Queda, A

08/03/2006 | Categoria: Críticas

Drama alemão revisita últimos dias de Hitler e ousa transformar o mito em homem

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★★★☆

O filme “A Queda – As Últimas Horas de Hitler” (Der Untergang, Alemanha, 2004) passou pelos cinemas deixando um rastro de polêmica por onde passou. Na Alemanha, essa polêmica foi multiplicada muitas vezes. O motivo é simples de entender: “A Queda” retrata de perto o ambiente caótico e claustrofóbico vivido dentro do bunker de onde o ditador Adolf Hitler assistiu, impotente (sem trocadilhos aqui), à conquista de Berlim pelas tropas soviéticas, em abril de 1945. Foi a última batalha da Segunda Guerra Mundial. E “A Queda” a exibe do ponto de vista dos nazistas, embora esteja longe de ser simpático ou condescendente com eles.

Jamais, até 2004, um outro filme havia tentando chegar tão perto do ser humano que foi Adolf Hitler. Ditador sanguinário, responsável direto pelo assassinato de 6 milhões de judeus, artífice da Segunda Guerra Mundial, estrategista quase maníaco, cérebro intoxicado pela sede de poder. Todas essas facetas de Hitler são amplamente conhecidas do público internacional. Mas quem foi o homem Hitler? Como ele era, se visto de perto? O sujeito mais odiado do século XX tinha sentimentos ou era simplesmente uma máquina de matar? Como ele se relacionava com as pessoas? Como encarava as atrocidades que mandava cometer?

A grande ambição do filme de Oliver Hirschbiegel não é entregar um produto cinematográfico de estética inédita, nem mesmo ousada, mas responder a essas perguntas. Talvez por isso, Hirschbiegel fez um filme simples, direto, cru e realista, que soa como o contraponto alemão a “O Resgate do Soldado Ryan”. Aliás, é curioso perceber que o filme de 1997 de Steven Spielberg vem se tornando o paradigma estético que todos os demais cineastas (não apenas norte-americanos, como provam este filme alemão e “O Pianista”, de Polanski) perseguem para representar visualmente a Segunda Guerra. A estética de “A Queda” é convencional, mas eficiente: câmera na mão, imagens tremidas e com aspecto documental, uso discreto de cores com predomínio dos tons de terra. Tudo isso reforça o tom realista pretendido pelo cineasta.

Há uma diferença visível, provavelmente culpa do orçamento apertado de R$ 14 milhões; “A Queda” não tem muitos planos gerais. A maior parte das tomadas é feita com a câmera colocada muito próxima dos personagens, muitas vezes operada manualmente, o que dá ao todo uma cara de documentário. De certa forma, essa escolha – certamente feita por imposição dos altos custos exigidos para se filmar cenas externas, pois construir cenários muito grandes é uma das tarefas que mais consomem dinheiro no cinema – ajuda a dar ao filme o tom intimista que a história pede. “A Queda” é um filme de atores, de personagens, e não de batalhas sangrentas (embora essas cenas existam em quantidade suficiente para embrulhar os estômagos mais sensíveis).

Um dado curioso é que as cenas externas foram filmadas na cidade russa de São Petersburgo, exatamente a cidade-símbolo da derrota alemã na Segunda Guerra. Lá, os alemães mataram um milhão de pessoas, promoveram uma onda de estupros em massa e sofreram a primeira grande derrota da campanhia que afundaria Hitler e asseclas. Porém, foi lá que a equipe técnica do filme encontrou ruas com arquitetura alemã preservadas, o que possibilitou que as filmagens fossem efetuadas, com a devida cooperação das autoridades russas. Tremenda ironia.

O elenco é o destaque maior de “A Queda”. Bruno Ganz (o anjo de “Asas do Desejo”) incorpora Hitler à perfeição, tornando-o um personagem decrépito, fascinante e misterioso. O ditador alterna momentos melancólicos com uma histeria feroz. Podia ser carinhoso, mas o era quase sempre com o cachorro ou com estranhos (como a secretária Tradle Junge, cujas lembranças formam a base da narrativa de “A Queda”, junto com a biografia escrita por Joachim Fest). Não era chegado a carinhos físicos nem mesmo com a namorada e, no final, esposa, Eva Braun (Julianne Köhler, também excelente). Encurvado e tremendo devido ao mal de Parkinson, Hitler é uma caricatura de ditador, mas sua primeira aparição no filme – triunfal e anunciada à platéia com expectativa, como Cristo nos filmes bíblicos da década de 1950 – reforça o mito, e nem tanto o homem.

