Quarto do Pânico, O

01/01/2004 | Categoria: Críticas

David Fincher ameniza críticas sociais e realiza suspense claustrofóbico com roteiro inteligente e referências a Hitchcock

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★★½☆

Depois do impacto do atordoante “Clube da Luta” (1999), uma pergunta ficou no ar: qual seria a próxima cacetada cinematográfica do cineasta David Fincher, o sujeito que já havia dado ao mundo duas obras-primas do policial moderno, “Seven” (1995) e “Vidas em Jogo” (1997)? A resposta chama-se “O Quarto do Pânico” (Panic Room, EUA, 2002) e é um suspense excelente, que confirma a maior qualidade de Fincher – o talento para tecer enredos tensos, sufocantes, e trabalhá-los com uso da mais moderna tecnologia cinematográfica disponível.

“O Quarto do Pânico” marca um registro diferente no repertório do diretor, embora compartilhe de algumas características já presentes na obra dele. É um filme claramente mainstream, bem mais convencional do que os trabalhos anteriores do cineasta. Por ser mais acessível, os números alcançados nos cinemas dos EUA foram favoráveis. Lá, o filme bateu a marca de US$ 97 milhões, depois de duas semanas liderando as bilheterias. O resultado é importante para garantir a credibilidade de Fincher diante dos executivos de Hollywood, já que o fracasso financeiro de “Clube da Luta” havia deixado sua carreira por um fio. Por outro lado, o fato do trabalho ser um thriller tradicional pode decepcionar quem esperava outra polêmica.

Parte dos méritos da obra está na escolha do roteiro, algo que Fincher sabe fazer bem. Dessa vez, no entanto, ele não procurou uma trama intrincada (“Seven”), não pregou peças no espectador (“Vidas em Jogo”) nem optou por críticas sociais explícitas (“Clube da Luta”). Uma característica essencial em “O Quarto do Pânico” é a economia narrativa. Fincher optou por deixar de lado a grande quantidade de elementos cênicos que sempre usou para concentrar-se numa narração de simplicidade franciscana, com poucos personagens e praticamente só dois cenários. A definição usada pelo diretor para explicar o projeto aos executivos da Sony cabe como uma luva: “O Quarto do Pânico” seria um cruzamento de “Janela Indiscreta”, de Alfred Hitchcock, com o sombrio “Sob o Domínio do Mal”, de Sam Peckinpah. Certíssimo. Os três são filmes claustrofóbicos, de ambientes fechados.

O enredo pode ser descrito em poucas linhas. Recém-divorciada de um rico executivo, Meg Altman (Jodie Foster) decide mudar-se para Manhattan, em Nova Iorque, com a filha adolescente, Sarah (Kristen Stewart, ótima estreante). Elas vão viver numa mansão cujo antigo proprietário era obcecado com segurança. Lá, ambas descobrem o tal panic room, um aposento blindado, toido revestido de aço, com monitores de TV capazes de vigiar a casa toda e mantimentos. Logo na primeira noite, as duas são obrigadas a usar o quarto para proteger-se de três ladrões (interpretados por Forest Whitaker, Jared Leto e Dwight Yoakam) que invadem a casa. Aquilo que os bandidos querem, contudo, está escondido justamente no aposento.

O maior acerto do filme está no ótimo texto de David Koepp, que escreveu “Homem-Aranha” e também atua, nesse caso, como produtor. Ao contrário de 100% das tramas de suspense atuais, essa aqui não perde tempo demarcando características dos personagens antes de partir para a ação. Os detalhes que humanizam mãe, filha e os três bandidos são apresentados, em diálogos inteligentes e na montagem meticulosa, já com a ação em curso. O suspense é gerado por uma espécie de quebra-cabeças, um jogo de estratégia que passa a ser travado entre os personagens de Jodie Foster e Forest Whitaker, o mais cerebral dos assaltantes. Um está sempre buscando antecipar e neutralizar as artimanhas do outro.

A grande chave para compreender “O Quarto do Pânico” é a influência de Hitchcock, um dos diretores favoritos de Fincher. A trama está repleta de referências à obra do mestre do suspense. Isso ocorre desde o começo, aliás; a abertura, onde os créditos flutuam, sinistros, sobre fantasmagóricos planos de arranha-céus e prédios decadentes de Nova Iorque, remete às primeiras imagens de “Psicose” e aos trabalhos de Saul Bass, o designer que desenhava as aberturas de Hitchcock. A trilha sonora, criada por Howard Shore, também emula grandes clássicos de Bernard Herrmann, o maestro que sonorizava os filmes de Hitch.

Além disso, a montagem milimetricamente calculada é uma homenagem explícita aos melhores filmes do diretor inglês, em especial à obra-prima “Janela Indiscreta”, que Fincher viu mais de 60 (!) vezes. Em “O Quarto do Pânico”, todas as seqüências de planos, close ups e cortes contam pequenas histórias, sugerem novos desdobramentos e dispensam do roteiro a exigência de mais diálogos ou de uma narração em off. Prestando bastante atenção ao filme, é possível antever muitos elementos que terão importância futura na trama, apenas observando a movimentação da câmera ou a justaposição de planos simples. Em determinado momento, por exemplo, vemos Meg Altman mandando a filha parar de tomar Coca-cola; o diálogo pode parecer sem sentido, mas vai se mostrar crucial algum tempo mais tarde. Noutro instante, o foco da câmera recai sobre um telefone celular que vai, depois, protagonizar um dos momentos mais tensos do filme.

