Profissão: Repórter

25/05/2006 | Categoria: Críticas

Michelangelo Antonioni finge fazer um thriller de espionagem e realiza obra-prima existencialista

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★★★★

Em certo momento de “Profissão: Repórter” (Professione: Reporter, França/Itália, 1975), os dois principais personagens do filme estão sentado em um café de beira de estrada, batendo papo. A câmera do diretor Michelangelo Antonioni filma à meia distância e se movimenta de forma incomum, à maneira de um pêndulo, sempre seguindo automóveis que passam nos dois sentidos e parando, de vez em quando, no casal, que está centralizado. O recurso pode dar a impressão de mero enfeite estilístico, mas não é, pois resume, de maneira concisa e perfeita, o movimento interior de David Locke (Jack Nicholson), o angustiado jornalista que é o protagonista desta obra-prima do cinema existencialista.

Na verdade, o exótico movimento de câmera exprime a confusão interior de Locke, um homem profundamente angustiado, que se sente um verdadeiro prisioneiro da rotina. Aos 37 anos, o repórter leva a vida aventureira de um documentarista, sempre se embrenhando em lugar exóticos. É o tipo de vida que nós, habitantes das cidades grandes, invejamos – um sujeito que aparentemente experimenta a verdadeira liberdade, que não sabe onde estará amanhã, que se deixa levar pelo fluxo da vida. Ledo engano, pois ele também tem uma rotina. A mensagem de Antonioni é pessimista: rotina não tem nada a ver com estilo de vida, é algo que está entranhado dentro de cada um de nós, um câncer invisível que nos corrói, dia a dia, e do qual não podemos escapar.

David Locke até que tenta, quando ganha a chance única de trocar de identidade, em certa tarde empoeirada e calorenta, no deserto da África. Durante a viagem exótica para realizar um filme sobre as guerrilhas africanas, ele conhece um misterioso viajante (Charles Mulvehill) e, como nós, se sente atraído pelo estilo de vida que lhe parece diferente, refrescante. O estranho, que é fisicamente parecido com Locke, tem problemas cardíacos e morre no hotel. Em um impulso tresloucado, o repórter troca a foto do passaporte, assume a nova identidade de David Robertson e espalha para o mundo a notícia de que Locke está morto. Vai tentar fugir da rotina que lhe sufoca, assumindo a vida de outro.

Na sua primeira produção norte-americana, Antonioni realizou um perfeito thriller existencialista, que utiliza o esqueleto narrativo de um filme de suspense para refletir sobre o tema predileto do cineasta: o tédio do ser humano sufocado pela rotina. “Somos escravos do hábito, do qual não conseguimos fugir nem quando nos esforçamos”, reflete Locke, em certo momento. É esta a idéia. O estilo de filmar do cineasta italiano, privilegiando longas tomadas contemplativas, com silêncios abrasadores, põe o espectador no mesmo estado de espírito do protagonista. “Profissão: Repórter” é o filme que Albert Camus faria, se fosse diretor de cinema.

Antonioni possui um estilo de direção que é pura poesia visual; seus filmes nem sempre narram uma história objetiva, preferindo investir em imagens e idéias abstratas. Mesmo assim, o diretor é um verdadeiro esteta, e realiza algumas seqüências de brilho técnico incontestável. A cena em que Locke troca de identidade com Robertson, por exemplo, mistura brilhantemente presente e passado através de movimentos laterais de câmera, que flagram os personagens em diferentes momentos no tempo, enquanto a gravação de uma conversa entre eles é repetida em um gravador portátil (detalhe: o público só fica sabendo que a narração é diegética – ou seja, que está sendo escutada também pelos personagens e não é apenas um recurso do cineasta para explicar a história ao público – quase no fim da cena). É sensacional.

Como se não bastasse, há a famosa seqüência final, sete minutos sem cortes, em que a câmera realiza um zoom lentíssimo e acaba saindo de um quarto fechado por entre as grades de uma janela, deixando o espectador boquiaberto, sem saber como isso ocorreu. Um enfeite narrativo desnecessário? Novamente, não: o modo de filmar a cena apenas acentua a ambigüidade do acontecimento, quando faz a platéia ouvir uma coisa e ver outra (e quando a câmera retorna ao quarto, já não conseguimos mais ter certeza sobre o que ocorreu lá dentro).

Antonioni é um cineasta que sempre foi associado à chegada da pós-modernidade no cinema, e “Profissão: Repórter” é um filme-chave para isso, pois lida com uma questão essencial do homem pós-moderno: a questão da busca por uma identidade, o sentimento de deslocamento, de não pertencer a lugar nenhum. O italiano finge filmar um thriller comum de espionagem – que, à moda da época, tem a ação convenientemente deslocada entre várias cidades, da África a Barcelona, de Londres a Munique – para tentar captar o estado de espírito de um homem angustiado pela sensação de estar aprisionado pela rotina, um homem que realiza uma busca impossível por paz interior.

Junto com Nicholson, destaca-se no elenco a misteriosa personagem sem nome de Maria Schneider, recém-saída dos sets do polêmico “O Último Tango em Paris”. Ela é uma estudante de arquitetura que Locke/Robertson encontra casualmente, primeiro em Londres, depois em Barcelona (“eu nunca dei importância às coincidências antes de conhecer você”), e que o ajuda depois que sua flânerie pelas capitais européias acaba se tornando uma dupla fuga. Sim, dupla: Locke foge da esposa, que procura Robertson sem saber que ele é, na verdade, o marido; e Robertson tenta escapar de guerrilheiros interessados em comprar armas. Cabe um último aviso: “Profissão: Repórter” é um filme de perguntas, não de respostas. Assista degustando as imagens e refletindo sobre o significado delas para a sua vida.

O longa-metragem demorou vários anos para ser lançado em DVD devido a uma grande confusão a respeito dos cortes exigidos pelo estúdio financiador da produção. É que Antonioni entregou inicialmente um filme de quase quatro horas, que foi recusado. O italiano eliminou várias cenas e reduziu a metragem para 126 minutos, mas ainda assim o distribuidor norte-americano exigiu mais cortes, exibindo o longa-metragem com sete minutos a menos. Antonioni passou a rejeitar o filme, classificando-o como “mutilado”.

Em 1983, Jack Nicholson adquiriu os direitos da produção e passou a impedir qualquer lançamento que não respeitasse a versão integral. Somente em 2004, após um ano de negociações com a Sony Pictures, o ator liberou o lançamento em DVD, na versão de 126 minutos. O disco lançado no Brasil contém o filme restaurado (imagem widescreen anamórfica de excelente qualidade, e som Dolby Digital 2.0, razoável) com dois comentários em áudio, um de Nicholson e outro reunindo o roteirista Mark Peploe e a crítica Aurora Irvine, ambos sem legendas em português.

– Profissão: Repórter (Professione: Reporter, França/Itália, 1975)
Direção: Michelangelo Antonioni
Elenco: Jack Nicholson, Maria Schneider, Jenny Runacre, Ian Hendry
Duração: 126 minutos

| Mais


Assine os feeds dos comentários deste texto


5 comentários
Comente! »