Queime Depois de Ler

27/03/2009 | Categoria: Críticas

Irmãos Coen retornam a território familiar e fazem um filme pequeno e caloroso, um thriller de humor negro habitado por personagens ao mesmo tempo tristes e divertidos

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★★★☆

Quase todos os filmes dos irmãos Joel e Ethan Coen trabalham com a idéia da falta de controle que as pessoas têm de suas próprias vidas. De certa forma, foi exatamente isso que aconteceu com a dupla após o lançamento de “Onde os Fracos Não Têm Vez” (2007). Celebrado como obra-prima nos quatro cantos do mundo, o longa-metragem realizou vitoriosa carreira internacional, sendo coroado com o Oscar de melhor filme – um prêmio que os Coen certamente não imaginavam que poderia receber algum dia, já que são autores de uma obra claramente fora de compasso com a tradição do troféu. Joel e Ethan já eram respeitadíssimos no círculo cinéfilo, mas de repente tinham se tornado… famosos. Um caso clássico de personagens que perdiam o controle dos acontecimentos.

“Queime Depois de Ler” (Burn After Reading, EUA, 2008) representa clara tentativa de recolocar as coisas em seus devidos lugares. Ao invés de mergulhar de cabeça no filão do neo-faroeste – uma expectativa talvez alimentada pelos fãs pós-Oscar – e alimentar as expectativas dos fãs recém-adquiridos, os dois irmãos retornaram a território familiar e fizeram um filme pequeno, caloroso, um thriller de humor negro habitado por personagens ao mesmo tempo tristes e divertidos. Para aqueles de nós que esperavam um tratado sobre a condição humana, idêntica em ambição à obra anterior, de narrativa mais perfeita e bem construída da carreira dos Coen, pode ser uma decepção. “Queime Depois de Ler” é apenas um filme típico dos dois irmãos. Uma história bem contada, com certeza, mas completamente despida de vaidades e ambições.

De fato, conhecedores do cinema praticado pela dupla vão notar, sem esforço, a grande semelhança com “Fargo” (1996). Este último pode não ser o melhor filme dos dois, mas certamente é aquele que melhor resume o cinema simples e carregado de humor negro que Joel e Ethan fazem desde a estréia, em “Gosto de Sangue” (1994). Nos dois casos, os irmãos usam um personagem comum como protagonista – um anônimo que tem dificuldades para pagar as contas, como eu e você – que, após cometer um crime menor durante um impulso tresloucado causado pela necessidade financeira, acaba vendo esse deslize se desdobrar em direções imprevisíveis, gerando confusões e tragédias para si mesmo e para outras pessoas.

Em “Queime Depois de Ler”, este personagem é uma mulher. Linda (Frances McDormand, esposa de Joel e vencedora do Oscar de melhor atriz justamente por “Fargo”) trabalha numa academia de ginástica e, talvez por causa disso, está obcecada em fazer uma série de plásticas para melhorar a aparência. O problema é que o plano de saúde dela não quer bancar as cirurgias. Para conseguir o dinheiro, ela decide chantagear um ex-agente da CIA (John Malkovich), cujas memórias foram esquecidas por engano no banheiro do local. Nesse golpe, ela conta com a ajuda de um instrutor de ginástica bonitinho e meio imbecil (Brad Pitt), que não tem a mínima noção da enrascada em que pode estar se metendo.

Na verdade, “Queime Depois de Ler” tem dois núcleos distintos de personagens. Um deles é a já citada academia de ginástica. O segundo contém o círculo de pessoas que gravita em torno de Ozzie (Malkovich), cuja esposa antipática (Tilda Swinton) o está traindo com um ex-segurança particular que tem mania de perseguição (George Clooney). Aos poucos, os acontecimentos narrados em paralelo, com a elegância e a simplicidade características dos irmãos Coen, vão afunilando as duas histórias em uma única trama sólida, pontuada por seqüências hilariantes em que um funcionário da CIA vai resumindo e tentando explicar as situações surreais para um atônito superior hierárquico.

Joel e Ethan comprovam a larga experiência na direção mostrando senso perfeito de colocação de câmera (perceba os ângulos impecáveis através dos quais os diretores sugerem que o personagem de George Clooney pode estar sendo seguido por alguém que não sabemos quem é). Além disso, há uma kafkiana atmosfera permanente de absurdo, um clima surreal, utilizado quase sempre para criar momentos de humor negro impagáveis, como a imprevisível visita à embaixada russa e o inacreditável encontro no carro entre Malcovich e Brad Pitt. O galã, aliás, oferece um dos melhores desempenhos do elenco, no papel do instrutor abestalhado de ginástica que não consegue medir o nível de perigo da confusão em que vai afundando, cada vez mais.

Espectadores que assistirem a “Queime Depois de Ler” com a expectativa de ver um thriller de espionagem correm sério risco de se decepcionarem. Na verdade, como boa parte dos trabalhos dos Coen, trata-se de uma obra difícil de enquadrar num gênero. Embora inclua momentos de tensão e pelo menos uma cena de violência gráfica (em um momento particularmente inesperado), a trama é mero disfarce para trabalhar conceitos como destino, coincidência e sincronicidade, fazendo questão de nos lembrar que não somos donos dos nossos próprios destinos, e que a qualquer momento um incidente qualquer pode atirar nossa existência para uma direção completamente diferente.

Observe, também, como os cineastas incluem no roteiro redondo uma crítica sutil e implacável sobre máscaras sociais. Quase todos os personagens de “Queime Depois de Ler” – e eles não são poucos – aparentam ser mais felizes do que realmente são. Todo mundo ali tem vidas pessoais pouco satisfatórias, vivendo problemas no trabalho (o ex-agente, a balconista da academia), no campo afetivo ou em ambos. A instituição do casamento recebe as alfinetadas mais violentas, uma vez que nenhum dos envolvidos na trama vive uma relação realmente verdadeira. Todos mentem, enganam, traem, e quase nunca percebem que estas atitudes não lhes traem qualquer tipo de felicidade, nem mesmo transitória. No fim das contas, mesmo que “Queime Depois de Ler” tenha a aparência de um filme pequeno, sobra a certeza de que Joel e Ethan Coen continuam sendo os mesmos observadores argutos da condição humana que sempre foram. Nem mais, nem menos.

O DVD de locação da Universal é simples, respeita o enquadramento original (widescreen anamórfico) e traz áudio em seis canais (Dolby Digital 5.1), mas sem extras.

– Queime Depois de Ler (Burn After Reading, EUA, 2008)
Direção: Joel e Ethan Coen
Elenco: George Clooney, Frances McDormand, Brad Pitt, Tilda Swinton
Duração: 96 minutos

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