Até mesmo quando usa a tecnologia, uma marca registrada de seu trabalho, Fincher reverencia o mestre. Há uma seqüência espetacular que ilustra isso; é o momento em que os ladrões entram no casarão. Em cinco longos minutos, a câmera percorre toda a casa: sai do despertador de Meg, no último piso, desce até o térreo e acompanha a odisséia de Burnham (Whitaker), que percorre os quatro andares em busca de uma brecha que torne possível o arrombamento. Para isso, a câmera passa pelo buraco de uma fechadura, atravessa paredes e grades e até entra por dentro da alça de uma cafeteira.

A seqüência exigiu nove noites de gravações e um ano inteiro de retoques digitais. Ela remete à experiência fílmica da montagem sem cortes, usada por Hitchcock em “Festim Diabólico”. Não se trata de demonstração gratuita de virtuosismo; a cena serve para demarcar a complicada geografia do casarão, evitando assim que o espectador se perca mais adiante. A tomada ainda ressalta as grandes distâncias entre os aposentos. A técnica usada mistura filmagens reais, cortes ocultos e simulações de movimentos em computação gráfica. Ela é chamada fotogrametria e foi utilizada com sucesso para dar movimento às viagens aéreas do “Homem-Aranha”.

Se dá show em alguns momentos, em outros David Fincher ainda cede à tentação de usar a mesma técnica sofisticada para fazer malabarismos dispensáveis (quando a câmera adentra o mecanismo interno de uma lanterna, por exemplo). Mais ou menos na metade do filme, o cineasta esquece os acessos virtuosísticos e se concentra na trama, o que faz muito bem à obra. Mesmo com tudo isso, é um bom sinal saber que o diretor começa a se desvencilhar de um certo barroquismo que teimava em aparecer nos seus filmes. A força de “O Quarto do Pânico” está mesmo na narrativa. Claro que há pequenos furos no texto, sim, mas para percebê-los é preciso muita atenção. Eles não interferem na fluência do trabalho nem na qualidade final do thriller.

Outro aspecto interessante do roteiro está na discussão levantada sobre a questão da violência nas grandes metrópoles. O fenômeno dos chamados quartos do pânico, que pode parecer bizarro ou irreal para o espectador, está mesmo se tornando comum entre os ricos norte-americanos. Esses aposentos blindados são uma espécie de versão doméstica e mais modesta das salas de segurança máxima que existem em sedes de governos, como o bunker subterrâneo da Casa Branca ou da Downing Street, em Londres. Já existe toda uma indústria dos panic rooms nos EUA – e Fincher mais uma vez chega na frente dos colegas e joga luz sobre um fenômeno social interessantíssimo.

Mas a tecnologia também se manifesta atrás das câmeras, no trabalho de bastidores. Para “O Quarto do Pânico”, o supervisor de produção, Ron Frankel, inventou um sistema de storyboard digital. A nova técnica possibilitou a criação, ainda no estágio de pré-produção, de um modelo computadorizado em três dimensões do cenário da mansão. Através dessa casa virtual, Fincher pôde decidir toda a movimentação da câmera e os ângulos que queria utilizar nas tomadas antes de produzi-las. Isso evitou que, na hora da filmagem propriamente dita, houvesse cabos ou plataformas que impedissem certos movimentos do equipamento. Os técnicos produziram uma hora e meia dessas animações. Esse método reduziu o trabalho nos sets de filmagem à captação das imagens previamente definidas.

A inovação tecnológica poupou tempo e dinheiro, mas também causou uma baixa importante. O diretor de fotografia Darius Khondji, que trabalha com Fincher desde “Seven”, irritou-se com o fato de não poder opinar no posicionamento das câmeras, já que tudo havia sido pré-definido, e preferiu pular fora do projeto, no meio das gravações. Sem problemas: Conrad Hall Jr. (filho do fotógrafo de “Beleza Americana”) assumiu o posto e terminou o trabalho sem grandes sobressaltos. “O Quarto do Pânico” não vai mudar sua vida, mas ainda é um ótimo filme de suspense.

No DVD brasileiro, o espectador vai encontrar uma diferença essencial em relação aos demais trabalhos do diretor. “Seven” e “Clube da Luta” saíram em discos duplos, repletos dedocumentários. Já “O Quarto do Pânico” está na coleção Superbit da Columbia, que tenta entregar o filme com qualidade de som e imagem superior. Para isso, a distribuidora retirou os extras e incluiu uma trilha de áudio em DTS, o formato mais avançado que existe para DVDs atualmente. Um banho de tecnologia.

– O Quarto do Pânico (Panic Room, EUA, 2002)
Direção: David Fincher
Elenco: Jodie Foster, Forest Whitaker, Jared Leto, Dwight Yoakam
Duração: 112 minutos

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