Quarto 666

29/09/2008 | Categoria: Críticas

Cineastas de diferentes nacionalidades discutem o futuro do cinema em documentário instigante de Wim Wenders

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★★½☆

A idéia é de uma simplicidade espartana. Durante o Festival de Cannes de 1982, o alemão Wim Wenders decidiu aproveitar a presença de dezenas de grandes cineastas na mesma cidade, ao mesmo tempo, para abrir um debate instigante sobre o futuro do cinema. Ele escolheu 16 diretores de origens e estilos heterogêneos, levou-os para um simpático quarto de hotel e pediu que cada um desse um depoimento pessoal sobre o tema. Cada cineasta tinha direito a falar o que quisesse durante 11 minutos (a duração de um rolo da câmera 16mm que Wenders estava utilizando). O resultado é, no mínimo, bastante instigante para qualquer pessoa que encare o cinema como algo mais do que mero passatempo de final de semana.

As regras estabelecidas por Wenders incluíam, também, a necessidade de que cada diretor ouvido no filme operasse (ou melhor, ligasse e desligasse) sozinho o equipamento. Ele mesmo não estava presente no quarto durante os depoimentos. A exceção é o último, do cineasta turco Yilmaz Goney, com quem o alemão havia conversado no dia anterior, e que tinha sido deportado da França logo depois. Como ele não podia falar pessoal,ente, Wenders aparece na frente da câmera, gruda uma foto de Goney na pequena TV que compõe o cenário e repete aquilo que o turco lhe havia dito algumas horas antes.

É interessante observar o comportamento de cada cineasta. Jean-Luc Godard, que abre os depoimentos (logo depois de uma curta introdução), acende um charuto. Michelangelo Antonioni começa a falar de modo sossegado, mas logo se agita e passa a caminhar pelo quarto, enquanto tenta articular uma resposta. Werner Herzog, sempre iconoclasta, tira os sapatos (“não posso responder a uma pergunta dessas usando sapatos”). Alguns cineastas dão respostas diretas. Outros são alegóricos. Alguns usam todo o tempo disponível, outros preferem falar uma única frase, levantar e ir embora. As opiniões são diferentes, muitas vezes antagônicas. Cada entrevistado leva o debate para uma direção diferente.

Um dos aspectos mais bacanas da proposta de Wenders é justamente a liberdade formal para que cada cineasta interprete e reflita sobre o assunto do ângulo que quiser. Assim, Steven Spielberg passa longos minutos discutindo sobre dinheiro – orçamento, inflação, preço dos ingressos – enquanto Antonioni louva as novas tecnologias e escancara seu interesse pessoal pelo vídeo. Monte Hellman (“Corrida Sem Fim”) é um otimista que vislumbra um cinema mais forte no futuro; Paul Morrisey vai na contramão e assegura que a TV vai matar o cinema em algum ponto de um futuro a longo prazo. Alguns cineastas discutem linguagem cinematográfica, outros preferem debater as diferenças na tecnologia de projeção, e há quem discuta aspectos de produção.

Curiosamente, um dos tópicos mais abordados é a comparação entre as linguagens do cinema e da TV, um debate que nunca se esgotou, e que continua na ordem do dia mesmo após três décadas do lançamento do documentário. Já naquela época, não se chega a nenhuma conclusão – alguns diretores não vêem qualquer diferença entre as duas mídias, enquanto outros acham que elas são incompatíveis. Godard, sempre elíptico e inteligente, dá talvez a melhor (e mais irônica) intervenção: “a TV é como uma pequena agência de correio”. Pelo caráter aberto e pela ausência de julgamentos em relação às entrevistas, “Quarto 666” acaba se mostrando um trabalho indispensável para qualquer um que pense o cinema, e não apenas veja filmes.

O DVD nacional foi lançado pela Europa Filmes, e não contém nenhum extra. O enquadramento original (4:3, fullscreen) foi preservado, e o áudio (Dolby Digital 2.0), assim com a imagem, tem qualidade sofrível. O original, porém, já era assim. O que interessa, aqui, não é a qualidade técnica, mas o debate.

– Quarto 666 (Chambre 666, Alemanha, 1982)
Direção: Wim Wenders
Documentário
Duração 46 minutos

| Mais


Deixar comentário