Prometheus

13/06/2012 | Categoria: Críticas

Fragilidade da estrutura narrativa e caracterização rasteira dos personagens tornam irresistível o trocadilho: filme de Ridley Scott prometeu, mas não cumpriu

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★½☆☆

Prometeu, mas não cumpriu. O trocadilho, além de irresistível, exprime com fidelidade a sensação que fica ao se assistir a ficção científica “Prometheus” (EUA, 2012), de Ridley Scott. Quinto longa-metragem não-oficial da franquia Alien, conhecida por mixar tensão, sangue, filosofia e grandes seqüências de ação dentro de um universo futurista bastante coerente, o filme foi aguardado com expectativa durante uma década inteira, tempo no qual Scott e James Cameron – dois diretores revelados pela série – trocaram idéias que resultaram em um prequel (enredo ambientado antes dos eventos mostrados no filme inaugural, de 1979). O filme chama a atenção pelo excelente trabalho de direção de arte e pelas boas atuações de parte do elenco, mas isso não basta para dissipar a decepção causada pela fragilidade da estrutura narrativa e pela caracterização rasteira dos personagens.

Boa parte dos problemas de “Prometheus” resulta do esqueleto narrativo sobre o qual foram desenvolvidas as ações dramáticas. Uma olhada mais atenta confirma: estruturalmente, o longa-metragem de 2012 é idêntico ao de 1979, com pequenas variações. Os dois filmes estão divididos em três partes mais ou menos iguais. No primeiro ato, uma nave espacial terrestre chega a um planeta com atmosfera semelhante à nossa, enquanto apresenta os tripulantes da nave e desenha a dinâmica entre eles. O segundo ato mostra a tripulação explorando o tal planeta e descobrindo lá uma ameaça alienígena. O terceiro ato, mais claustrofóbico, resolve o dilema em longas seqüências de ação cujo cenário principal é o interior da nave.

Como já se tornou hábito em Hollywood, os personagens encarnam arquétipos mais ou menos estáveis das personalidades de sempre, o que pode ser bom no casos dos melhores filmes de gênero, mas aqui se limita a repisar o óbvio. Se os protagonistas respeitam tradições antigas da franquia (mulheres duronas lideram as equipes e/ou representam a maior esperança da tripulação), os coadjuvantes nunca ultrapassam o clichê do “boi de piranha”: estão ali apenas para dizer alguma frase de impacto ou para morrer em alguma seqüência sangrenta, invariavelmente sonorizada com estrondos e ruídos de baixa freqüência que saturam o subwoofer e os canais surround (aqueles que ficam atrás ou ao lado da platéia). Não há nenhuma novidade nesse departamento, embora não seja justo reclamar dele – todo o trabalho de som, incluindo a música, é feito com competência, embora sem muito brilho.

O único personagem que escapa a essas convenções é o andróide David, claramente uma mistura do HAL-9000 de “2001 – Uma Odisséia no Espaço” (1968) com o replicante louro interpretado por Rutger Hauer em “Blade Runner” (1982). A interpretação do inglês-alemão Michael Fassbender é um dos grandes destaques do filme: ambígua, ligeiramente afetada, sempre com um leve sorriso perturbador no canto da boca, como se o robô soubesse sempre um pouco mais do que os humanos do filme (e do outro lado da tela), o que pode muito bem se revelar uma verdade no terceiro ato.

Noomi Rapace, pegando carona na menina casca grossa que interpretou na versão sueca de “Os Homens que Amavam as Mulheres”, dá conta sem dificuldade da antropóloga Elizabeth, maior responsável pela expedição ao encontrar em pinturas rupestres uma espécie de mapa astrológico que indica aos humanos, no ano de 2092, um planeta distante de onde supostamente vieram os alienígenas que podem (ou não) ter algo a ver com a origem do homem. Apesar da boa escalação desses bons nomes (e de Idris Elba como o capitão da nave Prometheus), Ridley Scott desperdiça Charlize Theron (no papel da rígida e grossa líder da expedição) e mais ainda Guy Pearce, este último irreconhecível sob o peso de grossa maquiagem, como Weyland, o bilionário financiador da viagem – personagem também inspirado em “Blade Runner”. Aliás, é difícil entender o motivo da escalação de Pearce nesse papel, já que ele não aparece de cara limpa em nenhuma cena.

Embora o primeiro ato desperte interesse ao valorizar a discussão filosófica e deixar a ação física em segundo plano – “Prometheus” promete, agora sem trocadilhos, discutir questões milenares que envolvem a raça humana –, o roteiro logo se curva sob o peso dos clichês, que desembocam em um clímax com a indefectível batalha repleta de efeitos especiais. Talvez a cena que melhor sintetize esses clichês seja aquela em que dois membros desgarrados da expedição passam a noite numa caverna sinistra. Ao encontrarem uma cobra extraterrestre que se comporta como uma naja, sibilando sons ameaçadores e encarando-os sem medo, os dois astronautas resolvem simplesmente… BRINCAR com o animal desconhecido. Sim, brincar!! Não é difícil imaginar o final da brincadeira.

O grau de estupidez demonstrado pelo comportamento dos dois coitados quase transforma “Prometheus” numa produção trash de Ed Wood, algo que evidentemente o filme não é. E se isso ainda não te incomoda, caro leitor, que tal ver um determinado personagem enfrentar uma cirurgia abdominal que lhe rasga o ventre de um lado a outro, apenas para que ele saia correndo pelos corredores da nave-título alguns minutos mais tarde? Tudo bem, é no futuro, mas a tecnologia empregada da citada cirurgia (toda mostrada em detalhes) não permitiria a um ser humano normal esse tipo de extravagância física, o que arruína a credibilidade da diegese. Rombos de lógica e de caracterização de personagens, como os dois exemplos citados, se acumulam ao longo de todo o filme.

Por outro lado, com US$ 130 milhões na mão, a equipe de direção de arte de Ridley Scott brilha ao criar incríveis cenários que evocam com coerência os conceitos visuais do artista suíço H.R. Giger, tão bem explorados no primeiro filme da franquia. Infelizmente, o nível do roteiro não acompanha a excelência do trabalho visual, e o escritor Damon Lindelof ainda usa (?) a péssima experiência com pontas soltas adquirida em “Lost” para lançar um monte de perguntas que ficam sem resposta. Em entrevistas, Scott minimizou essas pontas revelando pedaços de um backstory fascinante, cheio de referências à mitologia cristã, mas acontece que muito pouco desse pano de fundo está efetivamente no filme. Ele também justificou as pontas soltas afirmando que estas ilustram o desejo de criar uma continuação. Ou seja, mais uma promessa. Vamos ver se da próxima vez eles cumprem o que prometeram.

– Prometheus (EUA, 2012)
Direção: Ridley Scott
Elenco: Noomi Rapace, Michael Fassbender, Charlize Theron, Guy Pearce
Duração: 124 minutos

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