Quando Explode a Vingança

16/08/2005 | Categoria: Críticas

Fox lança falso western engajado de 1971 que quase enterrou (injustamente) a carreira de Sergio Leone

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★★★☆

“Quando Explode a Vingança” (Giù La Testa, Itália, 1971) é o menos conhecido filme do mestre Sergio Leone. Projeto de estúdio que Leone assumiu após Peter Bogdanovich e Sam Peckinpah abandonarem o barco, o longa-metragem é marcado pela tentativa do cineasta italiano em acrescentar uma dimensão política à receita estética do faroeste spaghetti. A ambição não foi bem recebida pelo público, e a má recepção fez a United Artists promover uma série de alterações no filme. Pena: “Quando Explode a Vingança” tem todas as marcas registradas de Leone, apesar de ser um pouco mais irregular do que “Três Homens em Conflito”, filme que serviu de referência para a produção do longa de 1971.

A sucessão de interferências na obra, além do fracasso de bilheteria, fez Leone cair em depressão. Desiludido, o italiano deixou de molho o grande projeto de sua vida – um filme sobre a máfia – e somente retomou a idéia nos anos 1980, quando fez “Era Uma Vez na América”, pouco antes de morrer. Enquanto isso, “Quando Explode a Vingança” permaneceu esquecido durante muito tempo, com quase 40 minutos a menos, sem possibilitar que os fãs do cineasta conhecem a montagem do diretor. Só em 2000 é que o filme foi restaurado e exibido da maneira que Leone o idealizou. E é essa versão longa que ganha uma edição especial em DVD.

Os primeiros minutos da produção já deixam claro que este é um filme de Sergio Leone. A câmera mostra uma fileira de formigas andando em terra seca. A linha organizada de animais é destruída por um jato de água, e então a câmera começa a se afastar, revelando um quadro inteiramente diferente: não é água, mas um homem urinando. Corta para o rosto suado de um humilde camponês mexicano. Ele pede carona a um rico comboio que transporta cidadãos de alta classe, é ridicularizado por esses e dá a volta por cima quando, minutos depois, o comboio é assaltado pelos filhos dele.

Todos os elementos que fizeram a fama de Sergio Leone estão na seqüência de 15 minutos: closes profundos de rostos castigados pelo sol, alternados com paisagens desoladoras do deserto; o senso de humor mordaz; a música atmosférica de Ennio Morricone, com assobios e corais masculinos; a dilatação do tempo através do confronto de olhares justapostos; a sugestão de violência não exibida diretamente (atente para o “confronto” entre o camponês bandido e a mulher integrante do comboio, que sugere mas não mostra um estupro). A abertura já vale o preço de “Quando Explode a Vingança”, e é uma delícia para cinéfilos acostumados com as peculiaridades do diretor preferido de Quentin Tarantino.

Em termos de estrutura narrativa, “Quando Explode a Vingança” remete diretamente à obra-prima do cineasta italiano, “Três Homens em Conflito”. O maltrapilho assaltante Juan Miranda (Rod Steiger) corresponde ao Feio do filme de 1966, um sujeito tagarela e engraçado; o irlandês John Mallory (James Coburn), enigmático e silencioso, seria o Bom; e o mal-encarado oficial mexicano Günther Ruiz (Domingo Antone), o Mau. A diferença é que este último tem pouco espaço na trama, surgindo apenas na segunda metade, sem pronunciar praticamente nenhuma palavra.

E as semelhanças continuam. Como em “Três Homens em Conflito”, a relação conflituosa entre o Bom e o Feio domina o longa-metragem. Em “Quando Explode a Vingança”, Juan quer assaltar o banco da cidade de Mesa Verde, e pretende persuadir John a auxiliá-lo com métodos pouco convencionais. Além disso, o pano de fundo do filme de 1966 é a guerra civil, assim como na produção de 1971 (no primeiro caso, a batalha entre nortistas e sulistas, em quanto no caso de “Quando Explode a Vingança” é a revolução mexicana, uma vez que o filme se passa no México, em 1913). Como diferença básica, pode-se dizer que esta obra é um falso western, pois utiliza elementos do estilo com uma abordagem bem mais moderna.

Alguns críticos apontam, como maior novidade de “Quando Explode a Vingança”, o subtexto político, claramente expresso na frase de Mao Tse-Tung sobre a revolução, que abre o filme. Esquecem que “Três Homens em Conflito” já era político, na sua mensagem pacifista. A diferença é que, aqui, Leone passou a ser engajado, além de político. Não há dúvida de que ele foi mais ambicioso, criando uma reviravolta na metade do filme que transforma a produção na saga de um humilde homem do povo que ganha, aos poucos, um arremedo de consciência política, mesmo que sem o desejar.

Leone faz essa transição muito bem, realizando uma surpreendente reviravolta e adiantando o que parece ser o objetivo final dos personagens para um ponto localizado mais ou menos na metade dos 157 minutos de projeção. O problema é que a reviravolta obriga os personagens a mudar de objetivo, pelo menos na aparência, o que afeta o ritmo do filme, tornando-o mais contemplativo e menos tenso do que o Leone habitual. Talvez por isso as platéias reagiram tão mal à produção.

Se não ganha o status de obra-prima, “Quando Explode a Vingança” contém todos os elementos necessários para deixar o admirador do cineasta salivando. Um negócio muito interessante é perceber, também, o paralelo deste filme com “Meu Ódio Será Sua Herança”, de Sam Peckinpah, que se passava na mesma época, no mesmo território desolado, e exala uma sensação bem semelhante de fim de uma época, simbolizada pela mesma metralhadora de Peckinpah. E se você gosta de cenas literalmente explosivas, confira o clímax com o choque de trens, em cena muito mais realista e espetacular do que qualquer cena de qualquer filme de Michael Bay.

O lançamento do selo Fox Classics tapa o último buraco da obra de Leone no Brasil, já que “Quando Explode a Vingança” só estava disponível, antes de 2005, em um antigo VHS. O disco é simples, e contém a obra restaurada com a montagem original, de 157 minutos. O corte é excelente (formato widescreen 2.35:1 anamórfico), e o som muito bom (áudio em inglês, Dolby Digital 5.1). A decepção vem nos extras, pois há apenas um comentário em áudio do especialista Sir Christopher Frayling, sem legendas.

A edição brasileira foi lançada sem o segundo disco, presente na edição de colecionador dos EUA e Europa. Esse DVD importado contém seis documentários sobre as gravações e a restauração da obra, totalizando 55 minutos de material extra. Além disso, um trailer, uma galeria de fotos e spots de rádio completam o disco. É uma pena que esse material fique inédito no Brasil.

– Quando Explode a Vingança (Giù La Testa, Itália, 1971)
Direção: Sergio Leone
Elenco: Rod Steiger, James Coburn, Romolo Valli, Franco Graziosi
Duração: 157 minutos

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