Quarteto Fantástico e o Surfista Prateado

26/09/2007 | Categoria: Críticas

Melhor do que o primeiro título da franquia, filme é entretenimento juvenil bobinho e sem muita lógica

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★★☆☆

Por que razão um filme precisaria contar com os serviços de três diferentes montadores e seis empresas de efeitos digitais, todos trabalhando simultaneamente? Resposta: porque qualquer projeto direcionado para adolescentes estaria fadado ao fracasso, se chegasse às telas de cinema após a temporada de férias da turma jovem. É exatamente esta a razão para “Quarteto Fantástico e o Surfista Prateado” (Fantastic Four – The Rise of the Silver Surfer, EUA, 2007) ser uma produção curta, com apenas 92 minutos de projeção, e ao mesmo tempo ter empregado uma equipe com o triplo do tamanho normal, ao astronômico custo de US$ 130 milhões. Não custa nada lembrar que, em Hollywood, o potencial de arrecadação nas bilheterias é infinitamente mais importante do que a qualidade artística do produto.

O enorme gasto da Fox para completar toda a pós-produção da segunda parte da franquia da Marvel tem explicação. Como as gravações com os atores só terminaram em dezembro de 2006, um cálculo de produção simples mostrou que apenas uma equipe inchada seria capaz de aprontar todo o filme (animação em CGI, música, efeitos sonoros e edição final) em seis meses. A pós-produção, como se sabe, é sempre a mais demorada etapa da confecção de um longa-metragem – apenas a título de comparação, a montagem de “Apocalypse Now”, de Coppola, levou mais de dois anos para ficar pronta, sem contar com a parte sonora e os efeitos especiais.

Ocorre que a série do Quarteto Fantástico, cujo público-alvo gira em torno dos 16 anos de idade (portanto, abaixo da faixa etária que curte outras franquias de super-heróis, como Homem-Aranha e X-Men), já tinha mostrado grande potencial de bilheteria na produção de estréia, em 2005. A Fox então liberou a grana para o diretor Tim Story finalizar o filme da maneira mais simples e direta, sem se preocupar muito com a progressão emocional dos personagens e essas “coisas” que somente cinéfilos conseguem perceber. Levando isso em consideração, “Quarteto Fantástico e o Surfista Prateado” representa um passo à frente, em relação ao antecessor. O enredo é linear e serve apenas como pista de testes para atores bonitos e efeitos especiais competentes garantirem diversão ligeira. Não é filme para agradar quem leva cinema a sério, mas dentro da proposta de cinema-pipoca juvenil da franquia, supera o primeiro longa da série.

Para começar, “Quarteto Fantástico e o Surfista Prateado” traz para o cinema um dos personagens mais atormentados dos quadrinhos. O Surfista Prateado é um extraterrestre que identifica novos planetas aptos a servirem de alimento para outro ser, bem maior e mais poderoso, chamado Galactus. Este último, um gigante devorador de mundos, mantém o Surfista escravizado, trabalhando para si em troca da sobrevivência da espécie a que ele pertencia originalmente. “Quarteto Fantástico 2” começa justamente no momento em que o Surfista aparece na Terra pela primeira vez, causando fenômenos naturais inexplicáveis, como a aparição de neve no deserto do Saara e o congelamento do mar do Japão, além do surgimento de crateras gigantescas em diversos pontos do globo.

Em Nova York, os quatro fantásticos são tratados como celebridades. Perseguidos sem cessar por fotógrafos, Reed (Ioan Gruffud) e Sue (Jessica Alba) querem um pouco de privacidade para poder se casar em paz. Ele, em particular, enfrenta o desafio de provar que pode deixar o trabalho em segundo plano, mesmo que por poucos dias, para se doar 100% à namorada. Por sua vez, Ben (Michael Chiklis) agora tem uma garota, enquanto Johnny (Chris Evans) é o único do grupo a curtir a fama, embora esteja começando a sentir falta de uma companhia mais estável. A pausa para o casamento, porém, fica seriamente comprometida quando os militares norte-americanos, preocupados com a ameaça desconhecida, decidem que precisam da ajuda dos quatro para descobrir mais sobre a força que está causando as anomalias globais.

Um dos grandes acertos dos roteiristas Don Payne e Mark Frost, claramente inspirados na série do Homem-Aranha, é a utilização de humor em seqüências que flagram os protagonistas utilizando os poderes especiais em situações cotidianas, para aliviar os incômodos de uma viagem de avião, por exemplo. Infelizmente, como a preocupação com lógica não é uma das qualidades da série, a dupla investe energia demais nestas cenas de alívio cômico e cobre a trama de maneira rasa, fazendo os personagens pularem de um problema para o próximo sem tentar se concentrar nos detalhes que fariam o filme subir um nível – jamais descobrimos o motivo do Surfista para escavar as crateras, ou recebemos mais dados sobre a curiosa simbiose entre ele e a prancha que usa. Outra decepção é a aparição tardia de Galactus, que não se parece em nada com o vilão amedrontador dos quadrinhos originais.

Além disso, o diretor Tim Story perde a chance de explorar o potencial dramático do novo personagem. Quando descobrimos que ele é um ser angustiado por causar apenas dor e sofrimento, ficamos interessados em saber mais sobre ele, mas este prazer é negado ao espectador. Além disso, a forma como o Surfista foi feito em CGI o prejudica, pois a ausência de expressões e olhares humanos o deixa com aparência fria e sem emoções, quase cruel. Por outro lado, os efeitos especiais funcionam bem e a montagem firme, ao contrário do que se poderia imaginar de um projeto com três editores, é um ponto forte, associando drama às cenas de ação e comédia aos problemas pessoais dos personagens (problemas um tanto simplistas, é verdade). E se o clímax é curto e sem densidade dramática, e particularmente decepcionante para quem esperava pela aparição triunfante de Galactus, pelo menos garante um fecho coerente para a trama. No todo, uma aventura juvenil que dá para o gasto.

O DVD da Fox é eficiente. A qualidade de imagem (widescreen anamórfica) e áudio (Dolby Digital 5.1) é boa. Há um comentário em áudio com o diretor, dois documentários de bastidores e galeria com cenas cortadas.

– Quarteto Fantástico e o Surfista Prateado (Fantastic Four – The Rise of the Silver Surfer, EUA, 2007)
Direção: Tim Story
Elenco: Ioan Gruffud, Jessica Alba, Chris Evans, Michael Chiklis
Duração: 92 minutos

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