Rainha, A

14/11/2007 | Categoria: Críticas

Stephen Frears discute o sentido da monarquia no mundo contemporâneo em mistura bem calibrada de sátira e drama

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★★★☆

A cena mais importante e reveladora de “A Rainha” (The Queen, Inglaterra/França/Itália, 2006) acontece mais ou menos na metade do filme, e é bem capaz de passar despercebida para a maioria dos espectadores. Trata-se de um longo e silencioso momento que ocorre após o carro dirigido pela rainha da Inglaterra, Elizabeth II (Helen Mirren), enguiçar no meio da propriedade rural da monarca. Enquanto espera o socorro mecânico chegar, Elizabeth passeia pela mata até dar de cara com um majestoso veado, com uma enorme galha de quatorze pontas. Os dois representantes de espécies em extinção se entreolham por um longo instante. A mulher tem lágrimas nos olhos. Ela não está chorando pelo veado, mas por si mesma. Seu tempo, como o do belo animal, está no fim, e ela sabe disso.

“A Rainha” é uma curiosa, inteligente e bem calibrada mistura de sátira com drama documental, e oferece uma visão supostamente verídica do ambiente nos bastidores da alta roda governamental, na Inglaterra, durante a semana que sucedeu a morte da princesa Diana, em setembro de 1997. Naqueles dias atribulados, a monarquia inglesa esteve no ponto mais baixo, em termos de popularidade, que enfrentou em toda a sua história secular. A situação foi causada pela decisão de recusar a Diana um funeral de realeza, seguindo a lógica de que a princesa havia se divorciado do príncipe Charles um ano antes, e portanto não integrava mais a monarquia. A enorme popularidade de Diana, porém, acabou por escancarar a crise da monarquia inglesa, de um modo virulento como nunca acontecera antes.

De repente, o povo da ilha passou a questionar abertamente o papel da rainha, e da monarquia como um todo. Tablóides perguntavam qual a necessidade do país de ter uma família real, se estas pessoas viviam isoladas, sem travar qualquer tipo de contato com o resto da nação. Nas ruas, as pessoas imaginavam o que os impedia de quebrar a tradição de manter uma classe privilegiada, politicamente irrelevante, nestes tempos tecnológicos do século XXI, ainda mais quando os monarcas não sabem ouvir o povo. Em resumo: a monarquia faz sentido no mundo atual? O filme do versátil cineasta Stephen Frears (“Alta Fidelidade”, “Coisas Belas e Sujas”) discute essa questão através de um bem dosado coquetel de sátira corrosiva (mas respeitosa, e nunca irreverente), documentário e drama de escala íntima.

O dado mais positivo, e decididamente impressionante, é a recusa absoluta de Stephen Frears em deixar o filme pender para uma crítica vulgar da monarquia. Nada disso. Sem jamais abrir mão de clareza narrativa (os eventos da fatídica semana são narrados em ordem impecavelmente cronológica), o diretor discute a monarquia e suas idiossincrasias de maneira intensa e complexa, sem fazer qualquer tipo de pré-julgamento, e analisando a questão de todos os ângulos possíveis. Em certas cenas, têm-se a impressão de que “A Rainha” oferece farta munição aos progressistas que querem a monarquia na fila do desemprego; em outros, percebe-se claramente o esforço para compreender o coração e a mente de um monarca, transformando aquele ser naturalmente pedante em uma pessoa com coração.

Ser rei ou rainha, segundo afirma Frears, é muito mais do que usar uma coroa e ter direito a alguns milhões de libras por ano, sem pagar impostos. Significa, na prática, exercer desde o nascimento uma complicada combinação de fatores – manter distância do povo mesmo sem querer, virar figura pública desde o nascimento, ter uma maneira de pensar excêntrica e às vezes ultrapassada, e sobretudo exercer sacrifícios pessoais, deixando de lado qualquer tipo de vontade pessoal. “A Rainha” defende a tese de que um monarca é alguém bem complexo do que um caçador de veados que mantém encontros semanais de cortesia com o primeiro ministro.

