Quatro Pistoleiros do Apocalipse, Os

09/05/2006 | Categoria: Críticas

Faroeste espaguete assinado por Lucio Fulci tem fartas doses de violência e interesse limitado

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★★☆☆

Antes de ganhar fama como um dos seguidores mais sangrentos de Dario Argento na escola italiana do horror de baixo orçamento, na década de 1970, o cineasta Lucio Fulci se aventurou pelo gênero mais popular nos cinemas do país de origem: o faroeste espaguete. “Os Quatro Pistoleiros do Apocalipse” (I Quattro dell’apocalisse, Itália, 1975) é o mais famoso lançamento da época, em parte devido aos excessos de violência crua filmados pelo diretor, que deram ao filme o rótulo de mais violento dentre os 600 longas-metragens produzidos pela Itália dentro do gênero. Irregular e ainda assim interessante, o filme está disponível em DVD no Brasil e merece uma conferida atenta.

O título do filme sugere uma narrativa com toques bíblicos, e eles existem, embora sejam bem mais obscuros do que o esperado. Na verdade, os quatro protagonistas não são pistoleiros (um adjetivo que não está no título original, é verdade), mas um jogador profissional, uma prostituta grávida, um escravo negro com problemas mentais e um alcoólatra. Presos dentro de uma delegacia imunda por razões diferente,s os quatro são os únicos sobreviventes de um massacre que mata todos os habitantes de uma pequena cidade devassa no Utah, em 1873. A noite de assassinato pode ser lida como uma referência a Sodoma e Gomorra, aldeias habitadas por pecadores e destruídas pela ira de Deus, no Velho Testamento.

Stubby (Fabio Testi), Bunny (Lynne Frederick), Clem (Michael Pollard) e Bud (Harry Baird) são obrigados, após a noite sangrenta, a enfrentar um deserto poeirento e tentar sobreviver, chegando ao povoado mais próximo. Com eles, apenas uma carroça velha e alguns cavalos cansados. O caminho, porém, não será fácil. Além de enfrentar a sede e a fome, eles terão também que encarar o misterioso e violento pistoleiro Chaco (Tomas Milian), que apanha uma não desejada carona após alguns dias. A jornada inclui algumas seqüências ensandecidas que somente uma produção européia de baixo orçamento teria coragem de inserir na trama. É o caso da bizarra seqüência em que Bunny masca peiote, um poderoso alucinógeno indígena, alegremente. Quantos filmes você já viu mostram uma mulher grávida tomando drogas?

Embora ainda estivesse desenvolvendo seu estilo sanguinolento, Fulci capricha nas seqüências mais fortes, utilizando fartamente efeitos de maquiagem e próteses de borracha para filmar a violência de modo gráfico, com muito sangue. Em determinado instante, por exemplo, Chaco tortura um policial apanhado após um tiroteio, arrancando com a faca um naco do lombo do pobre sujeito, e matando-o depois de modo original: enfiando a estrela de xerife diretamente no coração do homem. Fãs do estilo de Fulci vão se deleitar, ainda, com as insinuações quase explícitas de canibalismo.

Sob a superfície ensangüentada, porém, “Os Quatro Pistoleiros do Apocalipse” é um faroeste conservador, que adota quatro anti-heróis como protagonistas mas não tem pudor de transformá-los em pessoas gentis e sinceras no processo. Além disso, é um filme de ritmo irregular, cheio de longas seqüências musicais (curiosamente, Fulci preferiu utilizar canções folk na trilha sonora, algo incomum no gênero).

O roteiro, na melhor (ou pior) tradição do spaghetti western, possui vários furos e desperdiça boas oportunidades de desenvolver dramaticamente a jornada dos quatro amigos – observe, por exemplo, como a trama se resolve de modo abrupto e casual, com um simples golpe de sorte do herói, que não precisa usar de intelecto ou dos dotes no gatilho para chegar até o vilão. Vale pela curiosidade e pelos bons momentos ocasionais, com a excelente cena do nascimento do bebê, também com ecos bíblicos.

O DVD nacional é um lançamento da Works Editora. O disco simples contém apenas o filme, mas em uma rara versão sem cortes, 17 minutos mais longa do que a lançada comercialmente nos EUA. A qualidade da imagem (widescreen 1.85:1) é razoável, e o áudio (Dolby Digital 2.0, em inglês) também. Não há material extra.

– Os Quatro Pistoleiros do Apocalipse (I Quattro dell’apocalisse, Itália, 1975)
Direção: Lucio Fulci
Elenco: Fabio Testi, Lynne Frederick, Michael J. Pollard, Harry Baird
Duração: 104 minutos

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