Queime Depois de Ler

25/11/2008 | Categoria: Críticas  | Versão para impressão Versão para impressão

Irmãos Coen retornam a território familiar e fazem um filme pequeno e caloroso, um thriller de humor negro habitado por personagens ao mesmo tempo tristes e divertidos

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★★★☆

Quase todos os filmes dos irmãos Joel e Ethan Coen trabalham com a idéia da falta de controle que as pessoas têm de suas próprias vidas. De certa forma, foi exatamente isso que aconteceu com a dupla após o lançamento de “Onde os Fracos Não Têm Vez” (2007). Celebrado como obra-prima nos quatro cantos do mundo, o longa-metragem realizou vitoriosa carreira internacional, sendo coroado com o Oscar de melhor filme – um prêmio que os Coen certamente não imaginavam que poderia receber algum dia, já que são autores de uma obra claramente fora de compasso com a tradição do troféu. Joel e Ethan já eram respeitadíssimos no círculo cinéfilo, mas de repente tinham se tornado… famosos. Um caso clássico de personagens que perdiam o controle dos acontecimentos.

“Queime Depois de Ler” (Burn After Reading, EUA, 2008) representa clara tentativa de recolocar as coisas em seus devidos lugares. Ao invés de mergulhar de cabeça no filão do neo-faroeste – uma expectativa talvez alimentada pelos fãs pós-Oscar – e alimentar as expectativas dos fãs recém-adquiridos, os dois irmãos retornaram a território familiar e fizeram um filme pequeno, caloroso, um thriller de humor negro habitado por personagens ao mesmo tempo tristes e divertidos. Para aqueles de nós que esperavam um tratado sobre a condição humana, idêntica em ambição à obra anterior, de narrativa mais perfeita e bem construída da carreira dos Coen, pode ser uma decepção. “Queime Depois de Ler” é apenas um filme típico dos dois irmãos. Uma história bem contada, com certeza, mas completamente despida de vaidades e ambições.

De fato, conhecedores do cinema praticado pela dupla vão notar, sem esforço, a grande semelhança com “Fargo” (1996). Este último pode não ser o melhor filme dos dois, mas certamente é aquele que melhor resume o cinema simples e carregado de humor negro que Joel e Ethan fazem desde a estréia, em “Gosto de Sangue” (1994). Nos dois casos, os irmãos usam um personagem comum como protagonista – um anônimo que tem dificuldades para pagar as contas, como eu e você – que, após cometer um crime menor durante um impulso tresloucado causado pela necessidade financeira, acaba vendo esse deslize se desdobrar em direções imprevisíveis, gerando confusões e tragédias para si mesmo e para outras pessoas.

Em “Queime Depois de Ler”, este personagem é uma mulher. Linda (Frances McDormand, esposa de Joel e vencedora do Oscar de melhor atriz justamente por “Fargo”) trabalha numa academia de ginástica e, talvez por causa disso, está obcecada em fazer uma série de plásticas para melhorar a aparência. O problema é que o plano de saúde dela não quer bancar as cirurgias. Para conseguir o dinheiro, ela decide chantagear um ex-agente da CIA (John Malkovich), cujas memórias foram esquecidas por engano no banheiro do local. Nesse golpe, ela conta com a ajuda de um instrutor de ginástica bonitinho e meio imbecil (Brad Pitt), que não tem a mínima noção da enrascada em que pode estar se metendo.

Na verdade, “Queime Depois de Ler” tem dois núcleos distintos de personagens. Um deles é a já citada academia de ginástica. O segundo contém o círculo de pessoas que gravita em torno de Ozzie (Malkovich), cuja esposa antipática (Tilda Swinton) o está traindo com um ex-segurança particular que tem mania de perseguição (George Clooney). Aos poucos, os acontecimentos narrados em paralelo, com a elegância e a simplicidade características dos irmãos Coen, vão afunilando as duas histórias em uma única trama sólida, pontuada por seqüências hilariantes em que um funcionário da CIA vai resumindo e tentando explicar as situações surreais para um atônito superior hierárquico.

Joel e Ethan comprovam a larga experiência na direção mostrando senso perfeito de colocação de câmera (perceba os ângulos impecáveis através dos quais os diretores sugerem que o personagem de George Clooney pode estar sendo seguido por alguém que não sabemos quem é). Além disso, há uma kafkiana atmosfera permanente de absurdo, um clima surreal, utilizado quase sempre para criar momentos de humor negro impagáveis, como a imprevisível visita à embaixada russa e o inacreditável encontro no carro entre Malcovich e Brad Pitt. O galã, aliás, oferece um dos melhores desempenhos do elenco, no papel do instrutor abestalhado de ginástica que não consegue medir o nível de perigo da confusão em que vai afundando, cada vez mais.

