Quase Famosos

07/10/2003 | Categoria: Críticas

Sexo, drogas e rock’n’roll sob a ótica de um adolescente tímido = melhor filme de Cameron Crowe

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★★★☆

Cameron Crowe era um garoto de 15 anos que escrevia num fanzine musical quando recebeu um telefonema dos editores da famosa revista Rolling Stone. Haviam gostado dos textos dele e o queriam na equipe. Aos 18 anos, o sujeito já era editor da maior revista de rock do mundo. Anos depois, Cameron perdeu a paciência com a suavização da linha editorial da publicação e pulou para o cinema. Primeiro como roteirista, no ótimo “Picardias Estudantis”. Depois como diretor, quando dirigiu Tom Cruise em “Jerry Maguire”. Com “Quase Famosos”, Cameron presta contas ao passado. O filme é uma cine(auto)biografia confessa. E é um encanto.

Ao contrário das obras autobiográficas tradicionais, “Quase Famosos” não procura exorcizar os demônios do diretor. A sensação de nostalgia que permeia todo o filme é inevitável, mas as lembranças da época em que era uma espécie de gênio-mirim do rock’n’roll nunca são pesadas. Cameron andava na contramão da década de 70. Tinha uma mãe repressora, mas nunca foi um adolescente revoltado: não encharcava a cara de cerveja, não freqüentava orgias sexuais nem era viciado em drogas. Por isso, fez um filme leve. “Quase Famosos” é uma celebração ao espírito libertário do velho rock’n’roll, e uma crítica velada ao show business norte-americano, responsável pelos pastiches que entopem as paradas de sucessos do estilo. Mesmo na hora das críticas, o filme é suave. Não há nenhum tom de amargura embutido no roteiro, vencedor do Oscar de 2001.

Embora seja um projeto nitidamente pessoal (e pequeno), Crowe transformou seu filme numa obra adorada pelos americanos ao mostrar capacidade de contornar imagens agressivas ao abordar um assunto polêmico. Todo mundo sabe: rock’n’roll, na década de 70, era sinônimo de excessos. O Led Zeppelin (grupo predileto do gênio-mirim, que virou amigo pessoal do guitarrista Jimmy Page e escreveu o texto de apresentação do álbum duplo ao vivo “The Song Remains The Same”) vivia encharcado de heroína e o Sex Pistols quebrava tudoo que via pela frente. Isso nunca é mostrado – apenas sugerido, e olhe lá. O submundo das groupies (garotas que viviam pelos bastidores, atrás dos rock stars), tema importante no roteiro, também é suavizado. Mas a habilidade de Cameron Crowe é tanta que é impossível sair do cinema sem um sorriso no rosto.

Na verdade, os meandros da vida roqueira na década de 70 são o pano de fundo da verdadeira história de “Quase Famosos”: o processo doloroso da passagem da adolescência à idade adulta de um garoto solitário, filho de mãe solteira e superprotetora. É impossível não perceber o carinho que o diretor tem para com a mãe (embora ele diga que foi um pesadelo dirigir o filme com a genitora andando pelos bastidores das filmagens).

O Crowe adolescente, chamado no filme de William Miller, é hábil o bastante para ir libertando-se aos poucos da influência materna sem provocar uma cisão familiar. Mostra a mesma habilidade para ir convencendo os editores da Rolling Stone a investirem em sua carreira, apesar da idade mirrada. É o mesmo talento que o diretor usa para ir convertendo o espectador ao filme, apesar de escapulir pela tangente a cada vez que um momento complicado se aproxima. Atenção, pais: “Quase Famosos” não tem sexo nem drogas. Mas tem bastante rock’n’roll, felizmente.

A trilha sonora é um dos mimos do filme. Há cinco canções do Led Zeppelin, banda que inspirou a maior parte dos acontecimentos vividos pelo fictício quarteto Stillwater (o grupo é uma mistura de Led, Allman Brothers, Lynyrd Skynyrd e The Who). Ótimas pérolas escondidas de Elton John, Neil Young, Free, Humble Pie, Black Sabbath e mais um monte de grupos de primeira. De quebra, algumas canções feitas por Peter Frampton (líder do Humble Pie, autor do álbum ao vivo mais vendido da história do rock e consultor do roteiro) especialmente para o filme são executadas pelo Stillwater.

Por fim, Crowe se superou na direção do elenco. O estreante Patrick Fugit foi escolhido após um teste com 200 adolescentes e consegue uma perfomance brilhante, sem tirar um sorriso de franca admiração do rosto. Billy Crudup, no papel do guitarrista Russell Hammond (inspirado em Jimmy Page), é uma ótima surpresa – ele aprendeu a tocar guitarra especialmente para o papel e brilha em todas as cenas. Frances McDormand está perfeita na pele da mamãe-durona do garoto William Miller. Kate Hudson, que faz a groupie Penny Lane, traz glamour ao filme e é outra boa surpresa. Até o limitado mas hilariante Jason Lee (“Procura-se Amy”) tem boas cenas, numa emulação quase impossível de Robert Plant como o vocalista do Stillwater. “Quase Famosos” não é uma lição de vida, mas filme tão ensolarado e otimista como esse é difícil de aparecer.

Se você tem DVD em casa, “Quase Famosos” é um item obrigatório para sua coleção. O disco é duplo e tem uma série de extras. No disco 1, além das tradicionais notas de produção e biografias, ganhamos três cenas deletadas com 30 minutos – o destaque vai para um trecho de 16 minutos de um show da Stillwater, a banda formada pelos atores do filme, que tocam quatro músicas, em Cleveland, num espetáculo de verdade. No disco 2, o filmaço ganha a versão do diretor, com 36 minutos a mais (diferentes das cenas que estão no primeiro DVD).

Há, ainda, um interessante comentário em áudio do cineasta junto com a mãe e dois minutos de entrevista com o verdadeiro mentor de Crowe, Lester Bangs (no filme, interpretado pelo ótimo Phillip Seymour Hoffman), além de ensaios com os atores. A Columbia, porém, cometeu alguns deslizes: cortou as introduções em áudio gravadas por Crowe, limou do pacote o terceiro disco, com seis faixas em áudio do Stillwater, e deixou de botar legendas nos extras. Mesmo assim, um presente para amantes de cinema e música dos anos 1970.

– Quase Famosos (Almoust Famous, EUA, 2000)
Direção: Cameron Crowe
Elenco: Billy Crudup, Frances McDormand, Kate Hudson, Patrick Fugit
Duração: 118 minutos

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