Rambo IV

03/06/2008 | Categoria: Críticas

Stallone gasta os 93 minutos com o mínimo de trama e o máximo de sangue, promovendo espetáculo dantesco de corpos despedaçados

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★½☆☆

Depois de providenciar uma saída de cena digna para seu personagem mais famoso, em “Rocky Balboa” (2006), Sylvester Stallone decidiu fazer o mesmo com seu segundo alter-ego cinematográfico importante: o boina verde fodão John Rambo. Da mesma maneira que no filme do ex-boxeador, o maior astro de ação dos anos 1980 co-escreveu o roteiro e assumiu a direção, prometendo encerrar de vez a trajetória do personagem nas telas. A semelhança vai além, já que Stallone também preferiu retirar o número da seqüência do título, dando ao filme o nome completo do personagem. O resultado final, porém, é bem diferente de outro: literalmente curto e grosso, “Rambo IV” (John Rambo, EUA, 2008) gasta os 93 minutos com o mínimo de trama e o máximo de sangue, promovendo uma matança generalizada que inclui um espetáculo dantesco de corpos despedaçados, cabeças destroçadas e membros arrancados.

No fim das contas, fica a impressão de que Stallone trilhou um caminho bem diferente que fez com Rocky. Em 2006, o cineasta usou o ex-boxeador para falar de um tema universal: a aceitação da velhice e, conseqüentemente, a proximidade da morte. No caso de John Rambo, porém, o ator e diretor não quis saber de sutilezas no desenvolvimento do personagem. Stallone continua vendo o ex-militar como um arquétipo – uma espécie de fantasma zen-budista, que vaga pelo mundo como o velho Hulk da TV, grunhindo e tentando fugir da aura de violência em que foi criado, mas sem conseguir. Rambo continua procurando o silêncio e sendo encontrado pelo barulho, quando então dá uma demonstração forçada de seu instinto assassino. Foi assim nos três filmes anteriores da série, e é assim aqui.

Há apenas duas diferenças significativas da produção, em relação às três outras obras da franquia. A primeira diferença, que aproxima “Rambo IV” do primeiro título da série, é o esforço de Stallone em desvincular o personagem de tendências ideológicas (para os mais jovens, não custa lembrar que as aventuras do ex-militar funcionavam, na década de 1980, como comentários ufanistas à política externa dos Estados Unidos). A segunda diz respeito ao teor sangrento das imagens. A estratégia é clara: Stallone aplica ao esqueleto narrativo tradicional da franquia (Rambo tenta fugir de uma encrenca, é envolvido nela involuntariamente, e se atira à matança desenfreada quando ameaçado) a estética contemporânea da ultraviolência.

Para eliminar qualquer possibilidade de que o público enxergasse um subtexto político em “Rambo IV”, Stallone fez questão de levar a ação para terreno neutro. Ao contrário do que ocorrera na segunda e na terceira parte da franquia, o país onde a história se passa não guarda qualquer relação, nem mesmo remota, com a política externa norte-americana. Trata-se da longínqua Birmânia, onde uma guerra civil se arrasta há mais de 60 anos. Rambo também não está lá cumprindo nenhuma missão secreta ordenada pelo governo dos EUA. Ele mora na selva ao norte da Tailândia. Solitário, sobrevive caçando cobras para espetáculos circenses. Quando é abordado por um grupo de missionários cristãos que querem prestar ajuda humanitária na vizinha Birmânia, ele tenta resistir, mas acaba concordando em levá-lo pelo rio até o território em guerra.

Quando todo o grupo é seqüestrado por guerrilheiros, Rambo recebe uma segunda missão, que consiste em levar um grupo de mercenários, contratados por um pastor, para resgatar os evangélicos. Como se vê, uma trama simples e direta, que Stallone trata de rechear com quantidades industriais de sangue e tripas. “Rambo IV” acaba se estabelecendo como o filme de ação física mais adulto da temporada, já que o diretor não fez a mínima questão de esconder a carnificina na mesa de edição, para conseguir uma censura que permita lotar os cinemas de adolescentes. Filmando a ação num estilo semi-documental (câmera na mão, imagens fora de foco, respingos de sangue e lama atingindo a lente), Stallone não hesita em mostrar membros sendo arrancados, cabeças explodindo e homens esquartejados. O filme é o mais sangrento de toda a série, inclusive na contagem de corpos. São 236 mortes, ou quase três por minuto de projeção, segundo as contas feitas pelo jornal Los Angeles Times.

O elenco da produção, quase todo egresso de séries de televisão, não compromete, já Stallone despreza nuances na composição de personagens e privilegia a ação física, procurando estabelecer o tom visceral e urgente de uma produção de baixo orçamento. Ele filma longas seqüências dentro da selva e da lama, às vezes sem diálogos. Há uma longa seqüência de resgate, que acontece à noite, em que o espectador não vê muito mais do que sombras se movendo. Dentro deste panorama, aliás, a edição de som acaba ganhando destaque inusitado, já que a platéia organiza sua percepção do que está acontecendo mais através dos ruídos do que pelas imagens. No terceiro ato, já à luz do dia, a carnificina corre solta, com algumas das imagens mais literalmente explosivas já vistas na tela do cinema. Verdade seja dita: embora “Rambo IV” não seja exatamente ruim, o trabalho adulto de Stallone na conclusão da série “Rocky” não ganha reprise aqui, e isso acaba por deixar um gosto amargo na boca da platéia.

O DVD da Flashstar é simples. A qualidade de imagem (widescreen) e áudio (Dolby Digital 5.1) está razoável. Cenas de bastidores e entrevistas com atores estão disponíveis, mas não caracterizam documentário, porque é material sem edição.

– Rambo IV (John Rambo, EUA, 2008)
Direção: Sylvester Stallone
Elenco: Sylvester Stallone, Julie Benz, Matthew Marsden, Graham McTavish
Duração: 93 minutos

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