Quarteto Fantástico

11/06/2007 | Categoria: Críticas

Filme segue fórmula previamente testada pela Marvel e só funciona para público juvenil

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★☆☆☆

O que o público-alvo de uma superprodução sobre heróis de histórias em quadrinhos espera de um longa-metragem? Resposta: uma trama simples, efeitos especiais de ponta, boas seqüências de ação e um vilão com tanto ou mais carisma do que os mocinhos. Nem todos esses ingredientes (especialmente o último) estão em “Quarteto Fantástico” (Fantastic Four, EUA, 2005), maior aposta da Marvel no segmento em 2005. Embora ofuscado pela reaparição do Batman – um dos heróis mais conhecidos e carismáticos das HQs – nos cinemas, o filme de Tim Story mira em um público-alvo mais jovem e menos preocupado com os elementos sombrios e realistas que recheiam a trama do homem-morcego. E, de certa forma, acerta.

A aposta da Marvel para “Quarteto Fantástico”, uma série popular mas não muito, era um filme de médio porte para uma platéia adolescente. Sem astros no elenco, o pouco conhecido diretor Tim Story (que fez o péssimo “Táxi”) pôde se concentrar nos efeitos especiais. Em termos de trama, ele aposta na segurança e repete a fórmula previamente testada –com sucesso – dos filmes da recente safra da companhia. O longa-metragem conta em paralelo o surgimento dos heróis e do vilão; concentra toda a primeira metade na descoberta dos superpoderes, das vantagens e desvantagens trazidas por eles; coloca o legendário desenhista Stan Lee, criador dos personagens, em uma ponta (como carteiro); e põe heróis e vilão em rota de colisão para uma única e longa seqüência no final do filme. Foi assim em “Homem-Aranha”, em “Hulk” e em “X-Men”. Funciona? Sim. Sem brilho, mas funciona.

Nesse caso, os heróis são astronautas atingidos por uma tempestade solar durante uma temporada numa estação especial. Os roteiristas Mark Frost e Michael France fazem um bom trabalho ao alterar a origem do quarteto, em relação aos quadrinhos. Aqui, eles não são astronautas comuns. Sequer são amigos; na verdade, o projeto é de dois cientistas espaciais interessados em estudar os efeitos das tempestades solares no DNA humano. Para custear a missão, contatam um milionário, Victor Von Doom (Julian McMahon), capaz de pagar por ela em troca de lucro com os resultados das pesquisas. Von Doom, homem egocêntrico, vai junto, levando a namorada Susan Storm (Jessica Alba) e o irmão dela, Johnny (Chris Evans). Susan é ex-namorada de Reed Richard (Ioan Gruffudd), que forma a dupla de cientistas com o piloto Ben Grimm (Michael Chiklis).

No espaço, os cinco são afetados pela violenta tempestade solar, que provoca alterações diferentes no DNA de cada um. Eles desenvolvem habilidades especiais. Reed vira um homem-borracha, Susan pode ficar invisível e criar campos de força, Grimm torna-se um homem de rocha pura e Johnny ganha o poder de atear fogo em si mesmo sem se ferir. Do outro lado, Von Doom, aparentemente ileso, aos poucos tem a pele transformada em aço e torna-se capaz de armazenar enormes quantidades de energia elétrica. O filme mostra os cinco tentando lidar com as novas habilidades e realizando estudos para controlá-las, embora Von Doom esteja mesmo interessado naquilo que todo vilão dos quadrinhos deseja: dominar o mundo.

O filme que inspirou “Quarteto Fantástico”, não resta dúvida, é o primeiro “Homem-Aranha”. O tom juvenil (trazido principalmente pelo personagem Johnny, um praticante de esportes radicais que gosta de fazer piadas sem a mínima graça) e a longa narrativa paralela mostrando heróis e vilões em desenvolvimento são fatores adaptados do filme de Sam Raimi. Mas existe mais: o melhor momento da produção está no meio, e não no fim, e acontece durante a primeira aparição dos novos heróis, em plena ponte do Brooklyn, em Nova York (cenário familiar aos fãs do aracnídeo, não?). Trata-se de uma confusão, incluindo um espetacular acidente automobilístico, seguido de explosões e de um salvamento. Desajeitados e sem dominar completamente as habilidades recém-adquiridas, os heróis são obrigados a agir aos esbarrões para evitar mortes.

A seqüência é boa e, melhor ainda, acontece em plena luz do dia, o que dá a chance de perceber a excelência dos efeitos especiais. Em uma escala de 0 a 10, os efeitos ficariam em um 7. A parte computadorizada dos efeitos (a mulher invisível e o Tocha Humana) são claramente personagens digitais, um CGI razoável, mas a maquiagem do Coisa, o homem-rocha que rouba todas as cenas em que aparece, ficou perfeita. Melancólico, agressivo e sem papas na língua, o Coisa é uma espécie de Hellboy de pedra, um homem solitário em desconta sua frustração no mundo. Ele possui a mesma apetite descomunal por panquecas, mas não custa lembrar que o personagem dos quadrinhos é bem anterior ao demônio do bem de Mike Mignola.

Da ótima cena na ponte, o filme apenas se arrasta, prejudicado por um vilão pouco ameaçador, simplista e sem carisma, que nunca parece ameaçar de verdade nossos heróis. Isso, contudo, não é a pior coisa do filme. O que realmente estraga “Quarteto Fantástico” é o merchandising mais explícito feito em um grande produto de Hollywood nos últimos 20 ou 30 anos. Você nem precisa prestar muita atenção: a discussão entre o Coisa e o Tocha Humana, na saída da competição de motocross, é um verdadeiro desfile de outdoors de refrigerantes, marcas de óculos esportivos e supermercados, isso sem falar de um equivocado plano fechado feito nos óculos de Johnny apenas para vender o modelito. Merchandising obsceno irrita de verdade, e deveria ser proibido por lei, mas paciência. O jogo de Hollywood é sobretudo financeiro, e a citada cena faz questão de nos lembrar disso da pior maneira possível.

O DVD duplo da Fox é repleto de extras. Além do filme (com excelente imagem wide anamórfica e áudio Dolby Digital 5.1), há um documentário de 97 minutos sobre os bastidores, quase meia hora de cenas cortadas, dois vídeos, um cine-jornal cobrindo a turnê mundial de lançamento do filme, dois featurettes curtinhos sobre os efeitos especiais, comentário em áudio com Gruffud, Alba e Chiklis e os testes em vídeo dos atores. Tudo com legendas em português. Se preferir, leve apenas o disco simples, dispense os extras e fique só com o filme. Há ainda a edição estendida, que é simples e sem extras, mas tem 20 minutos a mais de filme.

– Quarteto Fantástico (Fantastic Four, EUA/Alemanha, 2005)
Direção: Tim Story
Elenco: Ioan Gruffudd, Jessica Alba, Michael Chiklis, Chris Evans
Duração: 109 minutos

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