Proposta, A

02/05/2006 | Categoria: Críticas

Faroeste introspectivo e sorumbático é um conto naturalista sobre a vida nos desertos australianos

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★★½☆

Música e cinema são duas expressões artísticas que, ao menos em aparência, reúnem pouca coisa em comum. Por isso, não foram poucos os cinéfilos que torceram o nariz ao saber que o australiano Nick Cave, menestrel de voz grave especializado em baladas sombrias sobre assassinatos, tinha um roteiro pronto que seria levado às telas pelo ex-clipeiro John Hillcoat. Apesar da desconfiança, o resultado da exótica aliança é um faroeste diferente, introspectivo e sorumbático como poucos. “A Proposta” (The Proposition, Austrália, 2005) aposta em poesia visual e numa atmosfera permeada pelo senso sombrio da morte, à moda de Monte Hellman (“Disparo para Matar”), para tecer um conto naturalista passado nos desertos do país aborígene.

Antes de mais nada, é preciso que se diga: “A Proposta” é um filme com todas as letras, e não um videoclipe gigante que serve de veículo para concretizar visualmente a poesia funesta de Nick Cave. Tem belíssima fotografia de tons crepusculares, ótima trilha sonora (canção-tema composta por Cave e sons incidentais feitos por Warren Ellis), boas interpretações e uma história intrigante, que funciona como uma variação interessante do esqueleto narrativo do romance “O Coração das Trevas”, de Joseph Conrad (o mesmo que inspirou o épico de guerra “Apocalypse Now”, com o qual o longa-metragem australiano guarda alguma semelhança). No todo, compõe um retrato inquietante sobre o assentar da civilização na Oceania.

Por outro lado, não há como negar que “A Proposta” contém as impressões digitais do trabalho de Nick Cave. O compositor sempre criou, nas canções, uma poesia singular, mais ou menos na linha de Edgar Allan Poe, baseada em imagens de terror e morte, com ênfase em um olhar quase patológico, cirúrgico, que examina com microscópico as idiossincrasias do ser humano. O olhar de Cave está impregnado em “A Proposta”. À primeira vista, é curioso que ele tenha escolhido um western como gênero para se expressar cinematograficamente. Uma observação menos casual e mais detalhada mostra que a escolha é acertada, já que o código visual do gênero bate perfeitamente com o tipo de imagem funesta que Cave sempre cultivou.

Observe os créditos, por exemplo. Eles vêm acompanhados por uma melodia sinistra, enquanto uma macabra seqüência de fotos de época aparece sobre fundo preto. Quase todos são retratos de pessoas mortas, cujos corpos são vestidos e posicionados como se estivessem executando alguma atividade de vivos. É puro Nick Cave. À lenta abertura sucede uma alucinante seqüência de ação, que exibe o momento em que o capitão Stanley (Ray Winstone) captura dois irmãos integrantes de uma quadrilha procurada numa região recém-colonizada da Austrália, em algum momento do século XIX. O balé de violência é mostrado de maneira extremamente realista, o que fica evidente pelos efeitos sonoros dos tiros, secos e metálicos, sem eco. São tiros que doem. Soam como seriam na vida real, e não em um filme de Hollywood.

Após o tiroteio, o chefe de polícia da remota cidade, Capitão Stanley (Ray Winstone), prende Charlie (Guy Pearce) e Mike Burns (Richard Wilson). Eles são integrantes de um bando procurado pelo estupro e morte de uma ilustre integrante do microcosmo social do rincão. O alvo de Stanley, porém, não é um nem outro, mas o irmão mais velho e líder do grupo, Arthur (Danny Huston). Dessa forma, o policial faz a arriscada proposta do título a Charlie: libertá-lo, caso Charlie aceite matar Arthur. Stanley promete libertar o caçula Mike, se Charlie cumprir a promessa em oito dias. Ele sabe que os dois irmãos mais velhos jamais se deram bem, e usa isso em benefício próprio. Charlie aceita. Não tem outra opção, se quiser salvar Mike.

É o início de uma jornada que tem flashes de “Apocalypse Now”, incluindo uma série de encontros bizarros à medida que Charlie penetra o deserto australiano. O que se segue é um filme irregular, mas sempre interessante. O confronto com o velho e bêbado caçador de recompensas, interpretado por um irreconhecível John Hurt, por exemplo, é desnecessário e não acrescenta nada à narrativa. Por outro lado, o repentino ataque da tribo aborígene é sensacional, e inclui uma das imagens mais perturbadoras da safra 2005 de filmes independentes. Enquanto isso, do outro lado do país, os ricos habitantes da cidadezinha sem nome pressionam o capitão para justiçar o assustado e frágil Mike.

A reconstituição de época comandada por John Hillcoat despreza todo e qualquer tipo de visão romântica do período, tentando mostrar tudo com o ar mais naturalista possível. O ar é infestado de mosquitos que grudam na roupa e empestam o ambiente, enquanto o calor infernal mantém a pele sempre gordurosa, pingando de suor. Não há um pingo de glamour em “A Proposta”. As únicas imagens bonitas são relacionadas à escassa natureza do lugar – o nascer e o pôr do sol –, e aparecem principalmente quando o místico Arthur, personagem claramente inspirado do coronel Kurtz de Coppola, está em cena.

Não há lição de moral em “A Proposta”, apenas uma velha e boa história que utiliza os códigos visuais do faroeste – homens cavalgando com o sol se pondo ao fundo, chapéus de feltro com revólveres preso no cinto, uísque em profusão – para compor um retrato realista do que deve ter sido a colonização australiana. É um filme lento, com um final alegórico e irreal que muitos espectadores vão odiar, mas que captura a sensação correta de desolamento e proximidade da morte. Em resumo, um faroeste diferente, honesto e cheio de vigor.

O filme foi lançado no Brasil diretamente em DVD pela Califórnia Filmes. O disco é simples e sem extras, e comete o pecado imperdoável de mutilar as laterais da imagem para encaixotá-la no formato 4:3, o famigerado fullscreen. Menos mal que o áudio é de boa qualidade (Dolby Digital 5.1, em inglês, e DD 2.0 em português).

– A Proposta (The Proposition, Austrália, 2005)
Direção: John Hillcoat
Elenco: Guy Pearce, Ray Winstone, Danny Huston, Emily Watson
Duração: 104 minutos

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