Pulp Fiction – Tempo de Violência

18/02/2005 | Categoria: Críticas

Segundo filme de Tarantino mudou a face do cinema contemporâneo com diálogos deliciosos

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★★★★

A década de 1990 teve poucos fenômenos culturais de impacto realmente duradouro. Muitos artistas, é claro, tiveram fama e fortuna, viraram celebridades e estão por aí, vagando pela Terra como fantasmas abastados. Mas, do ponto de vista do impacto, houve poucas novidades em termos de cultura pop. Apenas duas coisas tiveram o efeito de uma hecatombe nuclear sobre suas respectivas áreas: o disco “Nevermind”, do Nirvana, na música pop, e o filme “Pulp Fiction – Tempo de Violência” (EUA, 1994), de Quentin Tarantino, no cinema.

Tarantino não precisou de mais do que dois filmes (antes de “Pulp Fiction”, ele fizera o cultuado e pouco visto “Cães de Aluguel”) para subir ao Olimpo do mundo cinematográfico. De estilo ousado e verborrágico, com um talento ímpar para reciclar clichês do cinema clássico em roupagem contemporânea, Tarantino ganhou o Oscar de roteiro original e uma Palma de Ouro em Cannes. E mudou todo o cinema que vinha sendo feito, em Hollywood e até mesmo na Europa.

Veja bem: estou falando aqui de um verdadeiro fenômeno cultural. “Pulp Fiction” transcende qualquer tentativa de avaliação. O filme influenciou de forma muito evidente tudo aquilo que veio depois, redefinindo a expressão “cinema alternativo” (que até então significava filmes europeus, geralmente de temática intimista, mais lentos e difíceis) e criando uma nova geração de cineastas. Tarantino abriu caminho para o inglês Guy Ritchie (“Snatch”), o alemão Tom Tykwer (“Corra Lola Corra”) e os norte-americanos Robert Rodriguez (“Sin City”) e Wes Anderson (“Os Excêntricos Tenenbaums”), apenas para citar alguns dos mais célebres frutos de “Pulp Fiction”.

O filme, em si, é obra de um cineasta completo, apesar de iniciante. Uma análise cuidadosa mostra talento, ousadia, conhecimento de causa (há uma quantidade abundante de referências a grandes clássicos do passado) e completo domínio da narrativa. “Pulp Fiction” narra três histórias paralelas (mais um pequeno e genial monólogo recitado por Christopher Walken) que se cruzam e jamais respeitam a cronologia temporal. O filme faz isso de maneira inteligente, refinada e acessível, de maneira que o espectador nunca perde o fio da meada.

São poucos os diretores capazes de tecer um filme a partir de variados pontos de vista, sem deixar a trama confusa ou gerar desinteresse do espectador. Tarantino, claro, usa todo o seu talento para prender a platéia à trama, mas sem dúvida deve grande parte do carisma do filme à capacidade quase sobrenatural para construir diálogos tão espontâneos quanto deliciosos. Em última análise, “Pulp Fiction” é um filme sobre as delícias de conversar abobrinhas.

A facilidade do cineasta para construir conversas exala espontaneidade, como se os personagens estivessem criando tudo ali, na hora, de improviso. Muitos diálogos que hoje são antológicos poderiam ter sido cortados do filme, se o diretor seguisse o manual padrão de Hollywood; quem diria que uma conversa banal sobre massagens de pés, que nada acrescenta à trama, se tornaria uma das referências obrigatórias para compreender o cinema da década de 1990?

Howard Hawks (um dos cineastas prediletos de Tarantino) dizia que tudo o que um diretor precisa para fazer um bom filme é de duas grandes cenas e pulso firme para recheá-las com uma história. Se é assim, Tarantino fez um dos maiores filmes jamais produzidos, porque a quantidade de grandes cenas é superabundante; cada seqüência do longa-metragem é sensacional.

A dança hipnótica de Uma Thurman e John Travolta, o tenso desafio de Bruce Willis (armado com um sabre japonês) e Ving Rhames contra um policial estuprador, o assalto improvisado de um casal de bandidos de segunda categoria a uma lanchonete (visto de dois pontos de vista diferentes, abrindo e fechando o filme) são apenas três exemplos de pérolas cinematográficas de primeira qualidade.

Esses exemplos não estão apenas nas cenas. Há quem veja defeitos no filme; fala-se de uma suposta superficialidade na composição de personagens. Mentira. Tome Mia Wallace (Uma Thurman) como exemplo. A esposa do gângster Marsellus (Rhames) não é a mulher leviana que muitos querem ver, mas uma garota jovem que sofre de tédio mortal por levar uma vida confinada. Quando tem a chance de sair com um cara que, voilá, acaba de chegar da Europa, ela se solta, toma umas a mais, cheia uma carreira extra e se diverte da maneira mais inconseqüente possível. Ela não quer sexo, na verdade; só quer espantar a rotina por algumas horas. E a enrascada em que ela se mete é cheia de humor e tensão na medida certa.

“Pulp Fiction” é tão bom que tem quase três horas de duração e passa como se fosse um episódio de sitcom. Para completar, possui uma das trilhas sonoras mais sensacionais – e conhecidas – que já foram feitas. Somente um ser que não esteve na Terra durante a década de 1990 seria capaz de não reconhecer as canções de surf music de segunda, o lamento country de terceira e sucessos improváveis como o cover da balada “Girl You’ll Be a Woman Soon”, que embalaram festas pelo mundo inteiro, durante dois anos, sem ficar com cheiro de mofo. Um gênio, esse Quentin Tarantino.

O DVD do filme, lançado no Brasil pela Buena Vista, é fraco. Possui o corte com imagem original widescreen, em transferência apenas razoável, e som Dolby Digital 5.1. Não há extras. Nos EUA, o filme tem uma edição de colecionador com um disco extra e documentários a dar com o pau. Nele, você tem trilha DTS, uma longa entrevista de 55 minutos com Tarantino, 24 minutos de cenas deletadas e até uma reportagem especial (16 minutos) sobre a importância do filme para a década de 1990.

– Pulp Fiction – Tempo de Violência (EUA, 1994)
Direção: Quentin Tarantino
Elenco: John Travolta, Samuel L. Jackson, Uma Thurman, Bruce Willis
Duração: 154 minutos

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