, não é um filme ruim. É apenas burocrático, preguiçoso, movendo-se de cena em cena com a energia de um jogador de futebol que acaba de disputar uma partida completa, com prorrogação e pênaltis. É claramente um filme cansado, sem inspiração. E isto depõe diretamente contra o diretor John Moore, porque os maiores defeitos estão nas escolhas de direção.

Muito elogiado pela refilmagem direta e sem firulas da aventura “O Vôo da Fênix”, o diretor ganhou cacife dentro da Fox por causa do sucesso dessa produção de 2004, e acabou foi escolhido pelo estúdio para encabeçar o projeto de “A Profecia”. Ele jamais escondeu de ninguém que não existia outra razão para o remake que não a oportunidade de alto faturamento nas bilheterias. Afinal, o simples fato de estrear na data cabalística de 6 de junho de 2006 (ou seja, 666, o número do Demônio, segundo o Livro do Apocalipse) já garantia interesse extra ao longa-metragem. Por causa deste marketing gratuito fornecido pela data, a Fox não manifestou muito interesse na qualidade do filme, entregando a John Moore o mesmíssimo roteiro de David Seltzer, usado em 1976.

O diretor nem sequer encontrou Seltzer pessoalmente. Apenas contratou o novato Dan McDermott (não creditado) para situar a trama nos dias atuais, polindo o texto original e burilando os diálogos para que os personagens pudessem falar como se fala em 2006. E é essa, precisamente, a única diferença entre o filme original e a refilmagem: agora, os personagens usam telefones celulares, lêem e-mails e falam gírias atuais. Acontecimentos recentes, como o ataque ao World Trade Center (2001) e o tsunami na Ásia (2004), também servem de pretexto para uma nova interpretação da profecia bíblica que prega o nascimento do Anticristo e o conseqüente fim do mundo. De resto, os diálogos originais foram preservados, os nomes de todos os personagens são os mesmos, e as cenas se sucedem na mesma ordem, nos dois filmes.

Filmando com o mesmo roteiro, John Moore não conseguiu obter do elenco performances consistentes como aquelas que Donner havia conseguido em 1976, e os personagens são notadamente mais rasos, menos complexos, menos ricos. Robert Thorn (Liev Schreiber), o jovem diplomata norte-americano que adota Damien em um hospital de Roma, não é mais um homem passional e devoto à esposa, mas apenas um sujeito ocupadíssimo, sem tempo para a família. Katherine (Julia Stiles), a trágica figura materna que em 1976 via o filho mais distante a cada dia e se culpava inconscientemente por isso, parece apenas uma socialite deslumbrada que não consegue se entender com crianças.

Os únicos membros do elenco que conseguem projetar alguma humanidade são David Thewlis, no papel do fotógrafo Keith Jennings, e Pete Postlethwaite, o torturado padre Brennan. Há uma piada brilhante na escalação de Mia Farrow como a diabólica Senhora Baylock (afinal, Farrow já deu à luz o próprio Filho de Satã, no sensacional “O Bebê de Rosemary”, de Roman Polanski), mas a brincadeira se esvai na interpretação mecânica da atriz, que não consegue dar a altivez assustadora que marcava a atuação de Billie Whitelaw no longa de 1976. Para os mais perspicazes, uma dica: o Damien original (bem mais expressivo, quase diabólico) chama-se Harvey Stephens e aparece em uma ponta como um fotógrafo.

A direção preguiçosa de John Moore ainda faz uso equivocado da trilha sonora, apelando para o velho truque de ir aumentando progressivamente o volume da música, a fim indicar à platéia que uma cena assustadora se aproxima. Ele não é ajudado em nada pelas melodias batuqueiras compostas por Marco Beltrami, que cairiam melhor em um filme sobre macumba do que numa biografia do filho de Satanás. Por fim, Moore ainda deu um jeito de inserir pequenas seqüências estilizadas de pesadelo (quase sempre de Katherine Thorn) que parecem sobras de algum filme de horror japonês, talvez um descarte de “O Chamado”.

Para não ficar apenas nas observações negativas, há de se destacar a eficiência dos efeitos especiais nas cenas de morte, cheias de uma violência gráfica que encaixam com naturalidade na trama, além de uma breve seqüência ausente do filme original. A cena documenta o estranho acidente que causa a morte de embaixador original escolhido para a Grã-Bretanha, antes de Robert Thorn, e foi filmada de modo a enfatizar o papel invisível ocupado pelo elemento sobrenatural nos acontecimentos relatados. É muito pouco para o remake de um filme de horror tão importante.

O DVD da Fox Filmes não tem extras, mas tem boa qualidade de imagem (widescreen anamórfica) e som (Dolby Digital 5.1).

– A Profecia (The Omen, EUA, 2006)
Direção: John Moore
Elenco: Liev Schreiber, Julia Stiles, David Thewlis, Mia Farrow
Duração: 110 minutos

| Mais
Tags:


Deixar comentário