Quando Paris Alucina

15/02/2006 | Categoria: Críticas

Comédia romântica explora charme de Audrey Hepburn e inova com metalinguagem

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★★½☆

Se algum dia um amigo seu tiver dificuldade para entender o significado da palavra “diva”, mostre a ele uma foto de Audrey Hepburn. Poucas vezes na história do cinema a associação entre um conceito e uma pessoa foi tão simples e fiel. O rosto delicado e o jeito espevitado da “bonequinha de luxo” cativaram milhões de fãs, nas décadas de 1950/60, e ajudaram Hollywood a esticar a vida útil de um gênero em franca decadência – a comédia romântica que ao mesmo tempo satiriza e glamouriza a aristocracia, especialmente a européia, na tradição cômica iniciada por Ernst Lubitsch. Audrey foi uma espécie de Cinderela de Hollywood em seu tempo. “Quando Paris Alucina” (Paris – When It Sizzles, EUA, 1963) é um dos filmes menos conhecidos da diva, e também um dos mais subestimados.

O projeto do longa-metragem de Richard Quine nasceu da vontade da Paramount de capitalizar em cima do sucesso de “Sabrina”, a comédia dramática dirigida por Billy Wilder em 1954. Para isso, o estúdio decidiu juntar dois atores daquele filme, colocando William Holden para contracenar novamente com Hepburn. A química entre os dois, já testada e aprovada, agrega um charme extra ao longa-metragem, mas não é por esse detalhe que os cinéfilos de todo o mundo continuam retornando, fascinados, ao filme. O fato é que “Quando Paris Alucina” oferece uma visão interessante das engrenagens da indústria cinematográfica, além de ser uma brincadeira metalingüística encantadora, cheia de bom humor e charme.

A história é bem simples. Richard Benson (Holden) é um roteirista famoso, que recebeu uma fortuna de um grande produtor (Noel Coward) para entregar o texto de um futuro filme, mas gastou toda a grana bebendo, jogando e namorando nos cassinos de Monte Carlo e da Riviera francesa. Agora, ele só tem três dias para entregar o script pronto. Para facilitar o trabalho, contrata uma datilógrafa, Gabrielle Simpson (Hepburn), e dá a ela a missão de ajudá-lo a apressar a tarefa. Juntos, os dois passam a imaginar situações para o futuro filme, e essas situações viram pequenas esquetes cômicas filmadas pelo diretor Richard Quine, sempre com os dois atores interpretando os principais personagens.

Em outras palavras, “Quando Paris Alucina” é o típico exemplar do “filme dentro do filme”. Se em termos de estrutura dramática o longa-metragem é previsível e certinho – como qualquer leitor/espectador pode imaginar, entre Benson e Gabrielle surge uma atração mútua crescente – a metalinguagem presente na trama antecipa em pelo menos 30 anos a utilização freqüente desse artifício em filmes feitos para grandes massas. Você imaginaria, por exemplo, que uma comédia romântica de grande apelo popular feita em 1964 pudesse ter uma cena que parasse na metade, voltasse e começasse de novo, com pequenas alterações? Ou que o personagem principal mudasse continuamente, virando de agente secreto a vampiro, de caubói a gângster? Pois “Quando Paris Alucina” faz tudo isso de maneira leve e divertida, sem jamais esquecer que se trata de um filme de amor.

De quebra, a platéia ainda ganha uma visão sutilmente crítica de como funciona a máquina hollywoodiana de fazer filmes. Essa visão crítica da produção de filmes é representada soberbamente em uma seqüência antológica, na qual William Holden rodopia pela sala, enfileirando folhas de papel em branco pelo chão. A linha de papel funciona como metáfora para um fictício roteiro de encomenda que reproduz, nos mínimos detalhes, as fórmulas recicladas infinitamente pelos escritores de encomenda que Hollywood revela aos montes, todos os anos, naqueles filmes estéreis e bobos que não têm alma própria e subestimam a inteligência da platéia. Isso, aliás, é algo que “Quando Paris Alucina” não faz. Apesar de possuir uma segunda metade longa demais e com problemas de ritmo, esta comédia romântica encanta pelo charme e pelo tratamento inovador da metalinguagem.

O DVD nacional é da Paramount. Contém apenas o filme, com o formato de imagem original (widescreen anamórfico) e som OK (Dolby Digital Mono). Não há extras. O disco não é vendido separadamente, mas integra a caixa dedicada a Audrey Hepburn que a distribuidora jogou nas lojas e locadoras brasileiras.

– Quando Paris Alucina (Paris – When It Sizzles, EUA, 1963)
Direção: Richard Quine
Elenco: William Holden, Audrey Hepburn, Grégoire Aslan, Tony Curtis
Duração: 110 minutos

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