P.S.: Eu Te Amo

12/09/2008 | Categoria: Críticas

Comédia irregular trata da dura missão de seguir em frente e reencontrar a vida, depois de perder alguém importante

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★★☆☆

Os créditos do diretor e roteirista Richard LaGravenese não chegam a impressionar, mas pelo menos um dos trabalhos que ele fez tem um público fiel e entusiasmado: o romance maduro “As Pontes de Madison”, que Clint Eastwood transformou em um tocante estudo do amor na meia idade, em 1995. A referência é especialmente positiva porque “P.S.: Eu Te Amo” (PS I Love You, EUA, 2007), trata, afinal, de um tema semelhante – a dura missão de seguir em frente e reencontrar o prazer de viver, depois de perder alguém importante. O problema é que LaGravenese tomou a arriscada decisão de equilibrar a história entre o drama e a comédia, e falhou na empreitada. “P.S.: Eu Te Amo” até que funciona bem nos momentos mais dramáticos, mas falha feio em boa parte das tentativas de fazer rir.

Na verdade, o argumento é bem interessante. A cena de abertura nos apresenta a um casal jovem, bem no meio de uma discussão. Holly (Hilary Swank) e Gerry (Gerard Butler) brigam por um motivo banal, mas não são precisos mais do que alguns minutos para que a gente perceba que eles se amam – e, óbvio, a noite termina na cama. Após os créditos, porém, descobrimos que Gerry morreu. Foi vitimado pelo câncer, e Holly está compreensivelmente devastada. Como homem lúcido e apaixonado que era, porém, Gerry anteveu a depressão da esposa, e deixou para ela uma série de cartas, que vão chegando em intervalos regulares, a fim de ajudá-la a deixar o luto de lado e seguir a vida. O filme se concentra nos acontecimentos que a moça vivencia após a chegada de cada uma dessas cartas, intercalados com flashbacks do passado do casal e eventuais sonhos molhados da mulher.

Um diretor 100% burocrático aproveitaria a premissa para criar um melodrama carregado de lágrimas e clichês. Richard LaGravenese, contudo, tem ambições autorais, e deixa isso bem claro quando se recusa a cumprir toda a carga melodramática que a história parece, a princípio, prometer. Em um filme mais comprometido com o conceito de espetáculo, cada carta-surpresa de Gerry seria um acontecimento bombástico e de criatividade incomum, mas não é isso que acontece. As idéias do irlandês beberrão são boas, mas não geniais, o que favorece bastante o personagem. Afinal de contas, se trata de um homem normal, inteligente e interessante, mas não superdotado. LaGravenese sabia que se exagerasse na inventividade dos truques propostos por Gerry o filme perderia o cheiro de terra – a sensação de realidade, de que aquilo poderia acontecer na vida real – e viraria um espetáculo irreal.

Além disso, algumas escolhas dramáticas soam corretas, como a decisão de nunca mostrar um Gerry moribundo, o que forçaria as lágrimas da platéia. A conexão entre os dois personagens casados também é boa, e nesse ponto a escalação dos atores ajuda bastante. Hilary Swank é uma atriz versátil, e o fato de não ser nenhum modelo de beleza feminina ajuda bastante o filme a manter os pés firmes no chão. Já Gerard Butler, embora seja um ator limitado, tem uma persona que encaixa perfeitamente no perfil do personagem – jeito meio grosseiro e irreverente, mas com alguma sensibilidade. É uma pena que LaGravenese tenha feito dele um irlandês que vivia numa aldeia rural, abraçando assim um estereótipo nada positivo. Há outro personagem irlandês na trama, e ele segue a mesmíssima linha, o que também não parece muito inteligente para um roteirista tão cuidadoso. Mas até aí o filme se sustenta bem.

O grande problema mesmo vem com as duas melhores amigas de Holly (interpretadas, de forma igualmente canastra, por Gina Gershon e Lisa Kudrow). Todas, absolutamente todas as cenas em que pelo menos uma das duas participa soam equivocadas, de plástico. Basta observar, por exemplo, as cantadas ridículas que Kudrow tenta passar em todos os homens presentes ao funeral de Gerry. Ou a patética seqüência em que as três garotas perdem os remos durante um passeio de barco. Outro coadjuvante, interpretado por Harry Conick Jr., responde por uma subtrama com alto teor de artificialidade. E Kathy Bates tenta dar honra a um papel minúsculo que não está à altura de seu talento.

Longo demais para uma comédia e sem senso de humanidade suficiente para um drama, “P.S.: Eu Te Amo” estaciona em algum lugar entre os dois gêneros, sem conseguir reunir predicados que agradem inteiramente a fãs de nenhum deles. O final, de tom melancólico e ao mesmo tempo otimista, surpreende de modo positivo, mas não consegue dissipar a sensação de tempo desperdiçado, especialmente nas muitas seqüências que incluem as coadjuvantes cômicas. Sob certo aspecto, “P.S.: Eu Te Amo” confirma uma das máximas da indústria cinematográfica: no fim do dia, é o talento do diretor que faz a diferença, por melhor que seja o roteiro que ele tem em mãos. Richard LaGravenese é bom na segunda atividade, mas ainda precisa de estrada para adquirir confiança e virar cineasta seguro.

O DVD nacional, da Paris Filmes, mantém o enquadramento correto (widescreen anamórfico) e tem áudio OK (Dolby Digital 5.1). Os extras incluem cenas de bastidores.

– P.S.: Eu Te Amo (P.S.: I Love You, EUA, 2007)
Direção: Richard LaGravenese
Elenco: Hilary Swank, Gerard Butler, Gina Gershon, Lisa Kudrow
Duração: 126 minutos

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