Quero Ser John Malkovich

21/07/2004 | Categoria: Críticas

Bizarro, original e inteligente do começo ao filme, filme aponta para o cinema do século XXI

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★★★☆

Este é um raro caso de filme que deixa o espectador boquiaberto antes mesmo que ele comece a assisti-lo. A sinopse bizarra não deixa dúvidas. Vejamos: um arquivista entediado descobre, atrás de um armário no local de trabalho, um portal secreto capaz de levar quem o atravessar para dentro do cérebro do ator John Malkovich. A experiência dura 15 minutos e, depois disso, o “viajante” é atirado no acostamento de uma rodovia da cidade de New Jersey (EUA). O que dizer de um filme como “Quero Ser John Malkovich” (Being John Malkovich, EUA, 1999)? Algumas definições possíveis: original, criativo, surreal, inteligente, cruel, feminista, sarcástico, bizarro. O longa-metragem é tudo isso, e muito mais.

“Quero Ser John Malkovich” talvez seja um dos trabalhos mais exemplares para entender o cinema do século XXI. A lógica é a seguinte: ano após ano, principalmente a partir da década de 1970 e do crescimento indiscriminado do filme-evento, ou blockbuster, o cinema tem se tornado previsível demais. Pelo menos 95% das produções de Hollywood (e talvez eu esteja sendo otimista) podem ser adivinhadas a partir da simples projeção de 10 ou 15 minutos de filme. Tem sido difícil para os roteiristas criar histórias originais, com tramas e reviravoltas imprevisíveis de verdade. Charlie Kaufman, o homem que escreveu “Quero Ser John Malkovich”, é uma rara e muito louvável exceção. Talvez por isso, seja atualmente o mais admirado escritor de filmes em atividade na indústria cinematográfica.

Quando estreou, em 1999, “Quero Ser John Malkovich” ganhou elogios praticamente unânimes. Ele consegue a proeza de elaborar uma história extremamente original, do começo ao fim, firmemente ancorada em uma galeria de personagens interessantes e consistentes. Craig Schwartz (John Cusack, no melhor papel da carreira) trabalha com marionetes, mas a atividade não vem dando dinheiro. Ele é casado com Lotte (Cameron Diaz, quase irreconhecível com uma peruca pixaim e espinha no nariz), uma ecologista radical que cria serpentes e um chimpanzé em plena Nova York. Infeliz e sem dinheiro, Craig é obrigado a aceitar um emprego de arquivista para sobreviver.

O trabalho tem vez em uma firma estabelecida no 7 ½ andar de um estranho edifício. Craig flerta com uma sarcástica colega de trabalho, Maxine (Catherine Keener), mas é rejeitado e, no auge da tristeza, descobre o portal mágico. A partir desse bizarro encontro, o esquisitíssimo triângulo amoroso começa a evoluir de maneiras inteiramente inesperadas. Cada personagem vê o portal como uma solução para os seus próprios problemas, adaptando-o para preencher uma parte dominante de sua personalidade. Enquanto Craig usa a passagem dimensional para combater seus problemas amorosos, Maxine vê nele uma oportunidade de lucrar. Já Lotte encontra uma forma, digamos, pouco ortodoxa de auto-afirmação. Dizer mais do que isso seria estragar as surpresas inesgotáveis do roteiro brilhante de Kauffman.

Há um punhado de seqüências antológicas em “Quero Ser John Malkovich”, que cobrem um largo espectro de sensações. O espectador vai do exótico (o vídeo-apresentação da empresa de Craig, que explica o porquê do 7 ½ andar) ao emocionante (o show de fantoches da peça “Abelardo e Heloísa”, encenado por Craig), do bizarro (o sonho com dezenas de John Malkovichs) ao cruel (o final absolutamente surpreendente do longa-metragem), em questão de segundos. A direção eficiente de Spike Jonze garante que isso aconteça sem saltos bruscos ou quebras de ritmo, garantindo um filme fluido e veloz. Isso é cinema do século XXI, em sua melhor forma.

O DVD “Quero Ser John Malkovich” tem poucos extras, quase tão bizarros quanto o filme em si. O espectador pode ver, integralmente, o vídeo apresentado ao personagem de John Cusack quando ele ganha o emprego de arquivista. Além disso, ganha de brinde uma entrevista no mínimo nojenta de um Spike Jonze claramente de ressaca. Vídeo com o corte original e som Dolby Digital 5.1 completam o pacote.

– Quero Ser John Malkovich (Being John Malkovich, EUA, 1999)
Direção: Spike Jonze
Elenco: John Cusack, Catherine Keener, Cameron Diaz, John Malkovich
Duração: 112 minutos

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