Engana-se, portanto, quem pensa que “A Rainha” é um filme sobre a princesa Diana. Não é. A morte da mulher que o ministro Tony Blair (Michael Sheen) chamou de “princesa do povo” no famoso discurso fúnebre, que alçou a popularidade do político às alturas, fornece apenas o pano de fundo para a discussão da monarquia empreendida por Stephen Frears. Ela aparece apenas em trechos de reportagens de TV, e é a verdadeira Diana (todos os outros personagens são interpretados por atores). Obviamente, trata-se de um filme tão inglês quanto o chá da tarde ou os ônibus vermelhos de dois andares. Não é o tipo de obra cujas sutilezas o público do Brasil, dos EUA ou de qualquer país presidencialista vá compreender plenamente.

O excelente roteiro de Peter Morgan (premiado com o Globo de Ouro) penetra no círculo íntimo do poder na Inglaterra sem muita cerimônia, mas também sem qualquer tipo de lastro sólido – como nenhum dos envolvidos se pronunciou sobre os fatos retratados na tela, não há como saber se eles têm fundo de verdade ou se são apenas uma bem bolada ficção. Tony Blair, por exemplo, é retratado como um sujeito afável e esportivo, que trabalha usando camisetas de futebol e lava os pratos depois do jantar (a decisão do fotógrafo brasileiro Affonso Beato, de gravar as cenas dele em película amadora de 16mm, e com a câmera na mão, acentuam esse caráter plebeu do primeiro ministro. Ao contrário do que se pode imaginar, porém, Blair talvez seja o personagem que compreende melhor as idiossincrasias da monarquia, defendendo-a apaixonadamente durante um discurso reservado a membros de sua equipe que não economizam nos escárnios dirigidos a Elizabeth II.

Em um filme que também funciona muito bem como estudo de personagem, é óbvio que os atores têm chance maior do que o normal de brilhar. O destaque inevitável é Helen Mirren, uma das grandes damas do cinema inglês, que oferece uma performance concisa e repleta de sutilezas. Embora pareça menos taciturna do que a verdadeira Elizabeth II, a atriz convence plenamente porque reproduz à perfeição a expressão corporal da monarca – os ombros pesados apesar da postura empertigada, o andar de pernas curvas, está tudo lá, e além disso as cenas na Casa Real, filmadas em 35mm e com enquadramentos clássicos, são um contraponto perfeito à bagunça da vida de Blair. Alex Jennings convence perfeitamente como o príncipe Charles, e Michael Sheen – antes visto como um dos vampiros da série teen “Anjos da Noite” – brilha como o esforçado Blair, que tenta desesperadamente aconselhar a rainha a agir um pouco mais, digamos, politicamente.

Há ótimas cenas de todos os calibres em “A Rainha”. Um dos grandes momentos cômicos ocorre quando Elizabeth II, o marido (James Cromwell, sempre excepcional mesmo em um papel pequeno) e a mãe (Sylvia Syms) discutem o funeral plebeu de Dodi Al-Fayed, namorado de Diana que morreu no mesmo acidente. “Por que eles enterram os corpos pouco depois de morrerem?”, pergunta a rainha. “Parece que é tradição islâmica. Algo a ver com o calor impedir o corpo de se decompor”, responde a rainha-mãe, com a expressão mais séria do mundo. No outro espectro da tradição dramática, temos a brilhante seqüência do veado imponente, um magnífico exemplo de cena emocionalmente contida e que encapsula perfeitamente todos os temas abordados.

O DVD de locação da Europa traz o filme com boa qualidade de imagem (widescreen anamórfica) e áudio (Dolby Digital 5.1), mas sem extras. Já a edição especial é dupla, com um DVD só de extras. Há making of, entrevistas com diretor e elenco, cenas soltas dos bastidores (ou seja, o material de EPK, Eletronic press Kit, distribuído à imprensa) e uma versão em mp4, para tocadores em miniatura como o iPod.

– A Rainha (The Queen, Inglaterra/França/Itália, 2006)
Direção: Stephen Frears
Elenco: Helen Mirren, Michael Sheen, James Cromwell, Sylvia Syms
Duração: 97 minutos

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