Quanto Mais Quente Melhor

16/04/2008 | Categoria: Críticas

Comédia sofisticada sem ser pastelão eterniza imagem do mito Marilyn Monroe

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★★★★

Durante muito tempo, “Quanto Mais Quente Melhor” (Some Like it Hot, EUA, 1959) desfrutou da fama de ser a melhor comédia de toda a história do cinema. Um título desses, obviamente, é muito fácil de ser contestado, por isso não existe o menor sentido em entrar no mérito da discussão. Pode-se afirmar, contudo, que é um dos filmes mais memoráveis de Billy Wilder, um dos cineastas mais brilhantes que já filmaram em Hollywood e dono de uma carreira repleta de obras-primas (“Se Meu Apartamento Falasse”, “Pacto de Sangue”). Isso não é pouco.

“Quanto Mais Quente Melhor” é, na verdade, muito mais do que um filme, mas um marco na história do cinema. Muita gente que sequer assistiu ao longa já ouviu falar em Sugar Kane (roqueiros sabem que é o título de uma grande canção do Sonic Youth). Estamos falando de um dos personagens mais esfuziantes de Marilyn Monroe, então no auge da carreira. Ela interpreta uma doce cantora de cabaré com um fraco por uísque, que se apaixona por uma colega de banda. Hã?!

Calma. Em 1959, homossexualismo não podia ser mostrado nas telas do cinema, uma vez que o Código Hayes – um documento, assinado por todos os grandes estúdios, que estabelecia regras daquilo que podia ou não ser mostrado nos filmes de Hollywood – ainda existia. Na verdade, a paixão de Marilyn é uma grande armação montada por Joe (Tony Curtis), um saxofonista que assistiu a um assassinato cometido por mafiosos em Chicago, junto com o baixista e amigo Jerry (Jack Lemmon).

Procurando fugir da perseguição dos mafiosos, eles arrumam emprego como músicos de uma banda em turnê para Miami. Detalhe: trata-se de um grupo de garotas, o que os obriga a se vestirem de mulheres. É por isso que Joe descobre a queda de Sugar por ricaços e tira a maquiagem para conquistá-la, fingindo ser um deles. A partir dessa premissa, Billy Wilder constrói uma comédia adorável: amalucada sem ser pastelão, ferina sem ser vulgar, com ritmo e atuações impecáveis. Filmes como “Quanto Mais Quente Melhor”, que desafiavam a censura com criatividade, foram diretamente responsáveis pela derrubada de vários tabus no cinema norte-americano.

O filme de Billy Wilder apresentou uma série de dificuldades que foram vencidas pelo realizador com coragem e inteligência. Para tornar a trama mais realista e não deixá-la com cara de comédia barata, Wilder decidiu filmar em preto-e-branco. A estratégia escondia a maquiagem pouco convincente usada pelos atores, que os deixava, claro, com pinta de travestis. O problema maior foi convencer Marilyn Monroe, então uma grande estrela cujo contrato garantia que todos os filmes dela seriam em cores, de que essa opção seria a mais correta.

Wilder foi, provavelmente, o cineasta que melhor soube filmar Marilyn. As lendárias 60 tomadas necessárias para que ela acertasse uma frase, durante as gravações, quase o levaram à loucura. “Uma boa cena com Marilyn significava extrair as falas como um dentista arranca dentes, mas nesse caso quem sentia dor era o dentista”, diria o cineasta, com seu tradicional humor cínico, algum tempo depois. Não importa: a presença de Marilyn Monroe na tela resulta magnética, perfeita, e explica inteiramente o mito criado em torno da beleza quase surreal da mulher.

Ela é a grande estrela de “Quanto Mais Quente Melhor”, criando pelo menos uma cena que já faz patê da antologia dos grandes momentos do cinema, quando tenta seduzir o “milionário” Junior (na verdade, um disfarce de Joe para conquistá-la) beijando-o num iate. Wilder jamais mostra a dupla sem roupa, mas a seqüência é tão brilhante que deixa claro, para o espectador mais atento, que o que ele está vendo é uma audaciosa metáfora para sexo casual, algo que horrorizaria os censores da época.

Enquanto Tony Curtis faz o tipo galã com perfeição e encarna Josephine com charme, é a performance de Jack Lemmon que ganha os maiores louros do filme. Daphne, a personalidade feminina que ele assume para tocar na banda, atrai os olhares de um rico comerciante de Miami, Osgood (Joe E. Brown), com quem passa a flertar nas melhores cenas do filme. O final de “Quanto Mais Quente Melhor” reúne os dois num barquinho e contém um dos diálogos mais famosos do cinema, que coroa um filme encantador.

O DVD brasileiro da edição especial, simples, possui uma versão remasterizada do filme, com excelente qualidade de som (Dolby Digital 5.1) e imagem (widescreen letterboxed). Como extra, você ganha uma entrevista de um bem-humorado Tony Curtis com o crítico Leonard Maltin (31 minutos), memórias de atores envolvidos com a produção (12 minutos) e uma galeria de stills (21 minutos). O disco duplo, com o selo Cinema Reserve, da Fox, traz também um comentário editado com entrevistas de Curtis e Lemmon, mais dois documentários (46 minutos ao todo) retrospectivos.

- Quanto Mais Quente Melhor (Some Like it Hot, EUA, 1959)
Direção: Billy Wilder
Elenco: Marilyn Monroe, Jack Lemmon, Tony Curtis, George Raft
Duração: 120 minutos

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2 comentários
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  1. Qualquer longa do genial Chaplin é melhor que “Quanto mais quente melhor” — ou quaisquer outras comédias faladas ou mudas. Não sei por que razão Chaplin é tratado por muitos intelectuais do cinema como um cineasta menor, arcaico. Será pelo fato de ele ser tão popular e querido em qualquer lugar do planeta?

  2. Uma divertidíssima comédia, com grandes atuações de Jack Lemmon e Tony Curtis, e a direção
    deste gênio do cinema Billy Wilder, e assino embaixo o que disse O Rodrigo, o diretor que melhor soube trabalhar com esta atriz Marilyn Monroe. Nunca foi uma grande atriz, sempre teve muitos problemas em sua vida pessoal, mas sua beleza era incontestável. Que saudade da época em que o cinema era cinema de verdade!

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