Raio Verde, O

21/08/2007 | Categoria: Críticas

Rohmer aproveita lenda romântica popularizada por Julio Verne para discutir a carência afetiva

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★★★½

O fenômeno do raio verde é muito popular entre marinheiros e pessoas ligadas à vida ao ar livre. Há quem acredite que se trata de ficção, mas não é bem assim, já que a Ciência tem uma explicação lógica para o fenômeno. É o seguinte: no momento do nascer ou do pôr do sol, o último raio de luz enviado pelo astro celeste pode ser visto numa cintilante cor verde, desde que o céu esteja límpido e a linha do horizonte possa ser vista a grande distância, como acontece quando se está no oceano. Nos romances populares que escreveu no século XIX, Júlio Verne associou uma lenda romântica ao fenômeno atmosférico, garantindo que duas pessoas que conseguissem ver o raio verde lado a lado poderiam se tornariam almas gêmeas, ligadas afetivamente para sempre.

A lenda do raio verde, discutida animadamente por um grupo de pessoas em uma seqüência divertida do longa-metragem, funciona como base metafórica para o drama de Delphine (Marie Rivière), protagonista de “O Raio Verde” (Le Rayon Vert, França, 1986). O problema de Delphine é um mal contemporâneo: carência afetiva, dificuldade de encontrar um parceiro que ofereça estabilidade emocional. Ela vive uma fase de baixa auto-estima, porque sente que o namorado não lhe assume como tal. Quando o filme começa, ela está recebendo uma péssima notícia. O sujeito que não a assume lhe diz, por telefone, que não estará disponível durante o período de férias da moça, que começa dentro de quinze dias.

Cheia de planos de viagens românticas, Delphine fica arrasada. Ela não gosta de passar férias sozinha, e acredita que não terá mais tempo para conseguir armar um programa decente. Pior: a saia justa finalmente a faz perceber que o “namorado” não dá a menor bola para ela, o que aumenta ainda mais a sensação de solidão. Dando ao drama da garota uma abordagem leve, quase cômica, e capturando longos diálogos de maneira espontânea e com muita vitalidade, Eric Rohmer cria uma pequena pérola. A aparência de “O Raio Verde” é inofensiva, quase frívola, mas seu conteúdo encontra abrigo fácil no coração da juventude contemporânea.

O filme provoca empatia imediata com o público, e a abordagem de Rohmer o transforma numa aventura romântica leve e imprevisível. Ele dá a esses dramas um tratamento elegante, inteligente, extremamente dialogado. Como bem observou o crítico Luiz Carlos Merten, o cinema do diretor francês é construído em torno das palavras, e não da ação. Aparentemente, nada parece acontecer nas obras do francês, mas a coisa não é bem assim. Os personagens têm problemas afetivos e não param nunca de falar, de se auto-analisar, de discutir os caminhos da vida.

Um dos filmes mais conhecidos de Rohmer, “O Raio Verde” integra um ciclo de seis longas-metragens que o diretor francês fez, entre a segunda metade dos anos 1970 e meados da década seguinte. Como todos os demais exemplares da série “Comédias e Provérbios”, tem lugar garantido entre as melhores obras do cineasta, um dos mais prolíficos (e menos conhecidos) da nouvelle vague francesa. Trata-se de um típico filme de Rohmer, cujos personagens tagarelas quase nunca param de falar sobre seus problemas, que até podem parecer banais, mas não são – os dramas vividos por eles são universais, reconhecíveis por praticamente qualquer espectador, de todas as faixas etárias.

Como curiosidade, o roteiro do filme foi co-escrito pela atriz Marie Rivière, junto com o diretor, e boa parte dos diálogos saborosos foram improvisados pelo elenco. O filme foi bem recebido pela crítica internacional, na época do lançamento nos cinemas, chegando a vencer o Leão de Ouro no prestigiado Festival de Veneza (Itália). Aos poucos, e até por causa da prolífica produção de Rohmer, acabou injustamente meio esquecido. Vale uma conferida atenta – não são muitas as comédias românticas que têm tanta honestidade e capacidade de mexer com o lado afetivo da platéia.

O DVD nacional, da Europa Filmes, é espartano: imagem razoável (fullscreen, formato original), áudio apenas OK (Dolby Digital 2.0) e nada de extras.

– O Raio Verde (Le Rayon Vert, França, 1986)
Direção: Eric Rohmer
Elenco: Marie Rivière, Maria Luisa Garcia, Béatrice Romand, Eric Hamm
Duração: 98 minutos

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