Espectadores que assistirem a “Queime Depois de Ler” com a expectativa de ver um thriller de espionagem correm sério risco de se decepcionarem. Na verdade, como boa parte dos trabalhos dos Coen, trata-se de uma obra difícil de enquadrar num gênero. Embora inclua momentos de tensão e pelo menos uma cena de violência gráfica (em um momento particularmente inesperado), a trama é mero disfarce para trabalhar conceitos como destino, coincidência e sincronicidade, fazendo questão de nos lembrar que não somos donos dos nossos próprios destinos, e que a qualquer momento um incidente qualquer pode atirar nossa existência para uma direção completamente diferente.

Observe, também, como os cineastas incluem no roteiro redondo uma crítica sutil e implacável sobre máscaras sociais. Quase todos os personagens de “Queime Depois de Ler” – e eles não são poucos – aparentam ser mais felizes do que realmente são. Todo mundo ali tem vidas pessoais pouco satisfatórias, vivendo problemas no trabalho (o ex-agente, a balconista da academia), no campo afetivo ou em ambos. A instituição do casamento recebe as alfinetadas mais violentas, uma vez que nenhum dos envolvidos na trama vive uma relação realmente verdadeira. Todos mentem, enganam, traem, e quase nunca percebem que estas atitudes não lhes traem qualquer tipo de felicidade, nem mesmo transitória. No fim das contas, mesmo que “Queime Depois de Ler” tenha a aparência de um filme pequeno, sobra a certeza de que Joel e Ethan Coen continuam sendo os mesmos observadores argutos da condição humana que sempre foram. Nem mais, nem menos.

- Queime Depois de Ler (Burn After Reading, EUA, 2008)
Direção: Joel e Ethan Coen
Elenco: George Clooney, Frances McDormand, Brad Pitt, Tilda Swinton
Duração: 96 minutos

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18 comentários
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  1. Achei o filme mediano. Apesar das muitas estrelas presentes e das boas intepretações (Clooney e Pitt estão bem engraçados) o roteiro deixa a desejar.
    Achei apenas bom, nada mais que isso.
    Não vá assistir esperando por um “filmaço”…

  2. Se você gosta do Pit e do Cloney, não vá ver este filme, eles estão ridículos tentando fazer comédia ao estilo Mr Been ou Três Patetas. Eu só esperava a hora de terminar, foi um saco.

  3. Achei fascinante a interpretação dos atores, todos!!! Bom também saber que atores como George Clooney e Brad Pitt topam fazer filmes em que saem daqueles papeis previsíveis. Não dei uma garagalhada no filme. O ruim de se taxar um filme de comédia ou não é achar que já que é de comédia se tem que gargalhar a cada cena. Um filme de crítica da sociedade ocidental claro.O filme mostra pessoas comuns vazias de conhecimentos e um delírio de consumismo que normalmente vivemos.

    Filme bom.

  4. Frances ganhou como Melhor Atriz e não como Coadjuvante por Fargo!

  5. Sei disso, Tony. E escrevi a informação correta. Você deve ter lido a palavra “justamente” como se fosse coadjuvante, mas pode ler de novo. No texto está certo.

  6. Achei o filme sensacional em todos os aspectos; não somente pela interpretação dos atores, que estão ao meu ver todos muito inspirados, mas principalmente pelo sarcasmo do filme a respeito dos EUA de uma maneira geral.
    A CIA é retratada como um local onde impera a politicagem e o abuso de poder, ao mesmo tempo em que oficiais de alto escalão são idiotas e nem sempre sabem o que estão fazendo. Um dos icones do poder americano retratado como um lugar patético. E conseguiram fazer isso de maneira bem humorada….. ponto!
    Absolutamente não existe ética nas relações entre os casais; todo mundo come todo mundo…. e não é bem isso hoje em dia? ponto!
    O americano padrão é retratado como sendo estúpido e futil, preocupado em manter a beleza estética, sem se preocupar em entender o mundo. O que dizer da imbecil que por conta da cirurgia plástica vai até a embaixada Russa entregar informações do governo americano. Obviamente ela nunca ouviu falar da guerra fria, muito menos sobre o final dela. Ponto!
    Palmas para os irmãos Coen, que conseguiram esculhambar todo o modelo americano de maneira tão sutil, que até mesmo a maioria das pessoas que foram ao cinema ver o filme não conseguiram notar……

  7. Pra mim, assim como “Onde os fracos não tem vez” trata-se de mais um trabalho fraco e supervalorizado do irmãos Coen, que já escreveram coisas melhores.

  8. Gostei muito do filme, me diverti bastante.. achei o inicio meio devagar, mas depois do encontro de J Malcovich e B Pitt, o filme não parou mais. Adorei Clooney na cena do parque.. xauxau

  9. Pior filme q eu ja assisti
    tosco e de mal gosto

  10. A forma como um dos protagonistas e destaque do filme sai de cena é totalmente inesperada e corajosa dentro do contexto apresentado!