Hitler era mesmo assim? A resposta é, e só poderia ser, inconclusiva. “A Queda” não deve ser tomado como um documento histórico, mas como ficcionalização corajosa de um dos momentos mais dramáticos da história recente do mundo. Mas, mesmo assim, há problemas nessa ficcionalização. O mais evidente é uma certa tendência ao uso excessivo de clichês para dramatizar os conflitos dos personagens. O próprio Hitler se comunica com os colegas usando, com freqüência anormal, frases que mais parecem slogans publicitários, e não diálogos (“Numa guerra como esta, não existem cidadãos”, responde a um oficial que questiona a respeito do abandono de civis feridos pelas tropas nazistas).

Outro exemplo dessa prática é a seqüência em que Goebbels, o ministro da Propaganda e colaborador mais fiel de Hitler, decide envenenar a própria família e cometer suicídio. A cena é filmada pelo diretor Oliver Hirschbiegel seguindo a cartilha de Hollywood. A fanática mulher de Goebbels dá um tranqüilizante aos filhos antes de matá-los, sob um silêncio pesado, e um deles – o último – se recusa a tomar o remédio, mesmo sem saber o que está tomando. Momentos melodramáticos como esse configuram um típico recurso manjado para provocar lágrimas na platéia, ainda que haja evidências de que as coisas tenham ocorrido de modo parecido. “A Queda” consegue o efeito pretendido, mas poderia fazer o mesmo adotando um tom mais sóbrio, sem apelações sentimentais.

Essas escolhas burocráticas de direção se repetem aqui e acolá, durante os longos 150 minutos de filme, mas não transformam o resultado final em um longa-metragem de má qualidade. Outras escolhas, porém, são mais polêmicas. Wim Wenders, o mais famoso cineasta alemão nos EUA, atirou contra o filme porque percebeu que Hirschbiegel não tem problemas em mostrar soldados anônimos sendo abatidos a tiros nas ruas de Berlim, mas quando vai filmar as mortes de Hitler e Goebbels, desvia o olhar da câmera para o lado e se recusa a mostrá-las. Por quê? Como alguém que pretende retirar a carga mitológica de um personagem histórico sem mostrá-lo morrer, como um homem?

Wenders está certo. Mesmo assim, a polêmica criada em torno de “A Queda” parece ser exagerada. O filme não procura suavizar a figura de Hitler, como alguns críticos alemães o acusaram. Talvez tente humanizá-lo, embora tenha tanto tato durante a tarefa que não consegue fazê-lo. Ou talvez a figura abatida e frágil do ditador prescinda de palavras para isso. Mas rigorosamente nada há no filme que o transforme em libelo nazista.

Uma nota final. Normalmente, eu não costumo assinalar onde e como assisti ao filme, pois acho que essa informação não interessa muito ao espectador. Esta, porém, é uma exceção. Vi “A Queda” na noite de 21 de setembro de 2004, no complexo de cinemas IMAX localizado nos subterrâneos da Potsdamer Platz, uma praça chique e moderna no coração de Berlim. O bunker de Hitler, onde quase toda a ação do filme se passa, ficava localizado a uns 200 metros. No mesmo quarteirão, e obviamente também subterrâneo. O simbolismo não passou despercebido pela platéia. O público não soltou um único som durante toda a projeção. E todo mundo esperou integralmente pelo final dos créditos para sair da sala, como se participasse de uma cerimônia religiosa. Impressionante.

Há duas versões em DVD no Brasil. O disco simples da Europa é fraco. Para começar, não contém extras. O filme está em formato standard 4:3, com cortes laterais, e tem trilha Dolby Digital 2.0, em alemão. A tecnologia DD 5.1 (que explora os cinco canais e o subwoffer) faz falta num filme com essas características. Por outro lado, a edição especial dupla traz o corte original (wide 1.85:1 anamórfico), som de ótima qualidade (DD 5.1) e um disco só com extras, incluindo um grande documentário (57 minutos), dois featurettes com diretor e membros da equipe técnica comentando cenas (35 minutos), uma entrevista com a jornalista que ajudou a secretária Traudl Junge a transformar suas memórias em livro (8 minutos) e uma galeria de entrevistas com uma dúzia de participantes do projeto. Tudo legendado em português.

– A Queda – As Últimas Horas de Hitler (Der Untergang, Alemanha, 2004)
Direção: Oliver Hirschbiegel
Elenco: Bruno Ganz, Alexandra Maria Lara, Corinna Harfouch, Julianne Köhler
Duração: 150 minutos

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