Quatro Casamentos e Um Funeral

26/10/2005 | Categoria: Críticas

Produção modesta da Inglaterra mescla humor inglês e comédia romântica em ótimo programa para ver a dois

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★★½☆

Vez por outra, os cinéfilos de todo o mundo transformam filmes de produção minúscula em grandes sucessos internacionais, na base do boca-a-boca. Uma das obras que mais se beneficiou desse sistema na década de 1990 foi a comédia inglesa “Quatro Casamentos e Um Funeral” (Four Weddings and a Funeral, Inglaterra, 1994). A produção era tão pobre que os atores precisar levar para as filmagens as roupas que deles mesmos para filmar as cenas de casamento, já que o orçamento não permitia que dezenas de ternos e vestidos de luxo fossem adquiridos. Essa pobreza toda não impediu o filme de virar uma coqueluche em todo o planeta.

O fenômeno foi tão forte que gerou um novo subgênero de comédia na Inglaterra. O ferino humor típico do país europeu sempre foi associado a sátiras políticas e/ou cínicos comentários sociais, mas encaixou-se perfeitamente bem num gênero que Hollywood sempre monopolizou: a comédia romântica leve. “Quatro Casamentos e Um Funeral” fez US$ 260 milhões, concorreu ao Oscar de melhor filme e abriu caminho para o crescimento da produtora Working Title, que se especializou em produzir longas-metragens de atmosfera semelhante. Não é exagero dizer que o filme gerou um mercado bastante lucrativo para o cinema inglês.

O segredo de tanto sucesso está na simplicidade com que um tema batidíssimo – os desencontros de um homem e uma mulher claramente apaixonados, mas pertencentes a culturas bastante diferentes – foi retrabalhado pelo roteirista Richard Curtis. O nome de Curtis é fundamental para entender a maneira como “Quatro Casamentos e Um Funeral” se transformou em uma grife, pois foi ele quem soube capitalizar o sucesso, especializando-se em escrever histórias românticas com o subtexto da diferença cultural (“Um Lugar Chamado Notting Hill”) e, depois, virando um elogiado diretor (“Simplesmente Amor”).

O filme foi concebido como uma obra de cinco atos – os casamentos e o funeral do título – e um breve, e aparentemente dispensável, interlúdio romântico. Os protagonistas são Charlie (Hugh Grant) e Carrie (Andie MacDowell). Ele é um charmoso rapaz inglês que não quer saber de compromissos sérios. Ela é uma norte-americana de passagem pela Grã-Bretanha. Os dois se encontram durante o primeiro casamento. Há uma empatia imediata. Eles ficam juntos por uma noite, e cada um vai para o seu lado no dia seguinte. Nos outros quatro eventos, vão continuar se encontrando, e dessa forma desenvolvendo uma relação cheia de altos e baixos.

Um dos grandes acertos do filme é o humor leve, mas com uma pitada ácida, como só os ingleses seriam capazes de tramar. O discurso de Charlie durante a festa do primeiro casamento é um ótimo exemplo; os diálogos estão cheio deles. Tudo bem, há situações que soam forçadas e artificiais (em outro casamento, o rapaz é colocado em uma mesa junto com cinco mulheres com quem já teve casos, o que cria um tremendo embaraço para ele). Dentro do contexto do filme, no entanto, essas situações funcionam a contento.

Há dois artifícios utilizados pelo roteirista para fazer com que o desenvolvimento dramático seja correto e tenha credibilidade. O primeiro está na seqüência que não se passa nem em um casamento e nem no funeral. É o único momento em que o filme se afasta da narrativa proposta pelo título; é também o momento em que Charlie se descobre arrasadoramente apaixonado por Carrie. Trata-se da melhor cena do filme, e uma das mais engraçadas; ela demarca bem a diferença cultural entre os dois, especialmente no que diz respeito à maneira como eles encaram e vivenciam a experiência sexual.

O outro truque é a cena do funeral. Embora alguns possam acusar a cena de gratuita e desnecessária, apenas um mero veículo para que um belíssimo poema (“Funeral Blues, de W.H. Alden) seja recitado, não é assim. A seqüência, devidamente vitaminada pelo poema, coloca em contexto, para Charlie e para a platéia, porque é tão importante viver ao lado de alguém, ter um amor, uma cara-metade. Essa é, afinal, a teoria defendida pelo filme

Há de se ressaltar, ainda, uma certa fragilidade na direção, que em alguns momentos demonstra não saber dosar com perfeição o timing cômico de certos diálogos. Além disso, o tom solene e melodramático da cena do funeral destoa completamente do humor leve que domina os demais atos do filme. À parte esses pequenos problemas, contudo, “Quatro Casamentos e Um Funeral” se mostra uma produção agradável e simpática, o tipo de programa perfeito para fazer a dois.

O lançamento em DVD no Brasil é de responsabilidade da Fox. Só não se engane pela presença do rótulo “Edição especial” na capa, pois o disco contém apenas o filme, sem nenhum extra. Pelo menos o aspecto original (wide 1.85:1) e o som (Dolby Digital 5.1) estão corretos.

– Quatro Casamentos e Um Funeral (Four weddings and a funeral, Inglaterra, 1994)
Direção: Mike Newell
Elenco: Hugh Grant, Andie MacDowell, Charlotte Coleman, Kristin Scott Thomas
Duração: 117 minutos

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