Psicose

20/10/2005 | Categoria: Críticas

Filme de Alfred Hitchcock não precisa de defesa; é o cinema em estado de perfeição absoluta

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★★★★

Nada mais há para ser dito de novidade a respeito de “Psicose” (Psycho, EUA, 1960). O filme de Alfred Hitchcock não precisa de defesa; é o cinema em estado de perfeição absoluta. “Psicose” já foi esquadrinhado tão milimetricamente, por tantos e tão qualificados especialistas, que não esconde mais nenhum segredo. Pouca gente ousa discordar de que o filme definiu, em 1960, um novo rumo para o cinema de suspense/terror, tornando-se responsável pela explosão do gênero slasher (“Sexta-feira 13”, “A Hora do Pesadelo”), um dos mais lucrativos da indústria do cinema.

É interessante perceber que Hitchcock já sabia, desde o início do planejamento de “Psicose”, que estava produzindo um filme de baixo orçamento. Ele comprou os diretos o romance de Robert Bloch, que inspirou a trama, por meros U$ 9 mil, e apresentou um orçamento de apenas U$ 800 mil à Universal. Para poupar tempo e dinheiro, deixou de trabalhar com a cara equipe que utilizava no cinema para utilizar os técnicos que produziam, quase que a toque de caixa, o programa semanal que apresentava na TV norte-americana.

Hitchcock só não abriu mão de gastar tempo e dinheiro com aquela que se tornaria uma das mais famosas (e copiadas) seqüência da história do cinema: o assassinato de Marion Crane (Janet Leigh) no chuveiro. Na verdade, o diretor estruturou todo o filme ao redor desses célebres 45 segundos; por perceber a importância estilística da cena, Hitchcock não hesitou em reservar uma semana inteira para a filmagem dos 70 planos que compõem a cena. Ela foi, também, responsável por uma decisão fundamental do ponto de vista do estilo. O cineasta achou que a seqüência ficaria violenta demais se fosse filmada em cores, e decidiu fazer “Psicose” inteiro em preto-e-branco.

A cena de chuveiro é, sem trocadilho, o divisor de águas no filme. Antes dela, a platéia acredita estar assistindo a uma típica história de crime e castigo. Marion Crane, a aparente protagonista, é uma ladra. Ela acaba de roubar US$ 40 mil do cofre do patrão e fugir de Phoenix (Arizona) para ir morar com o namorado. No caminho, contudo, tem que parar num motel de beira de estrada para fugir de uma tempestade. Marion é atendida pelo simpático e tímido Norman Bates (Anthony Perkins, em interpretação inesquecível) e se arrepende do roubo; decide dormir lá mesmo e voltar com a grana no dia seguinte. Vai então tomar um banho – para lavar os pecados, talvez? É o último banho que tomará na vida.

O assassinato de Marion foi um verdadeiro choque para a platéia, pois era uma completa ousadia narrativa. Quase uma hora após o filme, o espectador finalmente percebe que o filme não é sobre o roubo de US$ 40 mil, mas sobre um psicopata de identidade desconhecida que mata hóspedes no sinistro Bates Motel. Antes de Hitchcock, nenhum cineasta jamais apresentara o assunto principal de um filme de maneira tão tardia, e de forma tão impressionante.

Não foram poucos os espectadores que desmaiaram ou berraram de medo durante as exibições de “Psicose”, nos cinemas da época. A seqüência da morte de Marion continua a ser um dos melhores exemplos de edição que um cineasta pode oferecer a seu público. Observadores atentos devem perceber que câmera de Hitchcock jamais mostra a faca usada no crime tocando o corpo de Janet Leigh. Toda a suposta violência da cena foi conseguida sugerindo, e não mostrando, o acontecimento. Isso é cinema no maior nível de qualidade que possível de se obter.

O restante do filme se dedica a mostrar a investigação sobre o desaparecimento de Marion, conduzida pela irmã Lila (Vera Miles) e por um detetive particular contratado por ela, Milton Arbogast (Martin Balsam). Antes do final, outro choque de alta voltagem ainda aguarda a platéia – a revelação da verdadeira identidade do assassino. Ele acontece em outra seqüência antológica, dessa vez não tão estilizada, mas igualmente impactante. Se em pleno século XXI “Psicose” ainda assusta, em 1960 o filme deixava a platéia grudada na cadeira e suando frio.

Em grande parte, os efeitos pretendidos por Hitchcock foram auxiliados por uma estratégia de marketing absolutamente genial, algo que o impecável DVD do filme, lançado pela Universal, ajuda a esclarecer. No trailer utilizado para apresentar a obra (7 minutos), Hitchcock aparece no banheiro limpo: “Já limparam tudo, mas vocês não acreditariam na quantidade de sangue que havia aqui”. Essa foi a primeira parte da estratégia – aguçar a curiosidade do espectador para a seqüência-chave da película.

A segunda parte da estratégia consistiu em esconder a identidade do assassino a todo custo. Para isso, Hitchcock chegou a divulgar, nos jornais da época, os nomes dos atores que estavam fazendo testes para interpretar o papel do serial killer do Bates Motel. No DVD, um maravilhoso documentário (94 minutos) conta essas e muitas outras histórias saborosas sobre a produção de “Psicose”; os depoimentos do roteirista Joseph Stefano ajudam a esclarecer cada etapa da cuidadosa construção do enredo.

Galerias de fotos, outros trailers e uma reportagem (9 minutos) sobre a estréia impressionante do filme nos cinemas também estão presentes no disco. Você ainda pode conferir os atoryboards completos da famosa cena do chuveiro, e vê-la dissecada em um segmento que a apresenta com e sem a música-tema, uma das mais famosas da história do cinema. O problema é que os extras da edição simples contêm legendas apenas em inglês.

Existe outra edição, dupla, no mercado desde outubro de 2005. A Universal a chama de “Edição de colecionador”. O disco 1 é idêntico ao DVD simples, inclusive com o mesmo problema das legendas. Já o disco 2 traz dois programas de TV (49 minutos, ao todo) contendo entrevistas com Hitchcock. Nada excepcional.

– Psicose (Psycho, EUA, 1960)
Direção: Alfred Hitchcock
Elenco: Anthony Perkins, Janet Leigh, Vera Miles, Martin Balsam
Duração: 109 minutos

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