Quem Bate à Minha Porta?

10/11/2006 | Categoria: Críticas

Estréia de Scorsese é um ótimo curta-metragem ampliado ao longo de quatro anos de filmagens caóticas

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★★☆☆

A gestação do filme de estréia do grande Martin Scorsese é uma história digna de figurar em qualquer almanaque de curiosidades exóticas sobre a indústria do cinema. Inicialmente projetado como um curta-metragem para a New York Film University, em 1965, “Quem Bate à Minha Porta?” (Who’s That Knocking At My Door?, EUA, 1969) levou quatro anos – e duas etapas posteriores de filmagens – para ganhar lançamento comercial. Embora seja um trabalho irregular, já demonstra claramente o talento que faria de Scorsese um dos maiores diretores norte-americanos de todos os tempos.

A rigor, “Quem Bate à Minha Porta?” não deveria ter sido lançado. O cineasta ítalo-americano não tinha intenção de retrabalhar o curta que fez como projeto de conclusão de curso, em 1965. A trama acompanhava o início do namoro de um rapaz cinéfilo de Little Italy com uma garota intelectual do Village. Os dois eram produtos perfeitos dos respectivos bairros de origem. Seria impossível um casal mais diferente – ele, um fã de John Wayne, inteligente mas meio bronco, católico até a alma; ela, de espírito boêmio, falando francês e lendo a revista Cahiers du Cinema (embora sem interesse específico por filmes). Um cara jovem, esperto e meio bruto, e uma garota boêmia, refinada e culta. Eduardo e Mônica.

Um dos professores do curso adorou o resultado final, e convenceu a universidade a liberar mais dinheiro para Scorsese aumentar o enredo, criando um longa-metragem. Como era uma oportunidade única para estrear no cinema comercial, o futuro diretor de “Touro Indomável” topou a parada. Chamou de volta o também estreante ator Harvey Keitel, filmou uma nova rodada de cenas e acrescentou uma trama paralela, em que JR (o protagonista) cai na farra durante as noites de folga do namoro, com os rapazes da vizinhança em Little Italy. A gangue é citada de passagem nas cenas com ele a sua namorada loira (Zina Bethune), cujo nome não é mencionado no filme.

Antes de chegar aos cinemas, o longa-metragem ainda ganhou o enxerto de uma longa e pesada seqüência de sexo, ao som da soturna canção “The End” (The Doors), entre o personagem de Keitel e várias garotas vulgares da vizinhança. A cena foi uma exigência dos produtores da Warner para realizar o lançamento nos cinemas – afinal, era 1969, o auge da geração flower power, da música hippie e do amor livre, e sexo na telona fazia sentido. Curiosamente, Keitel estava quatro anos mais velho, mas somente os mais atentos vão perceber a fisionomia nitidamente envelhecida do personagem.

Obviamente, com um caos deste tamanho nos bastidores, “Quem Bate à Minha Porta?” é um filme irregular. As duas tramas paralelas, por exemplo, causam estranhamento, pois jamais se cruzam – JR nunca fala da namorada para os amigos com quem cai na farra. No entanto, o talento de Scorsese é visível nos diálogos rápidos, vulgares, cheios de gírias e palavrões, capturando com fidelidade o modo como se fala nas ruas, e também na temática do rapaz de origem humilde flertando com mafiosos de origem italiana. Em diversos filmes posteriores, especialmente “Caminhos Perigosos” (1971) e “Os Bons Companheiros” (1990), estes elementos seriam retomados.

Também merece destaque o trabalho excelente de edição de Thelma Schoonmaker, colega de universidade que se tornou a montadora oficial de Scorsese. Inspirada em Godard e com nítida influência de “Acossado” (1959), Schoonmaker realiza uma montagem leve e ágil, que vai e volta no tempo, além de criar uma técnica para “entrar” nos pensamentos dos personagens – ela mostra-os parados, parecendo reflexivos, e depois fazendo alguma ação, para então voltar a mostrá-los exatamente como antes, o que sugere que a ação de recheio entre as duas tomadas de reflexão não passava de imaginação.

A montadora acelera cenas, usa imagens congeladas e trechos narrados para dar agilidade à história e efetuar ligações entre as duas tramas paralelas. O trabalho de Schoonmaker é tão bom que até mesmo a cena de sexo, imposta pelos produtores, faz sentido diante do todo. Ela foi montada de forma a realçar o tema da culpa católica do protagonista, sugerindo que JR não se importava em transar com mulheres que não iria mais ver, mas se recusava a fazer sexo com a namorada, a quem amava, antes do casamento.

Além de tudo isso, o filme abusa de trilha sonora com canções de rock’n’roll da época, bem apropriadas à atmosfera que a história excitante deseja evocar, e deixa evidente o tesão que Scorsese tinha em discutir cinema – a cena em que JR flerta pela primeira vez com a namorada, usando como desculpa uma foto de John Wayne em “Rastros de Ódio” na revista que ela segura, é uma maravilha. “Quem Bate à Minha Porta?” não é uma obra-prima, mas dá uma boa medida de como um diretor de talento consegue fazer coisa boa, mesmo quando os bastidores são um caos.

O DVD brasileiro, da Warner, é simples e tem boa qualidade. O filme, apesar da imagem granulada e/ou às vezes arranhada, está na proporção correta (widescreen 1.78:1 anamórfico) e tem som OK (Dolby Digital 5.1). Os extras se resumem a um comentário em áudio com Scorsese e o assistente de direção Mardik Martin (sem legendas), e um pequeno documentário com uma entrevista de Martin (12 minutos), contando os bastidores do projeto.

– Quem Bate à Minha Porta? (Who’s That Knocking At My Door?, EUA, 1969)
Direção: Martin Scorsese
Elenco: Harvey Keitel, Zina Bethune, Anne Collette, Lennard Kuras, Michael Scala
Duração: 89 minutos

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