    Foi incrível perceber no cinema a reação das pessoas visivelmente constrangidas com o ocorrido!

    A cena me lembrou muito uma outra cena do filme “Os Infiltrados”!!!
    Será que houve alguma referência???

    De qualquer forma, aposto que muita gente vai dizer que estava gostando do filme e essa cena estragou tudo!!!

  11. Nossa! Uma das melhores surpresas do ano…
    Sou fã dos irmãos Coen desde que vi “Arizona Nunca Mais” (de 1987). Desde então, vi alguns filmes geniais deles (”Barton Fink”, “Fargo”, “E aí, meu Irmão Cadê Você?” e por aí vai…) e, mais uma vez, eles acertam em cheio no uso do humor negro.
    Esse “Queime Depois de Ler” prende a atenção do começo ao fim e, quando você acha que o filme já se superou, eis que surge uma reviravolta notável (e impagável).
    O elenco todo está super entrosado e entrega ótimas interpretações. George Clooney, Tilda Swinton, John Malkovich, Frances McDormand, J. K. Simmons e, pasme, Brad Pitt (uma grata surpresa) acertam no tom que vai da brincadeira ao mais completo absurdo. Num universo repleto de personagens ridículos e, mesmo assim, humanos e muito interessantes (como eles já haviam feito com “Fargo”, por exemplo).
    Se esse é considerado um filme “pequeno” dos Coen, que eles façam muito mais longas como esse, pois, nesse caso, menos é mais, com toda certeza.
    “Onde os Fracos Não têm Vez” me prendeu a atenção, me deixou tenso, do começo até o meio, mas o final não me agradou (considero muito mais ambicioso do que bem sucedido). Esse novo longa dos Coen, pelo contrário, é despretensioso e tem um final genial (tive acesso de risos nos últimos 10 ou 15 minutos de projeção).
    Posso estar enganado, mas enxerguei nesse filme, momentos que pareciam uma paródia do mega-premiado, “Onde os Fracos…”. Adorei o resultado!

  12. O filme é corajosamete simples, desde o roteiro até o atores, nenhum super agente secreto, nem um um super vilão! Mais um acerto dos Coen!

    p.s.: brad pitt esta hílario!!!

    “aaah… Mr. Cox…???”

    kkkkkkkkkkkkkk

  13. FILME RIDICULO…..FIQUEI COM VONTADE DE QUEIMAR O BILHETE ANTES DE TER ENTRADO NO CINEMA….PÉSSIMO, ISSO É SÓ PARA QUEM É FISSURADO NOS EUA….PQ PELO AMOR! NGM MERECE MEEESMOOOOO

  14. Filme bom. Não ao nível do roteiro de “Onde Os Fracos Não Têm Vez”, mas é um filme bom sim. Basta apenas um pouco de “paciência” e analisar o filme como um filme dos irmãs Coen e não como um filme qualquer.

    Sem clichês, auto-explicativo e extremamente crítico. Além de criticar tudo já citado, critica fortemente a CIA, que como o Cox fala no início, não tem missões, apenas burocracia. E é exatamente o que acontece o filme todo, tudo girando em cima de idiotisses, que geraram mortes, separações e muito “bafafá”.

  15. Mais um bom filme dos irmãos Coen. Fui ver e não me arrependi. O humor negro e inteligente, sempre sutil, exige um pouco mais da platéia, fato que pode desgostar àqueles desavisados que vão ao cinema atrás de comédia solta e escrachada. É interessante como as situações fogem ao controle dos personagens, gerando a cada cena mais desastre e complicação. E o grande elenco, afinadíssimo. E o final do filme, com a exigência da personagem de Frances McDormand ainda mantida de pé (apesar de toda a tragédia provocada), é terrivelmente risível, humor negro impagável.

  16. O pior filme dos irmãos e com interpretações constrangedoras.

  17. Muito bom! Além do elenco perfeito, a crítica deles à sociedade americana foi precisa. E , claro, algumas coisas servem para nós, brasileiros também, como a obsessão pela cirurgia da personagem “Linda”, fazendo-a passar por todos os limites de bom senso e de ética.

    As críticas à nova forma de se relacionar, via sites de relacionamento e os riscos que se corre… tudo isto é muito engraçado - e crítica. Os personagens não saberem com quem se relacionam intimamente pode ser um convite à reflexão para os espectadores.

    Merece ser revisto

  18. Não entendo como alguns dos que escreveram sobre esse filme acharam o pior filme de todos os tempos. Achei o filme muito original, crítico em relação aos tempos que vivemos hoje. Pode não ser o melhor filmes dos Irmãos, mas longe de ser o pior filme que alguém possa ter assistido. Vai ver que são aqueles que adoram filmes pipocas como, INDEPENDENCE DAY, GODZILA,JURASSIC PARK 2 e 3 etc

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